“Bovid-19”: variante brasileira do coronavírus preocupa o mundo

Imprensa internacional questiona se a nova cepa surgida em Manaus coloca em xeque a "imunidade de rebanho"

CYNARA MENEZES

Bovid-19, Bolsovírus, B17… Oficialmente chamada de P1, não faltam sugestões de apelidos para a variante do coronavírus que surgiu no Brasil. Mais rápida, grave e letal entre os jovens do que a forma mais conhecida da doença, ela já é responsável por quase metade das infecções em Manaus. Na imprensa internacional, a “variante brasileira” ganhou manchete em todos os veículos importantes, o que certamente acarretará novas dificuldades lá fora para os cidadãos do país, já impedidos de entrar no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Como se não bastasse Bolsonaro ter tornado o Brasil “persona non grata” mundo afora (ou “pária”, como prefere seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo), agora temos um vírus para chamar de nosso

“Alemanha detecta o primeiro caso da variante brasileira”, titulou a Deutsche Welle, a agência pública de informações alemã, na última sexta-feira, 22 de janeiro. O homem infectado, assintomático, chegou em Frankfurt vindo do Brasil e testou positivo para a nova forma do vírus. No dia anterior, a agência havia publicado uma reportagem afirmando que a variante brasileira é uma das principais preocupações no mundo hoje, ao lado de outra surgida na África do Sul.

A rádio pública norte-americana NPR noticiou que a violenta nova onda de infecções no Amazonas contraria uma estimativa publicada em abril pela revista Science, que defendia que, como 76% dos moradores de Manaus tinham se infectado, a capital amazonense teria atingido a tal “imunidade de rebanho” –o que foi desmentido pelo surgimento da nova cepa. “Chamada P1, a variante tem cerca de 20 mutações, incluindo três que são particularmente preocupantes. Estas mutações podem fazer o vírus mais infeccioso e poderiam diminuir a eficácia das vacinas contra a variante”, diz a reportagem.

Já a britânica BBC perguntou, em manchete, nesta segunda-feira: “Quão preocupantes são as variantes do coronavírus britânica, brasileira e sul-africana?” A TV pública começa respondendo que a cepa brasileira se diferencia das outras duas por ser única. Só surgiu aqui, enquanto a sul-africana e a britânica apareceram também em outros países (pelo menos 20, no caso da primeira, e 50, no caso da segunda). Segundo a BBC, a variante brasileira é mais similar à sul-africana em termos de mutações, mas as três “podem ser mais contagiosas” do que a Covid-19 original.

Na imprensa internacional, a “variante brasileira” ganhou manchete nos veículos mais importantes do mundo, o que certamente acarretará novas dificuldades para os cidadãos do país, já impedidos de entrar no Reino Unido e nos EUA

A agência de notícias Reuters distribuiu uma matéria na sexta-feira 22 sobre o assunto. “Nova variante brasileira do coronavírus encontrada em quase metade dos infectados em cidade da Amazônia”, é o título do texto. No início do mês, outra reportagem alertava para uma frase do primeiro-ministro britânico Boris Johnson: “Reino Unido procura formas de se proteger contra a variante brasileira da Covid-19, diz PM Johnson”, dizia a reportagem. No dia seguinte, Johnson proibiu a entrada de viajantes do Brasil no país, que teve nove casos confirmados de infectados pela nova cepa até agora.

Na tarde desta segunda-feira, o Washington Post noticiou o primeiro caso nos EUA de infectado pela “variante brasileira” do coronavírus: “Minnesota confirma primeiro caso norte-americano da variante brasileira”, informou o jornal, que se refere à nova cepa como “altamente transmissível”. De acordo com o departamento de saúde do Estado, trata-se de um residente em Minnesota que viajou recentemente ao Brasil. Não à toa, uma das primeiras providências de Joe Biden foi anular a decisão de Donald Trump de permitir a entrada de brasileiros no país, festejada pelo bolsonarismo. Os viajantes que saem do país continuam proibidos de entrar nos EUA.

“Covid-19: o que sabemos sobre a preocupante variante brasileira?”, perguntou o francês Le Parisien. “Uma variante brasileira da Covid-19 preocupa o Japão”, titulou o Le Monde. “Covid-19: o exemplo brasileiro mostra a falha da imunidade de rebanho?”, questionou o Le Figaro. Na Itália, o primeiro caso de infecção pela variante brasileira foi noticiado também nesta segunda: um homem em Varese que voltou do Brasil via Madri, informou a agência de notícias italiana ANSA, acrescentando que a fabricante de vacinas Moderna já cogita uma terceira dose de reforço para conter as variantes do coronavírus.

Nesta segunda-feira, o Washington Post noticiou o primeiro caso nos EUA de infectado pela “altamente transmissível variante brasileira” do coronavírus. Biden anulou decisão de Trump e manteve a proibição de entrada de brasileiros no país

Em Portugal, os jornais noticiam a preocupação de que o país, lotado de brasileiros, sirva como porta de entrada na Europa para a nova variante detectada em Manaus. “Esta variante ainda não foi confirmada em Portugal, mas já levou o Reino Unido a cancelar todos os voos a partir de território português”, informou a SIC Notícias. “Os virologistas pedem atenção redobrada e testes diferenciados que vão começar a ser feitos em Portugal pela rede de laboratórios Synlab às novas variantes do coronavírus.”

Como se não bastasse Bolsonaro ter tornado o Brasil “persona non grata” mundo afora (ou “pária”, como prefere seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo), agora temos um vírus para chamar de nosso.

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