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por Rodrigo Vianna

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15 de dezembro de 2011, 10h57

Um a menos

Neste mês encerrou-se uma busca e um luto que já duravam 38 anos. As cinzas de Miguel Sabat Nuet, preso e morto pela ditadura militar brasileira, foram entregues aos seus filhos pelas mãos da emocionada ministra Maria do Rosário, no dia 12 de dezembro. O espanhol-venezuelano Miguel não tinha nenhuma atividade política e estava apenas de passagem pelo Brasil quando foi preso em 1973 em São Paulo, torturado e assassinado no DOPS.

Por Juliana Sada

Neste mês encerrou-se uma busca e um luto que já duravam 38 anos. As cinzas de Miguel Sabat Nuet, preso e morto pela ditadura militar brasileira, foram entregues aos seus filhos pelas mãos da emocionada ministra Maria do Rosário, no dia 12 de dezembro.


O espanhol-venezuelano Miguel não tinha nenhuma atividade política e estava apenas de passagem pelo Brasil quando foi preso em 1973 em São Paulo, torturado e assassinado no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). A procuradora da República Eugênia Augusta Gonzaga, responsável pelo caso, considera que esta “é uma das mortes que mais expõe a ditadura, ele foi preso apenas por falar outra língua e por, como os registros mostram, ‘ser metido a filósofo’”, em referência aos textos que escrevia na prisão, durante os vinte dias que esteve numa cela do DOPS antes do assassinato.

A ossada de Miguel foi encontrada em 2008 no cemitério Dom Bosco, em São Paulo, na chamada “vala de Perus”, onde já foram encontrados corpos de outros desaparecidos políticos, enterrados como indigentes. A confirmação da identidade  foi possível após análise de amostras de DNA retiradas da ossada e comparadas com as disponíveis no Banco de DNA da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Após a identificação do corpo, a Comissão reabriu o processo sobre a morte e Miguel Sabat Nuet foi reconhecido como mais uma vítima da ditadura militar brasileira. A ossada permaneceu no Instituto Médico Legal até dezembro deste ano quando foi cremada à pedido da família.

Memória e dignidade
Para a ministra da Secretaria dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, “resgatar a memória é, na verdade, resgatar a dignidade daqueles estão desaparecidos”. Para a família de Miguel, as investigações trouxeram de volta a dignidade do pai católico que teria se suicidado em um país estrangeiro, deixando para trás três filhos jovens: Maria Del Carme, Lorenzo e Miguel. Os três estiveram presentes na cerimônia.

Durante o ato, o filho Miguel Sabat Díaz pediu justiça, mas se mostrou aliviado: “nunca mais nos atormentaremos pensando como ele podia ter tirado sua vida sem nos dizer nem uma palavra”. Maria Del Carmen relembrou o dia em que, com apenas 18 anos, atendeu uma ligação avisando que seu pai havia se suicidado: “estou recebendo as cinzas, mas estão nos devolvendo também uma história, a verdade”.

A ministra Maria do Rosário pediu perdão em nome do Estado brasileiro à família, mas ressaltou “o que fazemos hoje não apaga o mal que foi feito”. Ela afirmou o empenho pessoal da presidenta Dilma Rousseff em investigar as violações cometidas pelo Estado durante a ditadura militar, “há muitas dívidas”.

Miguel Sabat Nuet deixa agora de integrar a triste lista dos mais de 140 desaparecidos políticos, mas ainda falta muito para que outras famílias encerrem seu luto e sua luta de décadas.


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