quarta-feira, 28 out 2020
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Bradbury, 100: quando os brancos destruíram a Terra e foram pedir ajuda aos negros –em Marte

CYNARA MENEZES

Esta semana um dos meus ídolos literários, Ray Bradbury, completou 100 anos de nascimento, no dia 22.

Esta semana um homem negro, Jacob Blake, foi baleado pela polícia nos EUA com sete tiros nas costas e está paralisado da cintura para baixo.

“Fomos uns insensatos. Destruímos a Terra e a civilização. Não vale a pena reconstruir as cidades. A radiação durará um século. A Terra acabou”, diz o velho homem branco ao descer do foguete

Esta semana soubemos que quase 70% das mulheres assassinadas no Brasil são negras. a cada três mulheres mortas, duas são negras.

Esta semana uma cervejaria fundada por negros em Porto Alegre foi alvo de insultos racistas de cervejeiros brancos.

Esta semana, depois de 114 anos, o Zoológico do Bronx, em Nova York, pediu desculpas por ter exibido o jovem Oto Benga, de 12 ou 13 anos, sequestrado no Congo, numa jaula de macacos.

Esta semana uma menina foi chamada de “escrava” pela gerente da loja de biquínis Rosa Chá onde trabalha, no Leblon, Rio de Janeiro.

O congolês Oto Benga. Foto: Biblioteca do Congresso dos EUA

Em 1951, quatro anos antes da costureira negra Rosa Parks se recusar a dar o assento no ônibus a um homem branco, marco dos movimentos pelos direitos civis dos afrodescendentes nos EUA, e dois anos antes de sua obra mais famosa, Fahrenheit 451, Bradbury publicou O Outro Pé, um dos contos do livro O Homem Ilustrado. Na realidade paralela imaginada pelo escritor, os negros, fartos das barbaridades do racismo, haviam partido da Terra no ano de 1965 e colonizado o planeta Marte.

Vinte anos depois, estavam lá bem felizes e tranquilos “respirando pela primeira vez” em suas vidas, quando de repente surge no céu um foguete trazendo… um homem branco. As crianças ficaram curiosas. Os adultos, ressabiados. A primeira reação de alguns deles foi desejo de vingança, de baixar uma lei Jim Crow, as leis raciais norte-americanas, só que às avessas, para punir os brancos.

A capa original de O Homem Ilustrado

Recordavam histórias de suas mães e pais enforcados em árvores, tinham memória das humilhações, brutalidades e perseguições e queriam dar o troco. “Podem vir e trabalhar aqui, mas terão que viver nos piores bairros, lustrar nossos sapatos e varrer nosso chão, e sentar na última fila de assentos. E uma vez por semana enforcaremos um ou dois”, diz Willie, o protagonista. Outros, não. Queriam apenas receber o visitante e apertar-lhe a mão.

Willie convence outros negros a se armarem para esperar o homem branco. Pintam os ônibus com letreiros onde se lê “BRANCOS: ASSENTO DOS FUNDOS”. No momento da aterrissagem, Willie tem nas mãos uma corda, com o nó bem apertado. O foguete desce, queimando o mato ao redor. Quando o fogo amaina, dele sai o homem branco, “magro como um arbusto no inverno”, velho, com os olhos descorados de cansaço. E decidem ouvi-lo.

Ray Bradbury. Ilustra: Cris Vector

“Fomos uns insensatos. Destruímos a Terra e a civilização. Não vale a pena reconstruir as cidades. A radiação durará um século. A Terra acabou”, diz o homem branco. “Assim que vocês foram embora começou a guerra, a grande guerra, a terceira. Durou muito. Até o ano passado. Bombardeamos todas as cidades. Destruímos Nova York e Londres e Moscou e Paris e Xangai e Bombaim e Alexandria. Arruinamos tudo. E quando terminamos com as grandes cidades, nos voltamos às menores e lançamos sobre elas nossas bombas atômicas.”

Os negros, comovidos, choram suas cidades tornadas pó.

–E Memphis, queimaram Memphis?

–Memphis saltou em pedaços.

–E a rua 4 de Memphis?

–Toda a cidade.

O que o homem branco quer ali, afinal? Implorar aos negros marcianos por ajuda. Eles têm foguetes e podem voltar à Terra para resgatar os sobreviventes. Não há mais de 500 mil pessoas no mundo agora.

Mas os brancos merecem ser salvos?


Você pode ler o conto em português na coletânea A Bruxa de Abril e Outros Contos e, em inglês, aqui. A editora Biblioteca Azul prometeu lançar O Homem Ilustrado ainda este ano, como parte das comemorações do centenário de Ray Bradbury.

Socialista Morena
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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes