Meu caro amigo Francisco, sem a cachaça ninguém segura esse rojão

Estamos no sal, santo papa! Você precisa entender melhor a alma brasileira, precisa ouvir mais seu xará, o Chico

CYNARA MENEZES

Meu caro amigo, me perdoe, por favor…

Sou fã do papa Francisco. Ele é uma das grandes figuras públicas de um mundo em frangalhos, iluminando o caminho com posturas surpreendentemente progressistas, em defesa do meio ambiente e dos mais pobres, como se espera de um líder religioso. Mas, como humano que é, o papa também está sujeito ao erro. E a “piada” que fez com o Brasil, neste momento que estamos vivendo, foi no mínimo infeliz.

Diante de um grupo de padres brasileiros no Vaticano, Bergoglio gracejou: “O Brasil não tem salvação. Muita cachaça e pouca oração”. Como se a raiz de nossos problemas estivesse em um suposto excesso de cachaça, de farra, combinado à falta de fé, religiosidade. Me perdoe, Francisco, mas o que vivemos aqui é justamente o contrário. Carecemos de alegria e nos sobra fanatismo religioso, inclusive onde a religião não deveria nunca se imiscuir: na política.

A fala brincalhona do papa poderia ter sido dita por um Malafaia da vida, ou até mesmo por Bolsonaro. Não foram poucas as vezes, aliás, que a extrema direita lançou contra Lula o epíteto de “cachaceiro” (teve até correspondente do New York Times que fez isso). A cachaça, nosso aguardente mundialmente aclamado, sempre foi alvo de um mal disfarçado preconceito de classe. Pobres tomam cachaça, ricos bebem uísque. Daí a referência a Lula, o “analfabeto”, como “cachaceiro”. Obviamente que, nas redes sociais, a piada de Francisco foi usada pelos bolsonaristas para atingir o petista.

Sei que o bem-humorado Bergoglio não fez a piada com má intenção. Mas eu esperava do papa argentino que, em vez de repetir clichês a respeito do Brasil e dos brasileiros, se pronunciasse sobre a desgraça que caiu sobre o nosso país, e ela não se chama “cachaça” e sim Jair Bolsonaro. Temos mais de 450 mil mortos pela Covid-19 e esperava conforto e indignação de um líder espiritual como o papa. Não zombaria.

O bem-humorado Bergoglio não fez a piada com má intenção. Mas eu esperava do papa argentino que, em vez de repetir clichês a respeito do Brasil e dos brasileiros, se pronunciasse sobre a desgraça que caiu sobre o nosso país, e ela não se chama “cachaça” e sim Jair Bolsonaro

Estamos no sal, santo papa! Vivemos tempos tão obscuros que a cachaça, na verdade, tem sido um refúgio –assim como, para milhões de brasileiros, católicos e evangélicos, as orações. Não é reza que está faltando, tem até reza sobrando, e partindo de gente que só parece cristão nas palavras, não nas ações. “Deus já deve estar de saco cheio”, como diriam Almir Guineto e Zeca Pagodinho.

É preciso entender melhor a alma brasileira, Francisco. Bebemos, sim, quando estamos felizes e também para espantar a tristeza. Não é a cachaça que nos rouba a salvação, mas os maus políticos, a ignorância, os falsos curandeiros e os falsos profetas –que, essa pandemia mostrou, vicejam em nosso país como baratas.

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Francisco, você precisa ouvir mais seu xará, o Chico.

…O que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que, também, sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão…

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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes

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