Fórum Educação
14 de dezembro de 2019, 06h37

Docentes da UFPA são intimidados por ruralistas no Pará, diz sindicato

Em mensagens e áudios vazados por aplicativos de celular, os docentes são chamados de bandidos, vagabundos e acusados de promover a desordem e incitarem ocupações de terras; dois assassinatos relacionados a conflitos agrários ocorreram na região em menos de uma semana

Reprodução

O Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) denunciou, na noite desta sexta-feira (13), que docentes da Universidade Federal do Pará (UFPA) passaram a ser alvo de ameaças e coação por parte de ruralistas e fazendeiros do estado após gravarem um vídeo em apoio à luta dos trabalhadores rurais no município de Anapu. Em menos de uma semana, entre os dias 4 e 9 de dezembro, ocorreram dois assassinatos na região e, ao que tudo indica, os crimes estão relacionados a conflitos agrários históricos naquela área.

As ameaças vieram através de mensagens e áudios enviados através de aplicativos de celular e que foram vazados no início da semana. De forma intimidatória, os fazendeiros, que não foram identificados, citam as lideranças que foram assassinadas a chamam os docentes de “vagabundos”, além de os acusarem de promover desordem e incitarem ocupação de terras.

Em mensagens e áudios vazados por aplicativos de celular na última terça-feira (10), os docentes são chamados de bandidos, vagabundos e acusados de promover a desordem e incitarem ocupações de terras. Os ruralistas citam casos de lideranças que foram assassinadas mesmo tendo “costas quentes” de políticos e defendem que Gilberto Marques e Anderson Serra sejam enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Não é possível identificar os autores das mensagens e dos áudios.

“A possibilidade de trabalhadores serem mortos é muito grande. Temos pela frente um período de muita tensão. E nesse cenário precisamos perguntar: qual é a real função da universidade, em particular da universidade pública? A função é trabalhar para superarmos as nossas grandes contradições sociais. A gente entende que a universidade deve ter uma posição. O silêncio nesse momento é cumplice, e essa cumplicidade nós não podemos ter”, afirma Gilberto Marques, diretor-geral da Associação de Docentes da Ufpa (Adufpa – Seção Sindical do ANDES-SN).

Desde 2015, 16 trabalhadores rurais foram mortos no município, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Pará. Em 2005, o assassinato da missionária estadunidense Dorothy Stang ganhou projeção nacional e internacional. Já em 2018, outra liderança religiosa, Padre Amaro, foi criminalizado e detido no presídio de Altamira. Mais recentemente, no início de dezembro, ocorreram os assassinatos de Márcio Rodrigues Reis, mototaxista ligado aos movimentos de luta pela terra e principal testemunha de defesa do Padre Amaro, e Paulo Anacleto, ex-vereador do PT e conselheiro tutelar do município.

Em nota divulgada no dia 6, a CPT afirma que existe “milícia rural composta por pistoleiros, organizada por madeireiros e grileiros de terras públicas” em Anapu e pede esclarecimentos ao assassinato do mototaxista. “Com medo, muitas lideranças já saíram de Anapu, outras têm medo de denunciar os crimes temendo ser a próxima vítima. Enquanto isso, a grilagem e o desmatamento avança sobre as áreas de assentamentos criados”, aponta a Pastoral da Terra.

MPF

De acordo com o sindicato dos docentes, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou procedimento para acompanhar investigações dos assassinatos e solicitar providências às autoridades de segurança pública do Pará sobre a nova escalada de violência no município de Anapu. Para o MPF, o cenário atual no município evidencia a ocorrência de reiteradas “ameaças dirigidas aos defensores de direitos humanos no campo”. O MPF solicitou informações sobre as providências que estão sendo tomadas para prevenir e coibir a violência contra os moradores e lideranças dos lotes 96 e 97 da gleba Bacajá, onde há pressão para expulsão de trabalhadores rurais.

 

 


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