Urbanidades

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20 de janeiro de 2016, 17h33

Colhendo tempestades no norte

Dois anos atrás tive uma conversa reveladora com meu colega Joe Straubhaar, professor de comunicação aqui na University of Texas e estudioso da midia brasileira. Straubhaar me explicou o conceito de “fidelização” na mídia norte-americana, que aos poucos ia chegando no Brasil com força. A idéia é que para sobreviver diante das novas mídias os jornais e as tvs estavam se pautando por pesquisas de opinião entre seus leitores. O objetivo é não perder assinantes e a estratégia é dar-lhes exatamente o conteúdo que eles querem receber.

Qualquer semelhança com a Veja e a Folha (e a Carta Capital também não escapa) não é mera coincidência. Os veículos são pautados pelos departamentos de marketing vendas e vale tudo para segurar o assinante. Entendeu agora a lógica dos novos colunistas da Folha?

Pois bem, vale continuar olhando um pouco mais para os EUA onde estas estratégias mercadológicas quase sempre aparecem primeiro. De tanto vender ignorância e intolerância, os veículos de extrema direita criaram um público irracional, que confia cegamente nos discursos simplistas dos comentadores da Fox News e dos radio talk-shows. Cada vez mais radicalizados e mais distanciados da realidade complexa, os eleitores republicanos raivosos, desses que fazem passeata em frente das clinicas de aborto nos EUA ou nos hospitais e cemitérios brasileiros, foram perdendo qualquer racionalidade ou capacidade de autocrítica dos seus slogans políticos.

O discurso xenofóbico e racista de Donal Trump e o discurso xenofóbico militarista de Ted Cruz estão conseguindo arrastar multidões de eleitores brancos, pobres, revoltados e emburrecidos para o seu lado. Como o voto não é obrigatório uma preocupação fundamental dos partidos no EUA é motivar o eleitor a ir votar. Para isto o discurso da direita radical funciona.

Mas os analistas mais sérios mostram um partido republicano está em polvorosa com a possibilidade de um desses dois malucos ganharem as prévias e concorrerem contra Hillary Clinton em novembro próximo. Existe uma chance mínima de o candidato democrata ser Bernie Sanders , eu mesmo votaria nele não fosse seu apoio ao porte de armas irrestrito. Vai entender! Mas Sanders cumpre bem o seu papel de forçar Hillary a se mover mais para a esquerda. Pode apostar que depois de ganhar a candidatura Hillary volta correndo pro centro, basta ver que seus maiores doadores são todos de Wall Street (ao contrário de Sanders e do Obama de 2008).

Em resumo, a plutocracia norte-americana vai apoiar em peso Hillary Clinton, agora nas primárias contra Bernie Sanders e depois contra Trump ou Cruz se estes forem os candidatos republicanos. Começa a fazer água a estratégia de radicalização e emburrecimento da mídia conservadora norte-americana. A ver como vão se comportar aqueles que seguem este script, linha por linha, no Brasil.

Como na equação brasileira, o barulho provocado pela mídia reacionária parece estar dominando o discurso mas quem semeia vento inevitavelmente colhe tempestades.

Foto de capa: Reprodução CNN


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