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21 de setembro de 2018, 19h42

Não se trata de dar voz, mas de ouvir suas vozes, diz autora do livro ‘Mulher de favela’

"Como as políticas públicas são insuficientes nos espaços populares, as mulheres começam a atuar numa luta social e política buscando melhorias para suas comunidades", diz Nilza Rogéria de Andrade Nunes

Na última quarta-feira (19), Nilza Rogéria de Andrade Nunes, doutora em Serviço Social pela PUC-Rio e mestre em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social pelo Instituto de Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, lançou o livro ‘Mulher de favela: o poder feminino em territórios populares’. A obra é resultado da sua tese de doutorado, “As ‘Marielles’ do Rio – mulheres das favelas que são líderes, cuidam de suas casas e da comunidade”.

O lançamento do livro ocorreu durante o seminário Direitos Humanos em Perspectiva, organizado pelo Centro Cultural Justiça Federal (CCJF). A obra traz o relato de 15 mulheres com protagonismo dentro e fora de suas comunidades. Entre elas, a dona Zica, 84 anos, moradora da Vila Aliança e fundadora do Sindicato das Domésticas do Rio. “Ter poder dentro da comunidade, e poder na comunidade, é você estar em torno daquilo que acontece das questões sociais, pela formação, as questões sociais está em torno da gente”, diz dona Zica, que aos 9 anos foi empregada doméstica, teve seis filhos e abandonou os estudos, voltando às salas de aula aos 40 anos. Aos 82 anos, ela formou-se como assistente social na PUC-Rio.

Confira entrevista exclusiva com a autora do livro:

Fórum – Na obra “Mulher de favela: o poder feminino em territórios populares” você busca compreender o protagonismo crescente das mulheres nas favelas da cidade. Por que e como o protagonismo da mulher tem crescido nesses territórios?

Nilza Rogéria de Andrade Nunes – A participação das mulheres das favelas não é de hoje. No entanto, do ponto de vista histórico, vem se construindo, principalmente, a partir da década de 1980, mas ganha maior impulso após os anos de 1990. No período pós-ditadura, quando os movimentos sociais ressurgem, junto com ele o movimento feminista e movimento de mulheres despontam no Brasil. Nos movimentos de favela isso também ocorre, mas muito protagonizado inicialmente pelos homens. As mulheres entram em cena quando buscam melhorias para esses territórios se organizando por conquistas de creches, em comissões para melhorias do espaço e cursos profissionalizantes. Isso ocorre no período em que há uma “explosão” de ONGs e também das nomeadas organizações de base comunitária (OBC). Essas organizações possuem características próprias por terem uma forte relação com a população onde se inserem. Normalmente, elas são pequenas, já que atuam apenas em âmbito local. São organizações que, antes de tudo, conhecem muito bem o local onde atuam, seus problemas de fato e as pessoas que vivem lá. Seu trabalho está muito mais fundamentado na emergência das questões cotidianas. Tendem a não ser formalizadas e costumam ser generalistas, pois no local os problemas são inúmeros e atuam em diversas pontas. São esses os espaços onde as mulheres atuam principalmente.

Fórum – Quais fatores têm levado as mulheres a se organizarem? Quais dificuldades elas enfrentam?

Nilza Rogéria – Como as políticas públicas são insuficientes nos espaços populares, as mulheres começam a atuar numa luta social e política buscando melhorias para suas comunidades. As associações de moradores acabam ficando mais centradas ao universo masculino, e nas OBC as mulheres assumem mais esse protagonismo. Elas atuam em diversas frentes que são demandadas pelos moradores. Nesse sentido, tem um compromisso de cidade, mas com uma escolha radical pelo território da favela. Saem desses espaços, mas, ao mesmo tempo, não se distanciam dele. Não abandonam as causas, mesmo que as oportunidades as levem a outros vôos. Esse protagonismo da mulher em condição de subalternidade faz com que assumam um papel de referência nos locais onde contraíram e constroem suas histórias. À medida que se engajam nos movimentos sociais, espaços de controle social, passam a circular por diferentes espaços, elas transitam de práticas assistencialistas para práticas emancipadoras, pela via da tomada de consciência política, pela mobilização e participação comunitária. Assim, iniciam suas práticas movidas pelo afeto, pela solidariedade e pela reciprocidade, mas à medida que se engajam nesse compromisso estas mulheres constroem uma dinâmica de movimento, de política e de interesse a partir de proposições e de ações transformadores da realidade. As dificuldades enfrentadas não são poucas. Enfrentam as questões concernentes a sua condição de mulheres e de favela, além de negras, em sua maioria. No entanto, tornam-se referência e ganham um protagonismo à medida que essa consciência e possuem um “devir” com consciência “de si” e “para o outro”, mas numa relação de uma solidariedade horizontal. Assim, no contexto das favelas cariocas, a “feminização do poder” faz despontar o fortalecimento da voz de um sujeito político, marcado pela ausência e/ou insuficiência de políticas públicas preconizadas pela garantia de direitos. O fato de priorizarem questões coletivas sobre o seu tempo individual aponta para um sentido de reciprocidade, marcado pelo prazer e pela realização de conquistas em troca de um reconhecimento pelo seu valor como pessoa de referência no seu local de moradia, o que lhe confere um lugar de poder e de visibilidade.

Fórum –  Como se deu a escolha dessas 15 mulheres que foram entrevistadas?

Nilza Rogéria – Procuramos cobrir todas as regiões da cidade e assim buscamos favelas que fossem simbólicas nesse contexto, mas sem perder de vista pequenos e grandes complexos. Por minha atuação em quase 30 anos trabalhando nesses territórios populares, minha rede de contatos é expressiva. Assim, pude identificar algumas com as quais eu tinha conhecimento à priori de sua atuação e as demais foram identificadas através dessa rede de contatos. Nesse sentido, cobrimos a cidade e com uma atuação plural. As favelas/mulheres que fizeram parte da composição desse estudam foram das seguintes localidades: Complexo do Alemão, Maré, Rocinha (grandes complexos); Providência e Morro dos Prazeres (Centro); Chapéu Mangueira (zona sul); Rio das Pedras, Vila Vintém e Vila Aliança (zona oeste); Morro do Urubu, Salgueiro, Borel, Macacos, Serrinha, Pedreira (zona norte).

Fórum – Marielle foi brutalmente assassinada. Como você vê o risco para essas mulheres da favela que lutam? O que é preciso fazer para as mulheres das favelas levarem sua luta para fora desses territórios e poderem ser ouvidas?

Nilza Rogéria- Continuarem na luta! Não há outro caminho a não ser fazer com que suas vozes sejam ouvidas! Não se trata de dar voz, se trata de ouvir suas vozes!! Essas 15 mulheres, iconográficas, representam outras tantas que agora queremos descobrir ou evidenciar. Nossa pesquisa agora em curso é identificar 300 mulheres que atuam em 300 favelas, buscando enfrentar todas as adversidades em prol de uma melhor condição de vida e de saúde para os moradores que aí residem. As vozes destas 15 mulheres, através de seus testemunhos, narram e desenham outra forma de exercitar uma práxis política, que transforma suas inquietudes em pontes, articula e conecta diferentes possibilidades de ação.

Falas marcantes

Nilza Rogéria separou algumas respostas que mais a marcaram durante a construção do livro, em conversas com as “Marielles”. Elas falaram sobre o que é ter poder. Confira os trechos selecionados pela autora:

“Esse poder que eu tenho, essa legitimidade que eu tenho, foram conquistados pela maneira como eu lido com esse trabalho, a maneira como eu acredito nesse trabalho, como eu me doo para esse trabalho. Tem uma doação também nesse processo e eu acho que é muito cômodo para muitas pessoas não trabalhar o seu poder interno, a sua capacidade de agir na realidade, de se colocar. É muito mais fácil, às vezes, você ser passivo diante das coisas (…) Pra mim, o poder não é uma coisa que está fora, é uma coisa que está dentro e ele é exercido a todo momento.” Eliana.

“Para ter poder é preciso ter muita força. O poder é uma coisa tão forte que ele pode servir para o bem e pode servir para o mal. Quando você é uma pessoa consciente, ele serve para o bem e quando você não tem vaidade, nem tem egoísmo. Agora, o poder, quando você é uma pessoa vaidosa, egoísta, ele já aí já não serve… Então, eu acho que poder, às vezes, para em mãos erradas. O poder é uma balança que o tempo todo está assim, tem os altos e baixos e  preciso saber viver com esse poder.” Lúcia.

“O poder é algo muito difícil de mudar, ainda mais no meu lugar de fala, de mulher negra, poucas mulheres negras experimentam o poder. É muito difícil você ver uma mulher negra ser respeitada ou quando ela é respeitada ela sai do papel de negra, finge que não é negra, é uma relação de conveniência. Eu não finjo que não sou negra, a minha pele pode até não ter a coloração que as pessoas gostariam, mas eu nasci de um ventre negro, então eu tenho que ter orgulho disso.” Flávia.

“Eu acho que ter poder é você ter dignidade, ter a cabeça erguida, e também ter a sua vida envolvida. Ter poder dentro da comunidade, e poder na comunidade, é você estar em torno daquilo que acontece, das questões sociais. Pela formação, as questões sociais estão em torno da gente. Ter poder é você ser respeitada nisso, mas não adianta você fazer uma interferência, se você não é respeitada.” Zica.

“Se as comunidades hoje estão nesse pé de guerra, nessa luta, nesse mata-mata, nesse troca-troca, mata esse pra aquele sobreviver, é por que existe lá em cima na cadeia toda uma estrutura podre, safada, que tem o poder de manipular esse país. Sem consciência política ninguém faz nada.” Elizia.

 


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