A fome voltou nas favelas brasileiras

Data-Favela: 68% das pessoas de 76 favelas brasileiras passaram ao menos um dia sem ter dinheiro para comprar comida. A média de refeições caiu para menos de duas refeições diárias

Quando Lula assumiu em 2003 seu discurso de posse denunciava a fome, a extrema desigualdade em um país tão rico: “Num país que conta com tantas terras férteis e com tanta gente que quer trabalhar, não deveria haver razão alguma para se falar em fome. No entanto, milhões de brasileiros, no campo e na cidade, nas zonas rurais mais desamparadas e nas periferias urbanas, estão, neste momento, sem ter o que comer. Sobrevivem milagrosamente abaixo da linha da pobreza, quando não morrem de miséria, mendigando um pedaço de pão.”

O presidente sentenciou em seu pronunciamento que enquanto houvesse um brasileiro passando fome, isso era motivo de sobra “para nos cobrirmos de vergonha” e, por isso, Lula definiu como uma das prioridades de seu governo um programa de segurança alimentar que levou o nome de “Fome Zero“.

O restante da história vocês já sabem: valorização do salário mínimo, geração de postos de trabalho formal, políticas públicas como o bolsa família, investimento do Estado no desenvolvimento do país. O Brasil chegou à 6a economia do mundo e saiu do mapa da Fome. De 2003 a 2013  o Brasil reduziu em 82% a fome, a desnutrição e a subalimentação.

Golpe, Bolsonaro e Pandemia levaram os brasileiros pobres a passar fome de novo
Ao longo dos últimos 5 anos, 10,3 milhões pessoas voltaram a passar fome no Brasil, segundo dados do IBGE. O desemprego, o achatamento da massa salarial, a desindustrialização ampliaram o número de famintos no Brasil. A pandemia e a falta de política para socorrer os mais vulneráveis agravou a situação.

É o que demonstram os dados levantados pela última pesquisa do Instituto Data-Favela- Locomotiva- Pesquisa e Estratégia e a Central Única das Favelas (Cufa). A pesquisa foi realizada em 76 favelas em todas as unidades da federação, no período de 9 a 11 de fevereiro de 2021 com 2.087 pessoas maiores de 16 anos.

Entre os entrevistados 68% passou ao menos um dia sem nenhum recurso para comprar alimentos nas duas semanas anteriores à pesquisa. A média de refeições diárias também caiu de 2, 4 em agosto de 2020, para 1,9 em fevereiro de 2021.

Os dados da pesquisa mostram que 93% dos moradores de favela não têm nenhuma poupança e 71% das famílias estão sobrevivendo com menos da metade da renda, que obtinham antes da pandemia.

De acordo com Renato Meirelles, Fundador do Data Favela, e presidente do Instituto Locomotiva que monitorou a situação das favelas ao longo de 2020, os dados atuais são ainda mais preocupantes do que os do início da pandemia e houve piora em todos eles: “O principal impacto é na geração de renda. Como tem um grupo grande de trabalhadores informais, e o auxílio emergencial demorou para chegar na favela, o impacto na renda foi gigantesco, e isso trouxe a fome. A fome é consequência da ausência de renda”, destaca Meirelles.

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Alto risco de contágio, maior número de mortes e solidariedade

A demora do novo auxílio emergencial (cancelado em dezembro de 2020) quando o Brasil bate recorde de mortes, passando a marca de 2 mil óbitos por dia, tem ampliado o contágio e as mortes entre os mais pobres.

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O Brasil é o pais com maior mortalidade materna devido a covid-19 em todo o mundo e quando se trata de vírus e desigualdade o número de contágio nas favelas é o dobro dos bairros nobres.

Os trabalhadores das favelas são obrigados a se expor mais para conseguir um prato de comida e isso agrava ainda mais as condições sanitárias dos moradores das comunidades. De acordo com a pesquisa Data-Favela: 32% procuram seguir as medidas de prevenção contra a covid-19; 33% estão procurando seguir, mas nem sempre conseguem; 30% não conseguem seguir; 5% não estão tentando seguir. Os dados mostram a urgência da aprovação do auxílio emergencial para conter a fome e o contágio da covid-19.

Sem auxílio emergencial são as ações solidárias entre os próprios moradores da favela e de sindicatos e movimentos sociais que estão fazendo a diferença entre a fome e o prato de comida, entre a vida e a morte.

Dados do Data-Favela mostram que 90% dos moradores da favela receberam algum tipo de doação durante a pandemia e 80% das famílias não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar as contas básicas caso não tivessem recebido doações.

Nesta quinta-feira (18/03), o Fórum Sindical entrevista o presidente da CUFA, Preto Zezé, para falarmos sobre a última pesquisa do Data-Favela e das ações de solidariedade. A importância das doações na vida dos moradores de favela é fundamental.

Para ter acesso à íntegra da pesquisa, clique aqui

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Sindicato Popular

O blog é uma parceria da Fórum com o Sindipetro-NF (Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense). Traz artigos e análises de temas de interesse dos trabalhadores.

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