escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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23 de fevereiro de 2011, 11h26

O aumento do pão e o assassino de Vanessa

por Maíra Kubík Mano: O que acontece com o jornalismo brasileiro é que não estamos acostumados a ver essas pautas sob uma perspectiva de gênero. E, assim, acabamos não conectando uma coisa com a outra: se a violência contra a mulher têm ainda altos índices no Brasil, é claro que cria-se um clima de permissividade para cometê-la.

O aumento do pãozinho e o assassino de Vanessa
por Maíra Kubík Mano, no blog Viva Mulher

Na segunda-feira passada, o Jornal da Band – mas poderia ser de qualquer outra emissora – começou falando sobre o caso da policial acusada de extorsão que foi obrigada, por seus colegas, a ficar nua enquanto era interrogada. A matéria apresentou o episódio como abuso de autoridade e violência contra a mulher.

A notícia seguinte era sobre o assassinato da supervisora de vendas Vanessa Duarte e trazia detalhes de como o suspeito desejava sexualmente a vítima.

Dois blocos depois, o Jornal da Band apresentou uma pesquisa recém-lançada pela Fundação Perseu Abramo e pelo SESC que demonstra que a cada dois minutos uma mulher é agredida violentamente no Brasil. E, o que era mais surpreendente e foi destacado pelo âncora: esse dado melhorou! Há dez anos eram oito mulheres espancadas no mesmo intervalo de tempo.

Mas… será que as duas primeiras matérias não tinham nenhuma relação com a última?

Óbvio que sim. Só que o que acontece com o jornalismo brasileiro é que não estamos acostumados a ver essas pautas sob uma perspectiva de gênero. E, assim, acabamos não conectando uma coisa com a outra: se a violência contra a mulher têm ainda altos índices no Brasil, é claro que cria-se um clima de permissividade para cometê-la. E logo vemos casos de assassinato ou de situações constrangedoras, como a vivida pela policial.

Só que é preciso, cada vez mais, “ligar os pontos”. Se não refletirmos sobre isso, dificilmente sairemos dessa porcentagem assustadora. No México e na Guatemala, por exemplo, a solução encontrada foi chamar as mortes de mulheres de “feminicídios”, destacando assim sua origem no preconceito de gênero.

Aqui, por outro lado, seugimos deixando isso invisível nas notícias. E dando pouca importância para a mulher em geral. Logo depois da matéria sobre a pesquisa Perseu Abramo – SESC, o Jornal da Band noticiou o aumento do salário mínimo, em discussão no Congresso Nacional. Entrevistaram um político, homem, para comentar a questão. E sabe qual foi a fala da mulher? Foi uma dona-de-casa que analisava o quanto daria para comprar de pães com o crescimento da renda. Sem desmerecer seu papel, claro, mas por que um homem não poderia falar sobre isso? Ou só as mulheres freqüentam padarias? E por que não entrevistar uma deputada federal?

São nossos velhos hábitos jornalísticos que precisam mudar tanto quanto a violência física.


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