“Não acredito nesse deus homem, branco e macho, que escolhe quem vai matar”

Na segunda entrevista da série "Evangélicos Contra Bolsonaro", a pastora Eliad Dias fala sobre o paradoxo de ser bolsonarista e cristão e opina em relação aos caminhos para que progressistas se aproximem e compreendam o segmento

Eliad Dias, pastora da Igreja Metodista da Luz, em São Paulo, é uma mulher negra e progressista. Ela é a segunda entrevistada da série exclusiva “Evangélicos Contra Bolsonaro”, da Revista Fórum.

Durante a conversa, parto sempre do mesmo ponto: as contradições entre ser bolsonarista e declarar-se cristão. Eliad lista argumentos que inviabilizam a compatibilidade entre as duas definições.

“Cristã e cristão não fazem arminha, não vivem falando da morte como vingança. Cristã e cristão lutam por um mundo mais justo, creem no Evangelho e querem vida! Cristão procura seguir a vida e os ensinamentos de Jesus Cristo. Quer dignidade, justiça social, trabalho pra todo mundo, casa pra todo mundo. Para os cristãos bolsonaristas, Jesus é só para alimentar o ego e para fazer concessões para muitas coisas que eles querem. A teologia da prosperidade piorou esse quadro. Ali há um deus, um Jesus, que dá carro. Que acha que alguém é importante pelo quanto tem na conta bancária. Um deus que oprime, que seleciona as pessoas que ele vai abençoar. Enfim, não dá pra ser bolsonarista e ser cristão de verdade”, dispara.

A pastora completa o raciocínio afirmando que para esses setores reacionários, que se escondem atrás da figura de Cristo, foi necessário conceber um deus próprio, que contemple e admita suas distorções face aos ensinamentos de Jesus.

“Essa gente fez um novo deus. Desenhou um novo Cristo, só pra eles. Então por isso eles não se sentem nem um pouco intimidados de posar ao lado de mensagens de Jesus com arma na mão. Esse Cristo e esse deus foram feitos à imagem e semelhança deles. É uma tremenda distorção da realidade”, completa.

Para a líder evangélica, diferentemente do que se repete no senso comum, que as igrejas evangélicas teriam sido instrumentalizadas por Bolsonaro com interesses eleitorais, as coisas não são bem assim. Segundo ela, essas denominações que o apoiam têm papel ativo nessa união e também são responsáveis pelo que vem acontecendo com o grupo.

“Não acho que Jair Bolsonaro se aproveitou do segmento evangélico. Esse segmento evangélico podre que está aí o apoiou desde o início. Eles querem poder, querem dinheiro. É um segmento reacionário, fascista, que quer que o mundo gire de acordo com aquilo que eles acreditam. Querem fazer marcha pra família, a tal família tradicional, enfim. Repare que quase todos eles, com pouquíssimas exceções, são homens brancos e de igrejas ricas. Bolsonaro tem esse apoio porque, ao se juntar com essa gentalha, essas igrejas sabem que terão o poder que eles tanto sonham… Pra gente entender esse movimento é preciso ir até os Estados Unidos e ver o projeto da direita evangélica de lá. Até 2050 eles querem que todos os líderes das Américas sejam cristãos, evangélicos. E por aqui nós já temos um talibã evangélico próprio, que está no governo e que, se continuar por mais quatro anos, transformará o Brasil num inferno total”, critica Eliad.

A entrevistada ainda faz um último aparte sobre o suposto uso pelo presidente da República da denominação religiosa à qual ela pertence.

“É só você ver o como eles trabalham as questões das mulheres, dos indígenas, da comunidade negra, depois de tantos avanços, e que agora só vemos retrocessos por causa dessa gentalha. Eles não são cooptados. Esses evangélicos são parceiros, são comparsas. Essa gente é uma milícia evangélica e por poder eles fazem qualquer coisa.”

Em relação ao estigma que recai sobre o povo evangélico, visto com desconfiança pelo todo da sociedade por conta de um virtual alinhamento com uma gestão marcada pela morte e por políticas que desvalorizam os direitos humanos, Eliad diz que faz questão de reafirmar, aonde quer que vá, que é evangélica e que não faz parte dos pilares de sustentação de um governo repudiado no mundo todo, e que tampouco acredita num deus que nada tem a ver com o cristianismo.

“Eu faço questão de dizer, por onde passo, que sou metodista, que sou evangélica, mas que não tenho nada a ver com essa gente que está aí. Não sou de direita, não faço arminha com a mão, que respeito a vida humana, que sou a favor do estado laico. Cada um que viva a sua vida e a sua fé e se não quiser ter fé, tudo bem. Eu acredito na ciência. Não acredito nesse deus homem, branco e macho, que escolhe quem vai matar e quem ele vai deixar viver. Nesse deus do desamor, da guerra, que se importa se você está fazendo sexo com uma pessoa do mesmo sexo. Isso pra mim não tem nada a ver com o Evangelho. Esse pessoal fala em nome de um deus que eles mesmos criaram”, frisa.

O silêncio das igrejas evangélicas, e de Bolsonaro, quando o assunto é a violação aos direitos humanos também incomoda a pastora. Ela crê que o papel dos cristãos é repudiar a violência, mas diz que os líderes evangélicos alinhados ao bolsonarismo estão mais preocupados com seus ganhos.

“Bolsonaro defende as execuções, claro. Como por exemplo agora, há poucos dias, no Jacarezinho. E quais as igrejas que se pronunciaram sobre isso? Até agora nada, né? E as poucas que se pronunciaram, apoiaram o presidente, dizendo que ali eram todos bandidos. É preciso frisar que essas posições não são cristãs. Alguém precisa dizer pra essa gente que se diz evangélica, cristã, que na verdade eles não sabem nada de cristianismo. Esse deus que eles seguem, a quem juram fidelidade, é um deus que não pensa nos humanos. Ele pensa apenas nos direitos e privilégios de uma classe. O ego deles é muito exacerbado. Não é à toa que esses Malafaias, RR Soares, querem ter avião, coisas de ouro. Se sentem representantes de Deus no mundo.”

A bancada evangélica, grupo de pastores e líderes religiosos que tem forte atuação nos parlamentos brasileiros, também foi alvo de duras críticas da pastora metodista, que não poupou adjetivos. Ainda no campo da política, Eliad vê um problema nas tentativas de diálogo entre a esquerda e os evangélicos.

“A bancada evangélica é a bancada do mal (risos)… Na verdade ela não é evangélica. Tinha que ser a bancada do diabo… Essa bancada, que se aliou à direita, e há todo um histórico aí, de dinheiro, apoio às milícias, enfim, passa pelo rebanho que eles têm na igreja. É o pastor, ou o bispo, que dizem em quem os fiéis têm que votar. Para o fiel, tudo faz diferença. Naquele convívio, ele se sente parte da comunidade, até porque o pastor o cumprimenta, o reconhece, diferentemente do seu chefe na empresa, ou do racistinha do trabalho. Isso faz diferença. Aí eu pergunto: como a gente pode transformar isso? E nós temos um problema aí… Eu não creio muito nesse negócio de trabalho de formiguinha. Precisamos nos unir para mudar isso, mas aí aparece outro problema, já que a esquerda não consegue também se unir.”

Os problemas de relacionamento com os núcleos políticos mais progressistas, segundo ela, não vêm de hoje e deveriam ser melhor analisados pelas lideranças de esquerda. A falta de preparo dos dirigentes de movimentos populares, assim como a falta de conhecimento político de parte dos evangélicos dificultam essa aproximação.

“Se nós tivéssemos uma educação política, a esquerda poderia trabalhar politicamente com os evangélicos, pra mostrar o que Bolsonaro está fazendo. Tem um exemplo claro disso. Uma vez me convidaram para uma reunião, que era para chamar os evangélicos. Aí, um companheiro da esquerda ficou explicando por mais de meia hora coisas que eu já sabia, não me deu oportunidade de falar e só queria que eu falasse sim. É difícil, porque se você não escuta, não compartilha informações e já chega dizendo que a pessoa é inferior a mim, porque estudei Marx e conheço Lênin, fica muito difícil. Todo mundo já chega com vários discursos prontos, mas você tem que ouvir as pessoas. Ouvir mais e falar menos pra que a gente tenha confiança”, avalia.

Na última pergunta, retomo a cristianismo autodeclarado de Jair Bolsonaro. Quero saber da pastora Eliad Dias se ela classificaria o presidente como cristão.

“Considerar Jair Bolsonaro um cristão? Deus me livre… Pra mim, é muito claro que ele é a representação de todo tipo de mal que existe nesse mundo. Ele é cínico, um sujeito nojento, horroroso, que não tem nada de cristão. Eu não consigo ver absolutamente nada de cristão, de evangélico, de bom, ou de positivo naquela pessoa. Nem em sua família. A única coisa que consigo ter por essa gente é desprezo. Estamos perdendo pessoas que amamos, estamos deixando de fazer as coisas, de viver a vida. Não dormimos direito, não vivemos direito, com medo da Covid, porque não temos vacina e tudo por causa dessa gente má, sem coração, perversa”, finaliza.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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