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por Rodrigo Vianna

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12 de abril de 2011, 10h39

Os ensinamentos de Realengo à República

A tragédia em Realengo não é apenas mais uma entre tantas que nos atingem – desde desastres aéreos até chacinas como a de El Dourado dos Carajás. O que aconteceu no Rio de Janeiro é um divisor de águas, uma mudança substantiva no modo de o Brasil se relacionar com a escola e um salto sem precedentes em direção ao pânico social.

por Marcelo Salles

A tragédia em Realengo não é apenas mais uma entre tantas que nos atingem – desde desastres aéreos até chacinas como a de El Dourado dos Carajás. O que aconteceu no Rio de Janeiro é um divisor de águas, uma mudança substantiva no modo de o Brasil se relacionar com a escola e um salto sem precedentes em direção ao pânico social.

A partir dessa tragédia, as famílias não terão apenas o receio de que ofereçam drogas a seus filhos nas escolas. Agora elas temerão que algum psicopata entre atirando nas salas de aula.

Acidentes como o da TAM e o da GOL sempre poderão ser compreendidos pela imprevisibilidade inerente ao transporte aéreo, enquanto Carajás é fruto de um conflito social que, infelizmente, sabemos que ainda provoca mortes no país. Mas e as crianças? Abatidas como patos, num ato supremo de covardia? Como classificar a tragédia em Realengo? O que pode vir depois? Alguma coisa poderia ter sido feita para prevenir? Como conviver com essa incerteza mortal?

Difícil responder a tudo isso, mesmo porque não há como uma sociedade criar políticas públicas específicas para impedir que pessoas saiam por aí matando as outras. Mas é possível construir políticas públicas para dificultar o acesso a armas, por exemplo.

Além disso, há outra coisa a se fazer. Rever a forma como tratamos nossas crianças e adolescentes, qual o lugar que lhes reservamos no imaginário social, de que forma elas se inserem e são inseridas nos espaços público e privado.

E mais. Seria bom que começássemos a discutir, seriamente, que tipo de sociedade estamos construindo. E começar a perguntar quais fatores contribuem para que um cidadão cometa um crime como esse. Sim, é preciso traçar o perfil psicológico do criminoso e pesquisar se ele foi mesmo vítima de abusos, assim como é preciso conhecer sua verdadeira inserção em meios fundamentalistas religiosos – tenham estes quaisquer matizes.

Além disso, vale ressaltar que nenhuma análise que se pretenda séria pode deixar de lado a responsabilidade das corporações de mídia, entendidas aqui de modo amplo, desde empresas que fabricam jogos violentos até os meios de comunicação de massa (sobretudo cinema e televisão) que cotidianamente impõem valores individualistas, egoístas, que fazem com que o outro seja visto como um adversário ou inimigo – o tal programa BBB é o exemplo mais bem acabado disso, e aí você pode acrescentar o incentivo à inveja, à superficialidade, à competição desmedida. Vale qualquer coisa para ganhar 1,5 milhão ou 15 minutos de fama.

Não há um estudo a esse respeito, mas o fato é que todos os casos de psicopatas que promovem chacinas em locais de grande circulação de pessoas e depois cometem suicídio são registrados em países capitalistas avançados, a começar pelos EUA. O raciocínio faz todo o sentido numa terra que hiper-valoriza a ideia de “self made man”, que se diz o país das oportunidades para todos e ao mesmo tempo joga a culpa do fracasso sobre aqueles que não conseguiram ganhar dinheiro – medida suprema de sucesso nesse modelo de sociedade.

Sendo assim, o mais provável é que a tragédia de Realengo tenha sido motivada por uma conjunção de fatores, a saber: abuso anterior contra o atirador, inclusive por parte de familiares (uma possibilidade que merece ser investigada), o fundamentalismo religioso, o sucateamento do ensino, o aprofundamento do capitalismo no país e os valores disseminados pelas corporações de mídia.

Não há como trazer de volta os mortos em Realengo, mas é possível que eles sirvam de alerta para pensarmos – e agirmos – na construção de uma sociedade pautada pela busca da harmonia, da paz e da elevação espiritual.

Marcelo Salles, jornalista, atuou como correspondente da revista Caros Amigos no Rio de Janeiro (2004 a 2008), e em La Paz (2008 a 2009).


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