quarta-feira, 28 out 2020
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Segundo livro de receitas publicado no Brasil foi escrito por uma mulher (ou duas)

JOANA MONTELEONE

Em julho de 1850 saiu no Jornal do Comércio, um dos mais importantes jornais do Rio de Janeiro, então sede do Império brasileiro de d. Pedro II, o anúncio de lançamento de um livro de receitas. Chamava-se A Doceira Brazileira.

No anúncio estava escrito: “Em casa de E. e H, Laemmert, rua da Quitanda, n.77, saiu à luz o livro Doceira brazileira ou Nova Guia manual para se fazer todas as qualidades de doces secos, de calda, cobertos ou confeitados, compotas, sopas doces, conservas de doces, natas e cremes de leite, geleias, fabricação de pastilhas, flores e frutas e diferentes figuras, e objetos de açúcar, conservação de frutas em aguardente e calda, depuração e refinação do açúcar, do mel e da rapadura: preparação do mosto para os doces, fabricação de xaropes, ratafias ou licores de sumos de frutas, por infusão, a frio, gelos artificiais em todo o ano, e sorvetes de todas as qualidades.

Até há pouco, costumava-se dizer que o segundo livro de receitas editado no Brasil seria O Cozinheiro Nacional. Mas com a edição da Doceira Brazileira em 1850, as coisas mudam. Este seria o segundo. É uma descoberta e tanto

COM MUITAS OBSERVAÇÕES SOBRE TAIS ASSUNTOS

Obra nova e utilíssima para todas as pessoas em geral, extraída de diversos autores, e com muitas receitas particulares não impressas até o presente.

POR CONSTANÇA OLIVA DE LIMA.

Não há ninguém neste mundo que não goste de comer bons doces: porém fazê-los, oh! Isso é caso diverso! Toca a poucos.  Foi por isso que a autora, impelida pelo desejo de ser útil às suas patrícias, meteu ombros à empresa de produzir uma coleção ampla de todas as receitas, formas ou métodos, conhecidos até hoje; a seguinte enumeração do conteúdo da obra fará certamente apreciar sua utilidade.”

Anúncio da Doceira Brazileira no Jornal do Comércio em julho de 1850. Fonte: BN

Há algum tempo eu tenho feito pesquisas para achar mais informações sobre a Doceira Brazileira. Quando encontrei este anúncio, foi uma alegria. Era mais uma pista para uma história impressionante que se tornou meu projeto de pós-doutorado na USP. Pesquisadores da História da Alimentação costumam marcar como o primeiro livro de receitas publicado no Brasil, O Cozinheiro Imperial, de autoria desconhecida, assinado por R. C. M., editado pela Laemmert em 1839-1840.

Até há pouco, costumava-se dizer que o segundo editado no Brasil seria O Cozinheiro Nacional, também de autoria desconhecida, publicado pela editora Garnier entre 1874 e 1878 –a Wikipedia é um dos lugares onde está escrita essa informação. Mas com a edição da Doceira Brazileira em 1850 as coisas mudam. Este seria o segundo livro de receitas editado no Brasil, pela mesma editora do Cozinheiro, a Laemmert. É uma descoberta e tanto.

A autoria do livro está envolta num mistério editorial. Quem escreveu foi d. Anna Maria das Virgens Pereira Rabello e Gavinho. Mas quem ficou conhecida pela autoria, com o nome estampado nos jornais, foi d. Constança Oliva de Lima, outra mulher

Da mesma maneira que outros livros de receitas lançados no Brasil no século 19, a Doceira teve inúmeras edições ao longo do século. Teve também concorrentes, que se inspiraram em seu título de sucesso para venderem mais. Tivemos inúmeros livros inspirados pela Doceira, com nomes parecidos: o Doceira Doméstica, de Ana Correa, pela editora Ed. J.G. de Azevedo, em 1875;  A Dona de Casa ou A Doceira Nacional, de Cecília Pires Ferreira da Costa e Almeida, editado pela Livraria Antunes, descrita em alguns anúncios da década de 1880 nos jornais cariocas; o Dicionário do Doceiro Brasileiro, do Dr. Antonio José de Souza Rego, de 1892; Confeiteiro Popular, de Francisco Queiroz, de 1911;[1]  o Doceira Paulista, de Honoria C. Martins de Mello, publicado pela Editora Pocai, em 1916 e o Variadíssimas receitas escolhidas de cosinha, doces, bolos, licores, etc, etc., de Lucia Queiroz, editado pela Casa Genoud, de Campinas, também em 1916.[2]

Mas uma das características que pode ter mascarado essa descoberta foi a autoria do livro, envolta num mistério editorial desde o início. A Doceira Brazileira foi escrito por uma mulher e assinado por outra. Quem escreveu o livro, compilando as receitas, foi d. Anna Maria das Virgens Pereira Rabello e Gavinho (1832-1856). Mas quem ficou conhecida pela autoria, com o nome estampado nos jornais, foi d. Constança Oliva de Lima, outra mulher.

Outra hipótese para esse esquecimento é o fato de as autoras serem mulheres e um livro sobre doces, um livro de confeitaria, não é o mesmo que um livro de receitas completo, com salgados e doces. São hipóteses, já que a pesquisa sobre a História da cozinha e da gastronomia no país ainda engatinha, mas toma cada vez mais fôlego com congressos, grupos de pesquisa e interesse.

Mas voltemos à história do livro.

Foram poucas as publicações de receitas editadas durante o Império. O primeiro livro que se tem notícia é O Cozinheiro Imperial, de autoria desconhecida, assinado por R. C. M., editado pela Laemmert em 1839-1840. Foi um sucesso, com sucessivas reedições ao longo do século 19, como se pode comprovar pelos inúmeros anúncios que saíram nos jornais da época.

Gilberto Freyre, em Açúcar, deixa clara essa associação entre o fazer doce e as mulheres: “Houve, no Brasil, uma maçonaria das mulheres ao lado da maçonaria dos homens, a das mulheres se especializando nisto: em guardar segredo das receitas de doces e bolos de família”

Suas receitas são claramente inspiradas em dois outros livros de receitas clássico da cozinha portuguesa: o Arte de cozinha: primeira parte. Trata do modo de cozinhar vários manjares, e diversas iguarias de todo o gênero de carnes, tortas, empadas, e pasteis, etc, assinado pelo cozinheiro do rei d. João IV, Domingos Rodrigues, em 1640. O outro foi escrito por Lucas Rigaud, o cozinheiro francês de d. Maria I de Portugal, que escreveu Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinha, publicado em 1780. Ambos tiveram várias edições ao longo dos séculos e os livros editados no Brasil no século XIX, tanto O Cozinheiro Imperial como O Cozinheiro Nacional, trazem um conjunto de receitas literalmente copiadas de ambos os livros.

Queria deixar claro que ainda não li a Doceira Brazileira. Isso não me impede de fazer várias pesquisas sobre como esse livro foi editado, como foi anunciado e quem foram suas as autoras, d. Anna Maria das Virgens e d. Constança. Como toda pesquisa científica, demora alguns anos para que possamos recolher todos os dados e fazer a análise. Então, as informações contidas aqui podem mudar, dependendo dos caminhos que esta pesquisa em andamento tomar. Podemos ter acréscimos ou entendimentos diferentes com o passar do tempo.

Página 3 do Livro Doceira Brazileira: Quarta edição de 1875

Por muitos anos, a Doceira Brazileira ficou esquecida nas estantes de livros raros de algumas poucas bibliotecas. Uma pista sobre como o livro foi montado aparece na edição de 1887, a décima edição do livro, do Cozinheiro Imperial. Na página 6 aparece a página de rosto do Doceira, com destaque para o nome de d. Constança. Logo em seguida, na página 7, d. Constança aparece como autora de melhorias no livro. Ela teria feito uma edição comentada, com receitas modernas e a “guia do criado de servir”, para treinamento da criadagem de casa. Lá ficava explícito para quem se destinava o livro: “Décima edição, aumentada e melhorada com muitas receitas modernas, e a guia do criado de servir, ou observações úteis a criados, e as donas de casa e noções gerais sobre massas, molhos, caldos, etc. por Constança Oliva de Lima.” A mesma coisa foi feita na Doceira, com d. Constança recolhendo e publicando novas receitas em outras edições. Com o tempo, e as sucessivas reedições, o livro cresceu.

A questão da autoria do livro é complexa. Já na primeira edição do livro, no anúncio de 1850, d. Constança aparece claramente como autora do volume. Mas pesquisas indicam que a primeira edição, de 1850, foi uma complicação do caderno de receitas de uma senhora de engenho da região de Macaé, no norte da então província do Rio de Janeiro, d. Anna Maria das Virgens Pereira Rabello e Gavinho (1832-1856). Desde meados do século 18 a região norte fluminense passou a abrigar plantações de cana-de-açúcar e engenhos, dominadas por algumas famílias, entre elas e de d. Anna Maria. Até hoje a família guarda documentos relativos à publicação do livro, como cartas, cadernos de receitas e livros. Os herdeiros cuidam do espólio da família com cuidado.

Anna Maria teria publicado o livro quando tinha 20 anos –já era casada e tinha 4 filhos. Pouco depois da segunda edição, em 1856, a escritora faleceu.  D. Anna Maria havia se casado, com 15 anos, em 1847, com o Comendador José Gavinho Viana (1826-1904), com então 21 anos. Tiveram cinco filhos: Felizarda Alchimenna (esposa do Comendador Manuel Pinto Ribeiro de Castro); José Gavinho Viana Júnior (Solteiro); Antonio Gavinho, Emília Octavianna (casada mais tarde com o  Comendador João Baptista Leal) e Hermila Olegária (solteira). Na época, uma senhora de engenho que assinasse um livro de receitas seria visto como um escândalo e claramente esse foi o caminho que tomou os Laemmert, colocando d. Constança como autora.

Educada na corte, parece que os livros e a literatura encantavam a jovem Anna Maria, e sua biblioteca é significativa, segundo seus descendentes. Por causa da pandemia ainda não pude visitar o acervo. Mas nele está uma das edições do século 18 do Arte na Cozinha do Domingos Rodrigues.

A tradição de confeitaria portuguesa associada às mulheres foi transportada para o Brasil pelos irmãos Laemmert com o livro da Doceira. Mudar o gênero do livro, de cozinheiro imperial para doceira brasileira, foi uma decisão editorial que deu mais credibilidade à publicação, já que eram as mulheres as responsáveis pela doçaria nacional. Como pano de fundo está a tradição da doçaria conventual portuguesa e as negras quituteiras no Brasil do século 19, que vendiam seus bolos em tabuleiros, pelas cidades desde a época colonial.

Já na primeira edição do livro, no anúncio de 1850, d. Constança aparece claramente como autora do volume. Mas pesquisas indicam que a primeira edição, de 1850, foi uma complicação do caderno de receitas de uma senhora de engenho da região de Macaé

Gilberto Freyre, em Açúcar, deixa clara essa associação entre o fazer doce e as mulheres:  “Inventaram-se nas casas grandes do Norte doces e bolos que tomaram nomes de família ou de engenho –Souza Leão, Guararapes, dr. Constâncio, Cavalcanti, tia Sinhá, d. Dondon, major, Fonseca Ramos– e cujas receitas se conservavam por muito tempo em segredo, às vezes passando de mãe para a filha. Houve, no Brasil, uma maçonaria das mulheres ao lado da maçonaria dos homens, a das mulheres se especializando nisto: em guardar segredo das receitas de doces e bolos de família.”

Ao assinar o livro com o nome de uma mulher e produzi-lo com outra, os editores da Laemmert reforçavam essa relação colonial e portuguesa, das mulheres com doces. Ao colocar em evidência receitas de doces associados à modernidade, como os sorvetes refinados –de violeta, de zéfiro, de marasquino, de baunilha–,  essa tradição se atualizava e se reforçava na edição. O resultado é uma naturalização do gênero no livro; ou seja, parece que o livro não poderia ter sido feito por outra pessoa que não uma mulher.

Esse é, talvez, um dos sucessos da edição.

Prometo voltar ao tema mais à frente, com mais dados sobre essa preciosidade da história de nosso gosto por doces.

[1] Os livros Doceira Brasileira, de Constança Oliva de Lima, o Doceira Doméstica, de Ana Correa;  A doceira nacional; o Dicionário do doceiro brasileiro, de Dr. Antonio José de Souza Rego e o Confeiteiro popular, de Francisco Queiroz foram encontrados na pesquisa para o TCC de Larissa Alves de Lima, por mim orientada e intitulada  A Arte de Fazer toda qualidade de doces: mercado editorial de confeitaria do século XIX  (Rio de Janeiro, 1850 – 1938).

[2] Os dois livros escritos por mulheres de Campinas, Doceira Paulista, de Honoria C. Martins de Mello e Variadíssimas receitas escolhidas de cosinha, doces, bolos, licores, etc, etc., Lucia Queiroz estão arrolados na tese doutorado de MORELLI, Elaine. Os receituários manuscritos e as práticas alimentares em Campinas (1860-1940). Tese de Doutorado/ Campinas/ São Paulo.

Socialista Morena
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