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por Rodrigo Vianna

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13 de março de 2012, 09h40

Editorial canalha: O Globo e os dominicanos

por Rodrigo Vianna: recebo de um bom e velho amigo, que conheci nos tempos da Globo no Rio, editorial que merece estar em qualquer livro que reconstitua a história da Globo no Brasil. Canalha é um adjetivo leve demais para classificar a atitude do jornal frente aos padres dominicanos, vítimas de violentas torturas nos quartéis da ditadura.

Recebo de um bom e velho amigo, que conheci nos tempos da Globo no Rio, editorial que merece estar em qualquer livro que reconstitua a história da Globo no Brasil. A TV tem qualidade técnica e bons profissionais, não resta dúvida. Mas é também impossível negar que o Império da família Marinho foi construído com textos como o reproduzido abaixo: canalha é um adjetivo leve demais para classificar o editorial do jornal “O Globo”, resgatado e publicado pelo Centro de Cultura e Memória do Jornalismo, ligado ao Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro. (Rodrigo Vianna)

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do Centro de Cultura e Memória do Jornalismo

Muitas homenagens póstumas têm sido prestadas ao ex-deputado e guerrilheiro Carlos Marighella pelo centenário do seu nascimento, em 5 de dezembro de 2011. Nesse dia Marighella foi anistiado por unanimidade pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Mas em 1969 a morte do líder da Ação Libertadora Nacional levou o jornal O Globo a publicar editoriais que causaram indignação entre todos que se opunham à ditadura militar.

Seis de novembro de 1969. O Globo estampa, na primeira página, um editorial com o título “O beijo de Judas”. Na opinião do jornal, “Judas”, “beijoqueiros da traição”, “delinquentes”, covardes, “infelizes” são os frades dominicanos Fernando de Brito e Yves do Amaral Lebauspin, conhecido como Frei Ivo. Dias antes eles haviam sido presos em São Paulo na “Operação Batina Branca”, comandada pelo delegado torturador Sérgio Fleury, chefe do DOPS paulista. Alguns dominicanos, ordem religiosa de Ivo e Fernando, davam apoio logístico à luta armada contra a ditadura. Levados para o DOPS, os dois são torturados para revelar o local onde teriam um encontro com o guerrilheiro Carlos Marighella, líder da ALN.

Terça-feira, quatro de novembro. Ivo e Fernando são conduzidos ao local pela equipe de Fleury. Ao se aproximar do fusca onde estão os dominicanos, Marighella é cercado e morto pela polícia. Na época, quase um ano após a decretação do Ato 5, qualquer empresa de comunicação sabia que a tortura, os sequestros e assassinatos de opositores do regime eram práticas comuns. Até porque, sob violenta censura, a imprensa era obrigada a publicar, em casos como esses, a versão oficial. Com editoriais como “O beijo de Judas”, O Globo foi muito além do que exigia a ditadura.

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O beijo de Judas (editorial publicado em “O Globo”)

Carlos Marighella morreu, como Guevara, de armas na mão. Lutando. Foi fiel até o fim ao evangelho do ódio, da violência a que serviu com implacável fanatismo por mais de trinta anos.

Alguns dos crimes mais bárbaros da história policial do Brasil talvez hajam sido praticados pelo Grupo Marighella. A morte do Capitão Chandler, por exemplo, é dêsses episódios que figurarão nos anais da crueldade e da covardia humanas.

Dezenas de atentados, assaltos e alguns seqüestros tiveram a participação do bando ultra-radical do ex-deputado pelo PCB e que há dois anos representava a OLAS, de Havana, no Brasil, aqui espalhando a morte e a destruição.

Mas reconheça-se que Marighella pôs toda a sua sinceridade nessa vida de sinistras empreitadas que teria seu epílogo anteontem na Alameda Casa Branca em São Paulo.

Examinemos porém a participação dos frades dominicanos no fato Frei Ivo e Frei Fernando levaram a polícia a Marighela.

Há dois anos, num Convento paulista, realizou-se um congresso da UNE. Como se tratava de reunião ilegal, pois a entidade lá então não tinha existência reconhecida, as autoridades penetraram naquela casa “religiosa” e fizeram algumas detenções, inclusive de sacerdotes dominicanos.

Quase que o mundo desabou. Choveram os protestos contra a “perseguição religiosa”. O fato de sacerdotes dessa Ordem, como Frei Josafá – redator principal do famigerado periódico “Brasil-Urgente” dos tempos de Goulart –, serem veteranos no radicalismo político não foi levado em conta pelos “liberais”, que “não acreditavam” que padres tivessem feito aquilo por mal. “Foram enganados” – argumentavam.

Agora, a morte de Marighella é um levantar de cortinas. Frades dominicanos integram o grupo que espalha a morte e o terror por este Brasil enlutando famílias, fabricando viúvas e órfãos.

Não apenas os dois que “entregaram” – Frei Ivo e Frei Fernando – fazem parte do grupo. Estão diretamente implicados nas atividades de Marighela Frei Tito, Frei Luís Felipe, o Ex-Frei Maurício.

Alguns outros já abandonaram a batina e encontram-se fora do País, como o Ex-Frei Bernardo Catão, também do Convento de São Paulo, que se casou com uma ex-freira e hoje vive nos Estados Unidos. Frei Chico, outro célebre agitador, também abandonou a Ordem dos Pregadores e emigrou para casar-se.

É uma trágica dissolução o que se contempla. Uma Ordem de sete séculos e meio, que deu à história nomes como São Domingos, São Tomás de Aquino, Santa Catarina de Sena, Fra Angelico, produz delinqüentes desprovidos de qualquer dimensão de grandeza como esses dois maus acólitos de Marighella.

Frei Ivo e Frei Fernando já haviam traído a Igreja e a Ordem a que pertencem quando, renegando os votos de amor e caridade impostos pelo Evangelho cristão, abraçaram a filosofia de ódio ensinada por Lenine APUD Marx.

Essa traição foi o primeiro beijo de Judas que deram. Todo o resto decorreu desta apostasia – ainda mais grave que o usual, pois fingiram que ainda continuavam dentro da Igreja, quando apenas dela se utilizavam para servir ao terror.

“Então um dos doze, que se chamava Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e lhes disse: Que me quereis dar, e vo-lo entregarei? E eles lhe deram trinta moedas de prata. E desde então buscava oportunidade para O entregar.”

Quando aderiram ao comunismo, Frei Ivo e Frei Fernando repetiram o gesto de Iscariotes. Esvaziados da moral cristã, entregaram-se ao amoralismo marxista-leninista. Frei Ivo declarou em 1966 a uma revista mensal o seguinte: “Meu Deus não é o deus-ópio, que aliena: ao contrário, Ele engaja, compromete.”

Êsse “DEUS” anticristão “engaja” os homens nisso: na volúpia de matar e na covardia diante do perigo de vida.

Frei Ivo e Frei Fernando, que rasgaram os votos que livremente firmaram diante de Deus, perderam a resistência moral e traíram os votos de fidelidade à própria doutrina da violência. Entregaram Marighella à polícia com meticulosa proficiência.

Foi um segundo beijo à maneira de Judas. Esses infelizes frades beijoqueiros da traição, bem encarnam o papel devastador desempenhado em certos setores da Igreja por determinadas alas ditas “renovadoras”. Ontem mesmo Paulo VI fazia mais uma advertência a estes grupos, ao dizer: “Nada dentro da Igreja deve ser arbitrário, tumultuoso ou revolucionário.”

 

Que a covardia desses infelizes frades pelo menos sirva de lição às ovelhas tresmalhadas que seguem por esses descaminhos escabrosos de traição a todos os valores.

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Frei Fernando de Brito vive hoje na cidade de Conde, litoral da Bahia, onde desenvolve trabalhos sociais. Yves Lebauspin não é mais frei. Atualmente dá aulas em uma universidade do Rio. Além deles, 12 dominicanos foram presos em São Paulo na Operação Batina Branca. Um desses frades, o cearense Tito de Alencar Lima, citado no editorial do Globo, foi torturado durante vários dias pelo próprio delegado Sérgio Fleury. As torturas deixaram Tito mentalmente perturbado e o levaram ao suicídio, durante o exílio na França, em 10 de agosto de 1974. O martírio dos dominicanos é descrito no livro “Batismo de Sangue”, de Frei Betto — também preso na época –, vencedor do Prêmio Jabuti em 1982.


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