Urbanidades

22 de setembro de 2015, 19h11

Estadão confunde governo com o público, e cidadão com o privado

O Estado de S. Paulo publicou na última segunda 21 de setembro um texto de opinião sobre habitação que usa dados muito importantes e chama atenção para questões fundamentais do Brasil urbano atual, mas que erra feio ao insistir na clivagem entre um cidadão – que para aquela publicação seria um investidor cuidadoso – e o Estado (chamado aqui oportunamente de governo) que seria perdulário e ineficiente.

O texto do Estadão nos lembra que quase a metade dos brasileiros construiu a própria casa, com ajuda de parentes ou de algum pedreiro vizinho. Segue comparando este número à carência de infraestrutura básica como esgotamento sanitário, que ainda não chega a 40% dos lares do país. Mais adiante o texto nos lembra que estas mesmas residências precárias estão abarrotadas de bens de consumo duráveis e não-duráveis, como geladeiras, TVs, computadores, máquinas de lavar roupa etc….

Até aqui concordamos que a resiliência dos brasileiros face a uma tremenda deficiência de infraestrutura é louvável e admirável.

A fragilidade do pensamento conservador está em insistir que a dicotomia entre espaços interiores relativamente ricos e exteriores pobres e maltratados seria reveladora de uma sociedade empreendedora que investe em seu bem estar e um governo ineficiente que não investe nos espaços públicos.

Acontece que o buraco é muito mais embaixo. Como meus alunos estrangeiros percebem no mesmo dia em que chegam a qualquer cidade brasileira, a dicotomia entre a casa e a rua (para usar a expressão clássica do antropólogo Roberto da Matta) é muito mais profunda e complexa porque os atores são exatamente os mesmos, muda-se o comportamento e a ética de acordo com o lugar. Triste perceber que a grande maioria dos brasileiros não percebe que usa cotidianamente dois pesos e duas medidas em suas relações com o público e com o privado.

Somos parte de uma sociedade com uma ética marcadamente esquizofrênica, onde o que vale para o espaço familiar não se aplica ao espaço público e vice-versa. As mesmas pessoas que limpam (ou mandam limpar) imaculadamente suas casas, jogam lixo no lote vizinho ou na rua. O jovem que passa horas cuidando do carro do pai no final de semana não hesita em riscar o ônibus no caminho da escola na segunda-feira. A vovó que passa as tardes cuidando de seu canteiro arranca uma muda (uma mudinha só) da praça pública bem na frente de sua casa.

E tomando o exemplo do espaço físico de que trata o artigo de O Estado de S. Paulo, vale recordar que cada morador tem a obrigação de manter a calçada em frente de sua propriedade, por exemplo. O resultado, bastante revelador de nossa ética diferenciada para o público e para o privado é visível sempre que se abrem os portões: o piso da garagem dento do lote está sempre cuidado e limpo enquanto a calçada, a centímetros de distância, está quebrada e invadida por rampas e outros obstáculos que facilitam a vida do automóvel e atrapalham a vida do pedestre.

Em resumo, a dicotomia entre um cidadão empreendedor e um governo ineficiente é uma falácia do pensamento conservador. Concordo que o Estado (e não apenas o governo) brasileiro investe mal, concentra infraestrutura, salários e todo tipo de vantagens nos espaços ocupados pelo grupo dominante, e abandona a periferia onde mora a maioria da população.

Mas o xis do problema não é um embate entre cidadão e governo, é um embate entre dois comportamentos dos cidadãos, dentro ou fora das instituições. O que temos é um grupo de valores e comportamentos dentro de casa e outro grupo de comportamentos de valores da porta para fora, exercidos e praticados pelas mesmas pessoas. O nome disto é patrimonialismo, e infelizmente vamos precisar de algumas gerações, várias crises, e muito trabalho para que alguma mudança efetiva aconteça neste sentido.

Foto de capa: MateusZF Mateus Záccaro/Flickr

 


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