escrevinhador

por Rodrigo Vianna

Entrevista exclusiva com Lula
27 de dezembro de 2010, 22h26

Nelson, Caetano, o Papa e a Mesbla

Os LPs saltaram do baú. E com eles boas lembranças. Há quantos anos não ouvia Nelson Cavaquinho. Foi uma delícia reencontrar também meu disco vermelho do “Língua de Trapo”, o “Dire Straits” e muito Caetano Veloso. Sem falar nas minhas fotos dos anos 70, outras dos anos 90. A multidão no Rio pra ver o Papa, e ao fundo o letreiro da Mesbla. Tudo se foi. Saudade, sim. Mas sem saudosismo.

Devoção, na festa de 10 anos

Uma festa de aniversário no fim dos anos 70. Esse blogueiro aparece debruçado sobre o bolo – que traz o símbolo do Corinthians desenhado no glacê: um capricho (carinhoso) de minha mãe.

Sobre a mesa, a inevitável garrafa de Fanta Laranja. De vidro, claro.

Pernas tortas (sou o primeiro, à esq.) não eram as de um craque

Outra foto, ainda mais antiga: meu irmão e eu com o uniforme alvinegro. As pernas tortas bem que poderiam ter prenunciado o talento de um Garrincha. Mas poucos anos depois revelariam no máximo um lateral-direito abrutalhado, que sentava o sarrafo nos adversários, ou um médio volante no estilo Dunga. A imagem traz ainda o bom amigo Luiz Rodrigo Lemmi – que depois seria colega de escola, além de companheiro nas primeiras aventuras políticas, parceiro em incursões musicais e desventuras etílicas. Virou advogado e, poucos meses atrás, ganhou (em concurso) a concessão de um cartório no interior paulista. Segue corintianíssimo! 

Com a casa vazia, e nesse limbo entre Natal e Ano Novo, a época parece mesmo propícia para abrir velhos baús. Mas há outra explicação: no dia 25, conheci o apartamento novo de minha irmã, e vi o móvel bonito que meu cunhado encomendou para a sala, só pra guardar a extensa coleção de LPs. Rock, ópera, clássicos… Impressionante. O Carlão é eclético e soube preservar a coleção. Olhando praquele móvel repleto de LPs, lembrei dos meus velhos discos: maltratados, abandonados num baú aqui em casa. Resolvi abri-lo.

Os LPs saltaram. E com eles boas lembranças. Há quantos anos não ouvia Nelson Cavaquinho. O disco (de 1985) foi presente de Alexandre Schneider (hoje, secretário de Educação da Prefeitura de São Paulo). Chico Buarque, Paulo César Pinheiro (letrista genial), Paulinho da Viola, Carlinhos Vergueiro, Beth Carvalho e outros se reuniram pra oferecer o que Nelson havia pedido: “As Flores em Vida!”

“Depois, quando eu me chamar saudade, não preciso de vaidade, quero preces e nada mais” (N.C).

Foi uma delícia reencontrar também meu disco vermelho do “Língua de Trapo”, que – ao lado do “Premeditando o Breque” e do “Rumo – compunha a tríade dos bons grupos “alternativos” na São Paulo dos anos 80. Vocês se lembram?

E o “Dire Straits”, com aquele “Brothers in Arms” de capa azul? Delicioso. Assim como Stan Getz e João Gilberto (outro presente do Schneider, se não me falha a memória), Vinicius, Toquinho, Tom, Gil, Caetano… Muito Caetano! Dos mais manjados “Estrangeiro” e “Totalmente Demais”, até um pelo qual tenho carinho especial: na capa, Caetano surge na praia, de óculos, e uma mão misteriosa parece querer entregar-lhe uma fita cassete. Mas Caetano olha pro outro lado.

Esse LP foi presente de uma namorada – a Isis – que partiu cedo demais. A gente se acabava de tanto ouvir Caetano. Ela adorava interpretar as letras (estudava Letras), e eu ia junto na viagem. O disco é bom mesmo. Tem duas das mais pungentes canções de Caetano: “José” e “O Ciúme” são elaboradas e dilacerantes – na tristeza que parece saltar do vinil.

Hoje em dia, muita gente implica com o Caetano, pelas posições políticas que assumiu. Eu procuro separar as coisas. Caetano pode dizer qualquer besteira. No meu coração guardo as letras geniais:

JOSÉ

“Estou no fundo do poço/Meu grito/Lixa o céu seco/O tempo espicha mas ouço/O eco
Qual será o Egito que responde/E se esconde no futuro?/O poço é escuro/Mas o Egito resplandece
No meu umbigo/E o sinal que vejo é esse/De um fado certo/Enquanto espero/Só comigo e mal comigo
No umbigo do deserto.” (C.V.)

 Mas no baú também há coisas engraçadas: um LP de Sá e Guarabira (nem lembrava que um dia gostei deles), e outros dois de Pedrinho Mattar (presente de meus pais, se bem me lembro, quando comecei a estudar piano). Muitas vezes já tentei jogar fora o Pedrinho Mattar. Não consigo. Hoje, de novo: olhei as capas, ri, não escutei; mas guardei os discos no fundo do baú. 

E ainda havia as fotos. Depois do aniversário de 1979 e da pose corinthiana em 78, um salto para os anos 90. Repórter na TV Globo no Rio, sob o sol inclemente do Aterro do Flamengo, visto um terno claro.  Ao fundo, a multidão se aglomera pra ver o Papa João Paulo II. Mais ao fundo ainda, o velho letreiro da “Mesbla”.  Participei da transmissão ao vivo naquele dia. Depois da missa, incentivado pelo cinegrafista Zé Carlos (que hoje é chefe lá no Jardim Botânico), corri pra entrevistar Roberto Carlos e a mulher: eles mostraram o terço benzido pelo Papa. É o que aparece na foto.

E daí? E daí, nada. O que me choca é que o letreiro, a Mesbla e o Papa polonês não existem mais. E eu quase não me reconheço naquela foto. Exagero? Talvez Freud explique.

Também já não existe o Tim Lopes. A não ser na lembrança. Em 1998, ele me pautou pra uma feijoada na Mangueira. Chico Buarque seria o tema do enredo naquele ano, e o Tim (que era mangueirense) conseguiu uma entrevista (sempre difícil de negociar) com o Chico. Foram duas perguntas no máximo, eu acho. Intimidado diante do ídolo, só tive tempo de pedir a um colega pra bater a foto – que ficou muito melhor do que a matéria que a Globo levou ao ar. Ao Tim, que estava na feijoada e assistiu à cena da mesa ao lado, eu devo essa.

E paro por aqui. Porque do baú saltam outras fotos, muitas. Lembranças de amigos com quem não falo há muito tempo. Vou tentar ligar agora para alguns deles. Antes que seja tarde. Até porque o tempo – se me permitem o lugar comum – vai passando rápido demais pro meu gosto.

Saudade eu sinto. Mas saudosista descobri que não sou. Se querem saber a verdade, já estou até cansado de ter que levantar a cada 15 minutos pra virar esses velhos discos a tocar aqui na vitrola, enquanto batuco esse post. Os LPs trazem, sim, ótimas lembranças. Valem por isso, e pelos amigos a que me remetem. Mas prefiro ouvir música em CD, ou baixar direto da internet.

Da mesma forma, os tempos de Globo trazem boas lembranças. Das pessoas, sobretudo; e de algumas situações especiais. Mas prefiro a liberdade de hoje. O resto pode repousar no fundo do baú, ao lado dos discos do Pedrinho Mattar.

O Rei, a mulher e o terço

A multidão, o sol escaldante e o letreiro da Mesbla ao fundo (testemunha de outros tempos)

Chico numa feijoada na Mangueira: foto ficou melhor do que a entrevista


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