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27 de janeiro de 2020, 22h00

80 anos do fim do cangaço

Reportagem especial de Henrique Rodrigues traz personagens e paralelos com a história em uma expedição pelos caminhos do cangaço, fenômeno social brasileiro que tem como seu principal líder o emblemático Lampião

Porta da casa onde nasceu Lampião, no Sítio Passagem das Pedras, zona rural de Serra Talhada (PE) - Foto: Henrique Rodrigues

Por Henrique Rodrigues*

Foi exatamente há 80 anos que o Brasil viu uma de suas páginas mais violentas e controversas chegar ao fim: o cangaço estava encerrado.

A execução de Cristino Gomes da Silva Cleto, o temido Corisco, em 1940, botava um ponto final num fenômeno que perdurou por mais de um século no escaldante e abafadiço semiárido nordestino.

Dois anos antes, em 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, era fuzilado com seu bando na Grota do Angico, em Sergipe, às margens do Rio São Francisco. Nascido no Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, permaneceu no local até os 19 anos, momento em que se envolveu numa briga familiar com vizinhos.

Depois de sofrer emboscadas, numa das quais seu irmão Antônio acabou baleado, mudou-se com a família para um município vizinho, para evitar confusões. No entanto, um tenente que mantinha relações com seus desafetos matou seu pai, dias depois de sua mãe ter falecido doente.

A partir daquele momento, por vingança, honra e sobrevivência, entrou para um bando armado e viria a ficar famoso como Lampião, autoproclamado e apontado por historiadores como o Rei do Cangaço. Falado no Brasil inteiro, chegou a estampar as páginas do The New York Times.

Parece já não ser mais possível, nos dias atuais, definir o cangaço como um mero evento de banditismo social que arregimentou forças e aterrorizou a sociedade civil e as autoridades de sua época. É indiscutível que há muito mais coisas a serem consideradas.

No entanto, mesmo passado tanto tempo, o espectro do cangaço ainda ronda os sertões setentrionais do país.

Numa viagem de 1.116 km pelos Estados de Pernambuco e da Paraíba, a Fórum percorreu alguns dos caminhos trilhados pelos principais bandos de cangaceiros.

Para além da abordagem simplista e batida da historiografia tradicional, nossa reportagem procurou traçar paralelos entre os momentos políticos e os cenários sociais do passado e do presente, para assim descobrir por que um fenômeno de violência explícita como o cangaço permanece sendo tão importante para a cultura, a identidade e a alma do aguerrido povo do Nordeste, despertando paixões e ódios.

O sertão por dentro 

A sensação térmica passa facilmente dos 40°C nas estradas que cortam o sertão pernambucano. Pelo caminho, os cheiros invadem o capacete e trazem consigo uma face da realidade que ora é adorável, ora é sinistra e aterradora.

Em todo o percurso há muitos bichos mortos. As carcaças encouradas, fétidas, juntam moscas e fritam sob o sol. Há cabras, jumentos, bois, tatus, raposas e uma infinidade de cadáveres animais inidentificáveis.

A brutalidade da natureza no semiárido assusta até os visitantes mais experimentados. A força do vento quente e a aspereza da vegetação que parece imortal lembram ao homem de sua intrínseca fragilidade. Foi esse cenário hostil que forjou a brutalidade do cangaceiro.

A parada em Santa Maria da Boa Vista, 107 km ao norte de Petrolina, era para encontrar um almoço. A primeira tentativa foi numa pousada, um dos poucos locais que aparentavam estar abertos no sol do meio-dia. Sentado numa cadeira, suado, um homem branco de uns 45 anos, barba por fazer e camisa xadrez surrada, escuta Zé Ramalho, num cômodo que deveria fazer o papel de recepção do estabelecimento. Era um sincretismo de sertanejo com hipster de Pinheiros, postado numa poltrona estilizada, com um violão pendurado na parede, ao fundo.

“Rapaz, hoje não tem almoço, não… Eu até ia fazer, mas anda meio devagar, aí resolvi que essa semana não ia fazer, não… Mas se quiser comer um peixe eu vou contigo num bar ali no rio e a gente divide…”.

Agradeci o convite, expliquei que tinha pressa, e resolvi seguir. Enquanto me afastava ainda ouvi a música passar de ‘Avohai’ para ‘Dona da Minha Cabeça’, de Geraldo Azevedo, um genuíno filho da região.

O sertão é assim, tem trilha e bibliografia.

Moldou em terracota figuras como Rachel de Queiroz, uma magnífica cearense que imortalizou a agonia de uma fuga da seca em “O Quinze”. Isso para não falar de José Lins do Rego, João Cabral de Mello Neto, entre tantos outros.

O cangaço e seus artífices impetraram uma importância tão visceral ao imaginário do povo do sertão que sua rusticidade natural penetrou fortemente na erudição e no campo do pensamento. Os exemplos disso estão em figuras como Riobaldo, de ‘Grande Sertão: Veredas’, do mineiro João Guimarães Rosa, eternizado como um jagunço universal, cuja consciência, valor estético e honradez foram ao mundo e se infiltraram na filosofia e nos cânones acadêmicos.

Quando se vaga pelo sertão nota-se que são duas as coisas que se encontram repetidamente: uma delas são os açudes, símbolo da resistência às intempéries climáticas e aos castigos impostos pela natureza, brava e dura, como o povo nordestino. A outra é a solidão. Ela está por todos os lados, materializada no silêncio das estradas que cortam infinitamente a caatinga rajada de cinza e ocre.

Serra Talhada, terra de Lampião, a capital do Cangaço

Ao chegar a Serra Talhada (PE), cidade onde nasceu Lampião, já se nota o quanto o cangaceiro é onipresente. Há praça, rua, hotel e até uma fundação com seu nome. Por aqui, o cangaço permanece bem vivo aos olhos de todos.

A cidade, que é a segunda maior do sertão pernambucano, apenas superada por Petrolina, é uma mistura confusa de passado e futuro, de rusticidade e sofisticação.

Pelas ruas, os precários serviços de moto-táxi estão por todos os lados com seus coletes coloridos e nomes criativos, assim como alguns cachorros, gatos e galinhas que perambulam sem pressa, dóceis, contrastando com as modernas picapes e com os automóveis mais luxuosos.

Há também muita comida boa de rua, simples e cheirosa, espalhada pelas calçadas, em frente a mercadinhos que parecem saídos de um romance de Graciliano Ramos. E quem disse que não é possível degustar um vin de France, Bordeaux, no centro nervoso do sertão do Pajeú?

Oui, c’est possible!

Num garboso supermercado inaugurado há pouco tempo, quitutes para os paladares mais finos também são encontrados e a preços bem convidativos.

Certamente tudo isso era bem diferente nos dias em que Lampião esteve por aqui, reinando debaixo do sol inclemente.

Como a tônica do cangaço era a violência, num dos primeiros contatos na cidade, converso com o construtor Fabiano Bezerra de Souza sobre o crescimento da violência na região, tão alardeado pela imprensa nos últimos anos. O serra-talhadense explica que no município a percepção que ele tem é outra: “Aqui é uma cidade tranquila. A gente vê coisas do tipo em outras cidades da região, mas em Serra Talhada anda tudo calmo… Você sai na rua à noite, ou em qualquer outro horário, e é isso aí ó… Tudo tranquilo… Não tem cangaço, não”, brinca.

Chibarrada descansa à sombra de uma árvore frondosa, no caminho para o sítio onde nasceu Lampião, zona rural de Serra Talhada (PE) – Foto: Henrique Rodrigues

A versão também seria corroborada dias depois numa cidade vizinha, já no Estado da Paraíba.

Numa praça com ares cenográficos, na cidadezinha de Princesa Isabel, um homem idoso repousa sentado à sombra de uma gameleira, como se estivesse numa espera infinita, enquanto três meninos brincam com um chicote colorido, que estrala como bombinha de São João, ecoando pelos becos vazios da cidade. João Ferreira Santos diz não saber sua idade exata, denotando uma simplicidade tão grande quanto sua tranquilidade. Começamos a falar sobre o cangaço e o homem, que aparenta pouco mais de 70 anos, revela histórias sobre o tema que todo sertanejo de sua faixa etária carrega, fruto da contação de ‘causos’ de seus pais e avós, e estabelece uma relação com o cenário de hoje: “Meu pai, que era daqui também, falava muito de um homem que teve os dedos cortados pelos cangaceiros. Parece que era um sujeito que não queria ajudar. Não queria colaborar com o bando, né… Ainda bem que isso acabou, agora é tudo muito calmo nesse sertão.”

Um lugar simbólico 

Fui recebido no Sítio Passagem das Pedras por Cleonice Maria dos Santos, presidente da Fundação Cabras de Lampião, depois de alguns quilômetros intermináveis de estrada de chão num calor insuportável. Com ela estava Anildomá Willans de Souza, historiador e pesquisador da vida do temido cangaceiro, autor de cinco livros sobre o tema. A propriedade fica numa estrada vicinal que parte da PE-390, rodovia que liga Serra Talhada a Floresta.

PE-390, entre Serra Talhada e Floresta (PE) – Foto: Henrique Rodrigues

Precisei de um guia para chegar até lá. Carlos vai parando pelo caminho e narrando as principais passagens históricas que ocorreram em meio à caatinga.

Depois de uma água gelada e de ser apresentado ao lugar onde Lampião veio ao mundo, começo perguntando a Cleonice se falar sobre o Rei do Cangaço ainda é difícil na atualidade. “Ainda hoje encontramos resistência em relação a esse tema. Sim, muita resistência. Mas não se trata de cultuar o cangaço, ou a figura de Lampião. A questão é registrar uma etapa da história da vida nordestina que marcou uma época. Lampião exerceu domínio numa área que abrangia sete Estados do Nordeste.”, explica.

O historiador Anildomá faz um adendo à fala de Cleonice e argumenta que a tal divisão gerada pela figura de Lampião não é, na prática, exatamente como se fala. “Não é muito correto afirmar que Lampião ‘divide’ a opinião das pessoas. A percepção que nós temos, hoje e também há trinta anos quando realizamos o plebiscito, é que a parcela que tem simpatia e admiração por Lampião é bem maior, sobretudo nas áreas rurais e bairros mais pobres, enquanto aqueles que reprovam sua figura estão concentrados nas áreas mais nobres… Ou são grandes proprietários rurais, além de invariavelmente serem pessoas de famílias historicamente ligadas à aristocracia da nossa região… O problema é que aqueles que não gostam fazem muito estardalhaço, muito barulho.”

O plebiscito a que Anildomá refere-se foi uma consulta popular ocorrida em 1991, que perguntava à população o que pensavam sobre a construção de uma estátua gigantesca de Lampião no alto da serra que dá nome ao município.

Mais de 76% dos votantes aprovaram a ideia, embora o monumento nunca tenha sido erguido.

Inevitavelmente traço um paralelo com a atual divisão política da sociedade brasileira e indago Anildomá sobre um possível alinhamento ideológico de Lampião com correntes políticas. Ele responde, não sem antes dizer que a pergunta é complicada. “É muito difícil dizer que Lampião agia com uma visão política, com uma orientação ideológica. Claro que ele não tinha noção teórica… Aliás, essa é uma forma de encarar as coisas bem eurocêntrica, de valorizar o conhecimento acadêmico. Não era necessário ter lido Marx para ter uma percepção das injustiças sociais que existiam ali”, pontua.

Já que o assunto é a polarização provocada pela imagem do cangaceiro, pergunto se a atual divisão de nossa sociedade depois da última eleição também se reflete neste tema e se há desdobramentos no campo da cultura, já que a Fundação Cabras de Lampião é o órgão que mais fomenta iniciativas culturais nessa região do sertão pernambucano. Cleonice resolve responder em tom de desabafo. “Eu penso que mudou algo, sim. A gente sente que tudo se tornou mais complicado. Há um desmonte de todos os setores ligados à história, à cultura, às artes e vivemos numa aparente ameaça constante. Não se trata de fazer oposição ou críticas ao governo atual, mas é fato que esses setores vêm sendo destruídos, extinguidos… E quem faz isso, porque já odiava tudo relacionado aos temas, agora se sente totalmente legitimado para fazê-lo.”

Coronelismo, o pai do cangaço

Numa manhã tórrida assisto a uma apresentação de Xaxado no pátio do Museu do Cangaço de Serra Talhada, o principal equipamento de preservação da história do movimento e que é vinculado à Fundação Cabras de Lampião.

O Xaxado é uma dança criada no cangaço, inicialmente apenas masculina, que era feita pelos bandos para comemorar vitórias sobre os inimigos. A cidade carrega oficialmente o título de “Capital do Xaxado”.

O responsável pelo acervo e pela visitação ao local é o historiador Karl Marx Santos Souza. Logo de início, peço para que ele dê uma definição sucinta do que foi o cangaço, já que tanta gente tenta explicar o fenômeno e acaba se embaralhando.

“O cangaço foi um movimento social, mas não se enquadra num movimento político. Não tinha essa intenção. Ele foi um resultado direto de tudo de ruim que existia no sertão naquele momento histórico, como a ausência do Estado, a desigualdade brutal e a miséria. Dessa equação, surge o cangaço. Eu sempre digo que o coronelismo é o pai, ou a mãe, do cangaço.”

Karl também ressalta que o cangaço não começou com Lampião:

“O cangaço já existia desde o século XIX, ele não surge com Lampião. Porém, sem dúvida foi Lampião quem tornou esse movimento muito mais organizado e hierarquizado, dando um caráter mais abrangente ao fenômeno social.”

Grupo de Xaxado da Fundação Cabras de Lampião – Foto: Henrique Rodrigues

De acordo com o historiador, como o cangaço teve uma forte repercussão nacional, as autoridades acabaram por dar certa atenção à região do semiárido. A guerra travada entre os bandos acabou resultando numa melhora da infraestrutura local da época.

“Curiosamente, se é que podemos dizer assim, foi o cangaço que acabou por trazer aos sertões alguns traços de desenvolvimento, como o telégrafo, a iluminação pública e as estradas, porque os bandos de cangaceiros pintavam e bordavam com as forças policiais e então era necessário trazer uma infraestrutura para região, com o intuito de facilitar a ação de combate por parte do Estado”, explica.

Justamente sobre esse combate, peço para que Karl explique o papel do regime ditatorial de Getúlio Vargas na extinção dos conflitos gerados pelos cangaceiros.

“O Estado Novo, conduzido por Getúlio Vargas, foi decisivo para aniquilar o cangaço. Ele determinou que todos os focos de conflito no território brasileiro deveriam ser sufocados, para garantir um ambiente de paz, quando na realidade o que Getúlio desejava era o controle absoluto de tudo”, conta.

Ainda no âmbito da violência no sertão, falo sobre a onda da imprensa do Sudeste de classificar como ‘Novo Cangaço’ as ações do crime organizado, ao explodirem agências bancárias e tomarem cidades inteiras com reféns em vários Estados. Karl discorda da nomenclatura e cita nominalmente as diferenças entre as duas coisas.

“Não dá pra traçar uma analogia entre o cangaço e essas ações empreendidas hoje por bandos fortemente armados ligados ao crime organizado, que vêm aterrorizando cidades do sertão. Exceto por uma coincidência geográfica, parece-me que uma coisa não tem nada a ver com a outra, diferentemente do que a imprensa vem tentando emplacar ao afirmar isso. Claro que razões sociais estavam por trás do cangaço, assim como também estão por trás do crime organizado moderno, mas as situações históricas, lá atrás e agora, são completamente diferentes.”

Como é chefiar a cidade de Lampião? 

Luciano Duque (PT) inicia o último ano de seu segundo mandato frente à prefeitura de Serra Talhada. Ele também já foi vice-prefeito por oito anos e vereador. O chefe do Executivo municipal fala sem constrangimentos a respeito de comandar a cidade que carrega o peso de ser a terra natal de Lampião, ressalta que para muita gente esse passado ainda é visto como um estigma, mas se queixa do fato desse tratamento não ser dado a todas as cidades que têm relação com o cangaço:

“Há um preconceito muito grande ainda. São fatos que dividem a sociedade e não se pode negar que Lampião é a figura mais conhecida de Serra Talhada. No entanto, se você vai a Xingó (Piranhas), a Fortaleza, a Aracajú, ou Natal, percebe que isso não ocorre por lá. A figura de Lampião é uma fonte de renda, é uma narrativa, e tudo bem”, pontua.

É perceptível que a cidade de Serra Talhada explora a figura do lendário cangaceiro, mas o fato gera controvérsias no meio político. Investir em Lampião às vezes provoca desavenças, explica o prefeito.

“Quando investimos nesse setor somos acusados de incitar a violência… Veja você, somos acusados justamente por essa direita violenta que emergiu no país. Falam que cultuamos Lampião. Sem contar o fato de que ainda muita gente nos critica por terem muito vivo na memória esses episódios do cangaço, por terem internalizado aquilo que ouvem de suas famílias. Não ocorre como em Juazeiro do Norte, com Padre Cícero, que na História também é uma figura muito polêmica, visto que foi parte de uma aliança entre cangaceiros, elites e a religião”, afirma.

O prefeito afirma também que se sente isolado nas outras esferas de poder quando o assunto é preservar a história do cangaço e de Lampião. O governo do Estado, que tem papel central na Cultura, não auxilia em nada, segundo ele.

“O governo do Estado de Pernambuco até investe em ações culturais que eventualmente possam mencionar o cangaço e Lampião, mas especificamente sobre o assunto ele sempre deu as costas. E isso não é uma coisa nova, não! Só mesmo no governo Jarbas Vasconcelos (1999-2006) é que houve uma iniciativa, com o Roteiro do Cangaço, mas para empreender nesse setor é necessário uma parceria com o Sebrae e acabou que ficou tudo no campo das ideias.”

Sobre a economia da cidade, Luciano Duque também esclarece que o município não pode ficar refém da figura de Lampião e que há outras fontes de renda que vêm sendo desenvolvidas.

“O que nós temos é uma vocação econômica comercial, de serviços. Somos um polo de saúde e de educação em toda a região. Nosso PIB dobrou de 2013 para cá e já somos o 2° maior PIB do seminário de Pernambuco, atrás apenas de Petrolina, que é uma cidade quatro vezes maior e que conta com a proximidade com o Rio São Francisco”, declara.

O secretário de Desenvolvimento e Turismo, Marcos Oliveira, que participa da entrevista, endossa as palavras do prefeito, confirma que Serra Talhada explora a figura do Rei do Cangaço, mas frisa que outros caminhos têm sido trilhados para a economia turística local.

“Sim, explora. E eu acho que deveria até explorar mais. Lampião é a figura mais conhecida de nossa cidade e isso deve ser explorado, o que não significa que não tenhamos que buscar uma diversificação econômica, criando novas fontes de renda, como o turismo ecológico e de negócios. Aliás, essa é nossa prioridade agora.”

Pergunto, sem rodeios, se a figura de Lampião é rentável. O secretário responde sem titubear.

“Dá pra dizer que a figura dele é rentável, é óbvio. Você pega um espetáculo como o ‘Massacre do Angico’, encenado pelo pessoal da Fundação (Cabras de Lampião)… Aquilo junta cinco mil pessoas por noite de apresentação, gente de todo o Brasil.”

Finalizo a entrevista com o prefeito Luciano Duque pedindo para que ele diga se há alguma semelhança entre aquela Serra Talhada dos tempos em que bandos de cangaceiros vagavam pela região e a Serra Talhada de sua gestão.

“Não. É totalmente diferente. O que eu posso dizer é que até uns 40 anos atrás parte das pessoas ainda reproduzia a violência vista no cangaço. Mas agora temos novas gerações, foram décadas de educação. Conseguimos produzir massa cinzenta, por meio da educação. Nos últimos anos, nos governos Lula e Dilma, por exemplo, recebemos as instituições federais de ensino. As coisas mudaram completamente.”

Cabras, bodes, o sertanejo e a terra

Os municípios ao redor de Serra Talhada, no Sertão do Pajeú, abrigam atualmente mais de 20 assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de outras organizações. O mais emblemático deles é, sem dúvida, o Assentamento Virgulino Ferreira, localizado quilômetros a dentro das margens da rodovia PE-390. Carregar o nome do Rei do Cangaço é um fardo a mais na jornada tão sofrida desses campesinos que lutam pelo acesso democrático à terra.

As primeiras ocupações da área onde está o Virgulino Ferreira aconteceram em 1998, mas a regularização fundiária e a emissão da titularidade dos lotes só foram efetivadas em 2004.

Sem fugir da proposta da reportagem, questiono Sandra Maria Nogueira de Barros Santos, coordenadora do Assentamento Virgulino Ferreira, se, de tudo aquilo que um sertanejo escuta ao longo da vida sobre o cangaço, em especial aqueles que mantêm contato com a terra, ainda seria possível estabelecer uma relação de semelhança entre o sertão de hoje e aquele de oitenta anos atrás. Sandra é enfática.

“Mudou muita coisa. Dá pra dizer que, talvez, tenha mudado tudo, ou quase. Mas a questão agrária e a violência no campo, principalmente contra aqueles que não têm nada, se mantêm”, conta.

A produção desses assentamentos, atualmente bem desenvolvida e contando com irrigação e mecanização, é vendida em várias feiras agrícolas do interior pernambucano, muitas vezes no atacado.
No entanto, há poucos meses o MST realiza uma feira com meia dúzia de barracas, com produtos in natura e também os já processados, numa praça do bairro mais nobre de Serra Talhada, o AABB, circundada de grandes casarões e bonitos carros importados.

Sandra destaca que o que está em jogo nessa nova iniciativa não é só vender alguns poucos produtos na área urbana e nobre da cidade.

“Isso que está acontecendo aqui não é só uma feira para vender os nossos produtos. Não se trata de vender um quilo de feijão, ou vinte quilos de feijão, não estamos discutindo isso… Nós estamos querendo discutir novas relações, falar do agrotóxico, do papel fundamental do jovem e da mulher, e, principalmente, queremos discutir aqui o acesso à terra para produzir. Queremos falar da nossa bandeira, a questão fundiária, ou seja, a reforma agrária.”

Há décadas setores conservadores da sociedade e dos meios de comunicação colaram a pecha de “arruaceiros e invasores” nos sem-terra, ignorando absolutamente o princípio constitucional da reforma agrária e da aniquilação dos deletérios latifúndios, que há séculos espalham-se pelo Brasil, sem produzir nada.

Sandra fala sobre esse carimbo moral imposto injustamente ao campesinato.

“Há uma predisposição das pessoas a não gostar da gente. É um medo, sabe? Medo por não conhecer. E tem gente que vem intimidar também, o que fez com que a gente adotasse algumas precauções com a segurança”, relata.

Sobre os novos rumos políticos do país, com recrudescimento dos discursos de ódio contra movimentos sociais, Sandra indica que essa violência interfere diretamente na forma de viver dos assentados e também diz que houve um aumento dos casos direcionados aos sem-terra da região.

“Claro que a gente sente essa violência… Com certeza. Ocorreram ações violentas ultimamente, principalmente quando a gente faz protestos nas pistas. Um tempo atrás, agora, um cara puxou uma arma para o pessoal… E tem os que jogam o carro, ou o caminhão, em cima da gente, pra atropelar mesmo”, revela.

Barraca do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), numa feira realizada no bairro AABB, em Serra Talhada – Foto: Henrique Rodrigues

Quem também é assentada na região do Sertão do Pajeú é a dirigente nacional do MST Maria Aparecida Pereira da Silva, que atua conjuntamente no Setor de Gênero do movimento em Pernambuco.

Ela acompanha toda a entrevista e é consultada sobre o papel da mulher no campo nos dias atuais, se comparado ao período de Lampião, tão ativo naquela região à época. Cida, como gosta de ser chamada, explica que as funções da mulher são praticamente as mesmas, mas deixa claro que a mudança mesmo foi na forma como a sociedade enxerga esse papel.

“Houve um avanço no papel da mulher no campo, um protagonismo maior, mas a gente continua fazendo as mesmas coisas, que vão bem além do fogão (risos)… Apenas passamos a ser mais reconhecidas.”

Os caminhos 

Um elemento central existente na travessia do sertão é a criação de caprinos. Esses animais estão presentes na identidade e na cultura nordestina há tanto tempo, que a Fazenda Carnaúba, em Taperoá, na Paraíba, pertencente à família do escritor Ariano Suassuna, resolveu sofisticar sua produção de queijo de cabra e hoje a iguaria é reconhecida em todo mundo. Sob o rótulo “Grupiara”, o queijo traz em sua embalagem uma citação escrita de próprio punho pelo autor do “Auto da Compadecida”, falecido em 2015, onde se lê “A cabra pode ser um caminho para a revitalização política, literária e econômica do Sertão do Nordeste”.

Nesse sentido, duas imagens que guardo na memória desta reportagem que percorreu as rotas do antigo cangaço estabelecem relação com bodes e cabras, animais protagonistas nos pratos fartos da culinária sertaneja.

BR-232, uma das principais rodovias que cortam o Sertão do Pajeú – Foto: Henrique Rodrigues

Uma delas foi a de um sertanejo vestido com uma velha indumentária de couro surrado, torrado pelo sol, cruzando a BR-232, na altura de Grossos, um distrito do município de Verdejante, em Pernambuco. O homem atravessava a pista com um rebanho caprino, enquanto o trânsito escasso esperava a sua passagem.

A outra, artística por natureza, foi a de uma chibarrada que descansava à sobra de uma frondosa árvore, em frente a uma humilde habitação rural, na estrada de terra que leva ao nascedouro de Lampião. Desconfiado, o dono surge na janela com cara pouco amigável, enquanto fotografo os bichos.

Essas cenas, por mais poéticas que pareçam, revelam o conflito entre dois Brasis. A exemplo do passado quase mítico do cangaço, e mais amplamente do sertão, dissecado por Euclides da Cunha na campanha de Canudos, o que choca, mas também encanta, é a tentativa dos rincões longínquos do país de se desenvolverem, enquanto sua tradição os mantém presos à sua essência.

 

 

*Henrique Rodrigues é professor de Literatura Brasileira e jornalista


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