Seja #sóciofórum. Clique aqui e saiba como
12 de janeiro de 2020, 10h21

Cerveja é civilização, macumba e arte, por Luiz Antonio Simas

Excelente texto do historiador publicado em seu Twitter. Leia aqui

Foto: Cerveja Artesanal

Por Luiz Antonio Simas*

Façamos uma sequência cervejeira para abrir o domingo. O Código de Hammurabi estabelecia, como dever público, a obrigatoriedade do fornecimento diário de cerveja ao povo da Babilônia. Um trabalhador braçal receberia do Estado a cota básica de 2 litros por dia.

Um funcionário público, 3 litros; os sacerdotes e administradores, 5 litros para o consumo mínimo diário. O Estado se comprometia com o fornecimento dessas modestas cotas. O resto era por conta da sede do cidadão.

Hammurabi também elaborou regras para punir os produtores de cerveja de baixa qualidade. A pena aos responsáveis pela produção da má cerveja era simples e de grande sensibilidade diante do momentoso tema: morte por afogamento na cerveja.

No Egito, o Faraó Ramsés III doou aos sacerdotes do Templo de Amon 466 mil e tantas ânforas de cerveja provenientes de sua cervejaria particular, pedindo escusas pela modéstia da quantidade ofertada. Isso dá aproximadamente 1.000.000 [um milhão] de litros da bebida.

O Kalevala – o poema épico nacional da Finlândia, que conta as façanhas do bardo Vainamoinem e do ferreiro Ilmarinen – tem mais recitativos sobre a origem da cerveja que sobre a origem do homem.

Contam os persas que Daksa, o criador, resolveu um dia encher a caveira com o mais puro néctar embriagante. No meio da carraspana, Daksa arrotou. Deste arroto nasceu a famosa Vaca Sourabhi, primeira mãe do mundo.

Todas as 41 vacas mães do mundo nasceram assim, da eructação do deus no meio de uma porranca. Sem o porre; sem a vida.

Ogum é chegado numa gelada. Quem quiser agradar ao guerreiro pode colocar uma cervejinha na mata, no caminho ou numa estrada de ferro. A Lei de Pureza do Duque da Baviera é do dia 23 de abril de 1516. Pixinguinha nasceu em um dia 23 de abril, dia de São Jorge. Aí tem coisa.

Seu Gino da Cobra Coral, caboclo de Xangô nas umbandas velhas, gosta mais de uma cerveja preta – que pode ser colocada numa pedreira ou ao lado de um dendezeiro. Exu gosta de qualquer coisa que tenha álcool – basta colocar a água que o passarinho não bebe na esquina.

Algumas cervejas eram, até recentemente, consideradas tônicos fortificantes. Vejam essa propaganda da Malzbier, recomendando a bebida para crianças, mulheres e fracotes.

Foto: Reprodução

Parte das informações que coloquei aqui estão em um texto que publiquei no Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros: cerveja é civilização, macumba e arte.

*É um escritor, professor e historiador, compositor brasileiro e babalaô no culto de Ifá. Professor de História no ensino médio, é mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. 


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum