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22 de janeiro de 2020, 21h33

80 anos do fim do cangaço

Em 1940, o temido Corisco era executado e assim se encerrava o cangaço no Brasil. Agora, em 2020, o professor e colaborador da Fórum, Henrique Rodrigues, percorreu, em uma viagem de 1.116 km pelos estados de Pernambuco e da Paraíba, alguns dos caminhos trilhados pelos principais bandos de cangaceiros da nossa história. Fórum lança hoje a primeira parte desta reportagem que será publicada em 4 capítulos

Porta da casa onde nasceu Lampião, no Sítio Passagem das Pedras, zona rural de Serra Talhada (PE) - Foto: Henrique Rodrigues

Por Henrique Rodrigues*

Foi exatamente há 80 anos que o Brasil viu uma de suas páginas mais violentas e controversas chegar ao fim: o cangaço estava encerrado.

A execução de Cristino Gomes da Silva Cleto, o temido Corisco, em 1940, botava um ponto final num fenômeno que perdurou por mais de um século no escaldante e abafadiço semiárido nordestino.

Dois anos antes, em 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, era fuzilado com seu bando na Grota do Angico, em Sergipe, às margens do Rio São Francisco. Nascido no Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, permaneceu no local até os 19 anos, momento em que se envolveu numa briga familiar com vizinhos.

Depois de sofrer emboscadas, numa das quais seu irmão Antônio acabou baleado, mudou-se com a família para um município vizinho, para evitar confusões. No entanto, um tenente que mantinha relações com seus desafetos matou seu pai, dias depois de sua mãe ter falecido doente.

A partir daquele momento, por vingança, honra e sobrevivência, entrou para um bando armado e viria a ficar famoso como Lampião, autoproclamado e apontado por historiadores como o Rei do Cangaço. Falado no Brasil inteiro, chegou a estampar as páginas do The New York Times.

Parece já não ser mais possível, nos dias atuais, definir o cangaço como um mero evento de banditismo social que arregimentou forças e aterrorizou a sociedade civil e as autoridades de sua época. É indiscutível que há muito mais coisas a serem consideradas.

No entanto, mesmo passado tanto tempo, o espectro do cangaço ainda ronda os sertões setentrionais do país.

Numa viagem de 1.116 km pelos Estados de Pernambuco e da Paraíba, a Fórum percorreu alguns dos caminhos trilhados pelos principais bandos de cangaceiros.

Para além da abordagem simplista e batida da historiografia tradicional, nossa reportagem procurou traçar paralelos entre os momentos políticos e os cenários sociais do passado e do presente, para assim descobrir por que um fenômeno de violência explícita como o cangaço permanece sendo tão importante para a cultura, a identidade e a alma do aguerrido povo do Nordeste, despertando paixões e ódios.

O sertão por dentro 

A sensação térmica passa facilmente dos 40°C nas estradas que cortam o sertão pernambucano. Pelo caminho, os cheiros invadem o capacete e trazem consigo uma face da realidade que ora é adorável, ora é sinistra e aterradora.

Em todo o percurso há muitos bichos mortos. As carcaças encouradas, fétidas, juntam moscas e fritam sob o sol. Há cabras, jumentos, bois, tatus, raposas e uma infinidade de cadáveres animais inidentificáveis.

A brutalidade da natureza no semiárido assusta até os visitantes mais experimentados. A força do vento quente e a aspereza da vegetação que parece imortal lembram ao homem de sua intrínseca fragilidade. Foi esse cenário hostil que forjou a brutalidade do cangaceiro.

A parada em Santa Maria da Boa Vista, 107 km ao norte de Petrolina, era para encontrar um almoço. A primeira tentativa foi numa pousada, um dos poucos locais que aparentavam estar abertos no sol do meio-dia. Sentado numa cadeira, suado, um homem branco de uns 45 anos, barba por fazer e camisa xadrez surrada, escuta Zé Ramalho, num cômodo que deveria fazer o papel de recepção do estabelecimento. Era um sincretismo de sertanejo com hipster de Pinheiros, postado numa poltrona estilizada, com um violão pendurado na parede, ao fundo.

“Rapaz, hoje não tem almoço, não… Eu até ia fazer, mas anda meio devagar, aí resolvi que essa semana não ia fazer, não… Mas se quiser comer um peixe eu vou contigo num bar ali no rio e a gente divide…”.

Agradeci o convite, expliquei que tinha pressa, e resolvi seguir. Enquanto me afastava ainda ouvi a música passar de ‘Avohai’ para ‘Dona da Minha Cabeça’, de Geraldo Azevedo, um genuíno filho da região.

O sertão é assim, tem trilha e bibliografia.

Moldou em terracota figuras como Rachel de Queiroz, uma magnífica cearense que imortalizou a agonia de uma fuga da seca em “O Quinze”. Isso para não falar de José Lins do Rego, João Cabral de Mello Neto, entre tantos outros.

O cangaço e seus artífices impetraram uma importância tão visceral ao imaginário do povo do sertão que sua rusticidade natural penetrou fortemente na erudição e no campo do pensamento. Os exemplos disso estão em figuras como Riobaldo, de ‘Grande Sertão: Veredas’, do mineiro João Guimarães Rosa, eternizado como um jagunço universal, cuja consciência, valor estético e honradez foram ao mundo e se infiltraram na filosofia e nos cânones acadêmicos.

Quando se vaga pelo sertão nota-se que são duas as coisas que se encontram repetidamente: uma delas são os açudes, símbolo da resistência às intempéries climáticas e aos castigos impostos pela natureza, brava e dura, como o povo nordestino. A outra é a solidão. Ela está por todos os lados, materializada no silêncio das estradas que cortam infinitamente a caatinga rajada de cinza e ocre.

*Henrique Rodrigues é professor de Literatura Brasileira e jornalista 

Esta é a primeira parte de uma reportagem especial que será publicada em quatro capítulos

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