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26 de março de 2019, 15h45

A fila do emprego, a farra nos números e a percepção da crise

Enquanto o governo Bolsonaro tenta vender uma melhoria na economia e uma retomada no emprego, São Paulo amanhece com uma multidão de pessoas procurando trabalho; o desafio é entender o quanto a fila de emprego representa muito mais que uma simples - e gigantesca - fila de emprego

Mutirão por emprego levou multidão para o Vale do Anhangabaú, em São Paulo (Foto: Reprodução/ Rede Globo)

Por Luiz Henrique Dias*

São Paulo amanheceu com uma fila quilométrica de pessoas procurando trabalho.

Isso é apenas uma amostragem da situação vivida pela maior e mais rica cidade da América Latina e considerada por muitos a locomotiva do Brasil.

O desemprego na capital paulista e em sua região metropolitana, segundo o DIEESE, beira os 17%, índice bem acima da média brasileira, 11,6%, e muito longe da realidade vivida pela cidade há menos de cinco anos, pouco antes da retirada de Dilma pelo Congresso, quando o desemprego não passava dos 5%.

Mesmo assim, na outra ponta do noticiário – e muito longe da vida real, concreta, do povo – há um governo disposto a vender uma melhora econômica e a retomada do emprego com dados de geração de empregos. O governo federal divulgou a criação de 170 mil novas vagas com carteira assinada em fevereiro, assim como a queda no índice de desemprego.

São número amorfos, sem narrativa, desprovidos de humanidade: as pessoas perderam seus empregos nos últimos anos, foram para a informalidade, não conseguiram manter o padrão mínimo de vida e agora tentam retornar em empregos piores, com salários mais baixos, com menos benefícios e obrigadas a trabalhar ainda mais para manter o pouco que conseguiram.

A crise também é psíquica, fundada na indústria do medo, onde as pessoas aceitam qualquer coisa com medo de não ter nada.

Os que não retornam ao mercado de trabalho formal, ou porque ficam na informalidade ou porque desistem mesmo de procurar um trabalho, saem das estatísticas, somem dos números.

A situação é ainda mais grave em duas faixas etárias: 18 a 24 anos e acima dos 49.

Quem busca trabalho hoje, ainda jovem, encara a informalidade, o emprego intermitente e as novas disposições de trabalho (uber, rappi, loggi, etc) de cara. Para complementar a renda precisa de desdobrar em horas e mais horas de trabalho, pois ganha no volume e não pelo serviço, abre mão do lazer, da cultura, do convívio social e, como vem acontecendo, da formação educacional.

Estamos criando uma geração de pessoas sem assistência do Estado, com salários baixos e sem profissão formal.

Quem tem mais de 49 anos vive um dilema ainda mais duro: obrigado a derrubar seu padrão de consumo e a trabalhar na informalidade, em funções destoantes de sua formação e competindo com jovens em um ambiente altamente tecnológico (a informalidade é tecnológica, é digital, é fundada na telemetria e controlada por mega empresas com sede em outros países).

O passivo social será pobreza, miséria, suicídios e aumento da violência.

Esse caldo, complexo, nos traz um desafio e uma contradição.

A contradição é escolhermos entre atuar como um Estado mínimo, como o imaginário popular ter dito ser o melhor, ou um Estado social, como dita nossa Constituição, e será a salvação para a massa de idosos sem proteção que teremos daqui meio século.

E o desafio é entender o quanto a fila de emprego representa muito mais que uma simples – e gigantesca – fila de emprego.

*Luiz Henrique Dias é gestor público e professor 


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