Maria, a vovó comunista: netos lançam livro infantil sobre a viúva de Luís Carlos Prestes

Em Minha Valente Avó, escrito a seis mãos por Edu, Ana e Andreia Prestes, as aventuras de uma vovozinha bem diferente

Quando Ana, Edu e Andreia eram pequenos, adoravam ouvir as canções de sua avó Maria. Essa seria uma cena corriqueira da infância de qualquer um, se a vovó em questão não fosse a militante comunista Maria Prestes. A canção que eles ouviam quando a vovó ia buscá-los na escola era Ouro de Moscou, em ritmo de marchinha de carnaval: “Se na Central o trem descarrilhou/ seu Serafim diz que é o dedo de Moscou/ Se a gente vota em qualquer trabalhador,/ Mas, veja só, seu Serafim diz que é ordem de Moscou”.

Essa e outras histórias estão no livro infantil Minha Valente Avó (editora Quase Oito), que Ana, Edu e Andreia Prestes escreveram a seis mãos sobre a viúva do líder comunista Luís Carlos Prestes, sua vovó Maria, que completou 90 anos em 2020. Nesta terça-feira, 15, os netos de Prestes promovem uma live de lançamento no canal da editora no youtube, com a participação dos autores, da ilustradora Marilia Pirillo e mediação da jornalista Cynara Menezes, editora do Socialista Morena. A homenageada também aparecerá por lá.

A pernambucana Maria do Carmo Ribeiro Prestes, aliás Altamira Rodrigues Sobral, nasceu em berço vermelho, por assim dizer. Sua mãe e seu pai eram ambos militantes do velho PCB (Partido Comunista Brasileiro) de Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Quando Maria tinha 20 anos, já em São Paulo, recebeu a tarefa de cuidar da segurança do dirigente comunista na clandestinidade –e se apaixonou por ele, 34 anos mais velho.

Desta união, que duraria 40 anos, resultaram 7 filhos. Somando com Anita, da união com Olga Benário, e os dois filhos da primeira união de Maria, eram ao todo dez filhos que partiriam juntos com o Velho para Moscou em 1970, desta vez fugindo da ditadura militar brasileira. Os autores do livro que está sendo lançado sobre Maria Prestes nasceram na capital da União Soviética: Ana é filha de Ermelinda, e Edu e Andreia, de Rosa. A numerosa família só voltaria para o Brasil a partir de 1979, com a anistia.

O Velho, Maria e quatro dos seus 25 netos. Foto: arquivo familiar

No livro, três dos 25 netos de Maria contam como foi crescer com uma presença de mulher tão forte e interessante encarnada na figura de avó. Uma avó que, ao contrário das vovozinhas normais, tinha aventuras reais para contar, e não contos de fadas. Descobrir, por exemplo, que este não era seu verdadeiro nome foi uma surpresa e tanto. “Eu ainda não sabia que minha avó e tantas outras mulheres e homens um dia precisaram mudar seus nomes para fugir e se esconder, num tempo em que o Brasil era comandado pelos ‘mandões’. É assim que minha avó chama as pessoas que a perseguiram”, conta a protagonista do livro.

“Enquanto caminhamos, escuto e imagino suas aventuras. Olhando para ela, vejo como é corajosa. E mesmo quando vem um frio na barriga, sorrio e sinto que estou indo para casa de mãos dadas com uma avó valente, como as mulheres dos livros e gibis que ela me dá de presente.”

Os “mandões” haviam feito Maria e Luís, os avós da pequena menina narradora do livro, passar a vida fugindo. Será que eles voltaram a dar as ordens nos últimos tempos? O que fazer então? A vovó comunista de Ana, Edu e Andreia sabe direitinho a resposta.

“– Vó, o que você faria se a gente voltasse a viver nesse Brasil governado por mandões?
Ela olha pra mim com a doçura e serenidade de sempre e, sorrindo, me responde:
– Faria o que fiz tantas vezes ao longo da vida: começaria a luta toda de novo.”

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Livro: Minha Valente Avó
Autores: Ana, Edu e Andreia Prestes
Ilustradora: Marilia Pirillo
Editora Quase Oito, 24 págs., R$49,90

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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes

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