escrevinhador

por Rodrigo Vianna

05 de dezembro de 2011, 18h05

“Será que os palestinos não têm direito à paz?”

O questionamento vem de Abla Sa’adat, que veio ao Brasil participar da Semana do Povo Palestino. Abla estava acompanhada de outras lideranças: Leila Khaled, Jamal Juma e Mahmoud Zwahre. Além de exporem a situação a qual estão submetidos, os palestinos vieram pedir apoio internacional à sua luta.

Por Juliana Sada

A singela pergunta choca. O questionamento vem de Abla Sa’adat, coordenadora da Campanha Pela Libertação dos Presos Políticos palestinos. Abla Sa’adat veio ao Brasil participar da Semana do Povo Palestino, promovida pelo Instituto da Cultura Árabe. Em debate realizado no dia 29, Abla estava acompanhada de outras lideranças: Leila Khaled, Jamal Juma e Mahmoud Zwahre. Além de exporem a situação a qual estão submetidos, os palestinos vieram pedir apoio internacional à sua luta.

Abla Sa’adat focou na situação de ativistas palestinos que foram detidos por Israel. De acordo com a Addameer, entidade de apoio aos prisioneiros, existem quase cinco mil presos políticos. Entre eles, está o marido de Abla, Ahmad Sa’adat, que é secretário geral da Frente Popular para a Libertação da Palestina.

Ainda de acordo com a Addameer, quase 300 palestinos são “presos administrativos”, ou seja, sem acusação formal. “O serviço de inteligência apresenta informações que são secretas e isso basta para a prisão. Nem o preso nem o advogado de defesa podem ter acesso à acusação”, explica Abla.  Entre os presos, há cerca de 20 parlamentares do Conselho Legislativo Palestino — quase todos sem acusação formal — detidos após serem eleitos.

A prisão seria o destino certo de Leila Khaled, caso retornasse à Palestina. Em 48, sua família deixou sua cidade natal, Haifa, quando o Estado de Israel foi criado. Em 70, a ativista ganhou projeção ao participar do sequestro de um avião israelense com o intuito de libertar presos palestinos. Leila foi detida na Inglaterra, mas acabou solta, apesar dos pedidos de extradição de Israel.

Atualmente, Leila participa da União Nacional de Mulheres Palestinas e do Conselho Nacional Palestino, e defende o direito de resistência: “temos direito de lutar com todos os meios contra a ocupação”.  De acordo a ativista, as principais reivindicações dos palestinos se resumem na consolidação de três direitos: o de retorno dos exilados, o de autodeterminação e o de criação de um Estado.

A cobrança de ação da comunidade internacional foi central na fala de Jamal Juma, coordenador da campanha de boicote comercial à Israel: “hoje em dia não há solidariedade com o povo palestino sem discutir o boicote”. A frase trazia uma mensagem ao Brasil. Jamal explica que, prevendo um possível isolamento, nos últimos anos, Israel expandiu suas relações com outros países. Entre eles, o Brasil, que se tornou um dos maiores compradores de armas israelenses. Neste ponto Jamal destaca uma das cláusulas do contrato: que não houvesse revenda para a Bolívia e a Venezuela. Ele mostra ainda a importância de Israel em alguns setores da economia brasileira: cerca de um terço do mercado de café brasileiro é dominado por uma empresa israelense, a Strauss-Elite; e 25% de insumos utilizados pelo agronegócio, como cloreto de potássio e fosfato, vêm de Israel.

Jamal participa também da “Stop the Wall”, campanha contra a construção do muro que pretende isolar territórios palestinos e israelenses. Ele destaca que o muro separa crianças de suas escolas e trabalhadores de suas terras: “estão construindo um sistema de controle total sobre os palestinos” e isso destrói “qualquer possibilidade de criar um Estado palestino viável”. Jamal compara Israel ao regime de apartheid da África do Sul por considerar racista e segregacionista o projeto de construção do muro. Ele denuncia ainda a construção de estradas, pontes e túneis que somente israelenses poderão utilizar: “nem na África do Sul houve isso”.

A África do Sul foi relembrada também por Leila Khaled para instigar a ação internacional: “o mundo isolou o regime de apartheid na África do Sul. Porque o mundo não tenta novamente essa experiência com Israel?”.

Já Mahmoud Zwahre, que participa do comitê em sua cidade contra a construção do muro israelense, lembrou que em novembro de 1989 o mundo comemorava a queda do muro de Berlim e ainda assim, 23 anos depois, um novo muro é erguido. Para ele, o governo israelense não acredita no entendimento entre os povos, mas ressalta que “o comportamento de Israel não é fruto da grande religião que é o judaísmo e sim do sionismo.”.

Esta linha de pensamento foi criticada também por Leila Khaled: “o sionismo criou a grande mentira de que a Palestina era a terra prometida os judeus. O mundo infelizmente acreditou nessa mentira”.

Apesar do panorama apresentando, os palestinos traziam esperança em suas falas. Abla Sa’adat disse acreditar que “o povo brasileiro e da América Latina é aliado nessa luta” e resumiu o sentimento palestino: “simplesmente somos um povo como qualquer outro, nos recusamos a viver humilhados e queremos desfrutar da vida”.


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