escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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13 de janeiro de 2014, 10h37

Não é só “trocar de canal”

Troca de canal e coloca no quê? No chuvisco das outras ondas, que poderiam estar sendo muito bem aproveitados caso outras centenas de pequenas empresas de mídia detivessem espaço, apoio governamental e condições igualitárias de difusão de informação?

por Bibiano Girard, no Jornalismo B

Até hoje, Sandra Annemberg deve, às vezes, trocar, sem querer, os estúdios de jornalismo da Rede Globo pelos portões que dão acesso aos estúdios de gravação de novelas. Ela ri, chora, faz cara feia e até faz papel de má quando os recados expressivamente ideológicos do canal aos telespectadores são travestidos de reportagem, como ocorreu na tarde de hoje. Tudo em menos de uma hora, com quebras de sorrio para momentos de tensão em milésimos. No ponto, devem avisar: “chora, Sandra!” “Faz cara de reveilón!” “Agora vem a notícia-recado sobre os indultos de Natal, cara de quem já foi assaltada!”, e assim por diante, todos os dias, no jornal que o restaurante da rodoviária deixa ligado enquanto almoçamos.

Eis que nesta segunda-feira (6), como em todas as outras edições do jornal, a âncora conseguiu um fato extraordinário: da morte de uma menina de 8 anos no Maranhão após um grupo de homens ter colocado fogo no ônibus no qual a menina viajava, Sandra causou engasgo numa senhora sentada ao meu lado. Ela riu, limpou algumas gotas de café que respingaram da boca e disse: “que isso, mulher? Tava falando de morte e agora aperta a mão do Evaristo desejando feliz ano novo na maior cara dura?”

Sandra causava medo nos espectadores explicando passo a passo como os bandidos montaram uma rede de conversas de dentro das penitenciárias do Maranhão para fazer ataques a coletivos em represália ao tratamento que forças especiais das polícias estavam dando aos presidiários. Clima de tensão, entrevista com o pai da menina morta, imagens dos familiares destruídos pela notícia e legendas em escutas telefônicas. Datena estava adorando. Mas a reportagem termina e quando a imagem volta aos estúdios de São Paulo, a moça atriz e âncora prestava um sorriso de orelha a orelha. Feliz Ano Novo, disse ela, enquanto apertava a mão do colega de mesa. Neste momento, a senhora ao meu lado riu e bufou café sem querer.

Eu ri, assim como a maioria das pessoas no nosso entorno no restaurante. Mas o caso, como sempre, no fundo, é muito sério. Quando dizem “é só trocar de canal”, é como dizer “sai da fila do SUS e procura o serviço particular”. É se ater ao simplório antes de querer discutir o grosso. O espectro radioelétrico, isto é, a divisão do ar em faixas de freqüência para transmissão do sinal da TV aberta, é um bem público. Não tem, supostamente, dono. Segundo leis, é um espaço gerido pela União, como tantos outros serviços mantidos pelo Estado, ou que deveriam ser mantidos. Mas não cabe à população qualquer tipo de escolha democrática e efetiva sobre as concessões públicas aos conglomerados midiáticos do país, muito menos às programações.

BBB e o jornal apresentado por Sandra Annemberg fazem parte de produtos concedidos por uma empresa privada que se utiliza do espectro que deveria ser de todos. Não é o caso de trocar de canal quando o único canal que pega na televisão da rodoviária é a Globo. E bastaria mais um comentário como “assina uma TV a cabo” para que quem ali estivesse apavorado com a reação da âncora fosse destronado: é como dizer a alguém na fila do Hospital que procure uma clínica privada.

É admirável indicar ao paciente que procure o serviço privado de planos de saúde? Não. Assim como não deve ser natural nossa aceitação sobre a privatização de nosso espectro radioelétrico por não aceitarmos a programação de um canal que é massivo e que controla boa parte dos canais – muitas vezes únicos – de milhares de cidades do país. Troca de canal e coloca no quê? No chuvisco das outras ondas, que poderiam estar sendo muito bem aproveitados caso outras centenas de pequenas empresas de mídia detivessem espaço, apoio governamental e condições igualitárias de difusão de informação?

Dados divulgados pela Presidência mostram que dez empresas de comunicação concentram 70% da verba distribuída. Fazendo um paralelo com planos de saúde, que também exploram um serviço que deveria ser totalmente público e para todos, seria como doar 70 reais de R$100 para apenas dez empresas de planos de saúde. Às outras, restam migalhas a serem divididas por muitos. É aí, em noções bem básicas sobre democratização e apoio de governos que mora a crítica de quem luta pela democratização da mídia. Resta a pergunta: se é direito trocar de canal, não seria direito de todos haver outros canais para tal?


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