E. E. PROFESSORA LEICO AKAISHI

Professora denuncia violência policial em escola de SP e é demitida

Caso ocorreu em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo; Guarda Civil Municipal apontou arma e jogou adolescente contra a parede - professora prestou apoio à família

Escola Estadual Professora Leico Akaishi, em Ribeirão Pires (SP).Professora denuncia violência policial em escola de SP e é demitidaCréditos: Reprodução/Googlemaps
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No último dia 27 de março os alunos da Escola Estadual Professora Leico Akaishi, em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo, protestavam contra a recém concretizada demissão da professora Larissa Alves, de língua portuguesa. Duas semanas antes, ela testemunhou um episódio de violência policial e racismo contra um aluno, agredido pela Guarda Civil Municipal ao sair da instituição, e, desde então, prestava apoio ao adolescente e à sua família, além de cobrar seus pares por rondas policiais mais humanas no entorno.

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A abordagem ocorreu pouco depois do meio dia, no momento de saída dos alunos do período da manhã. Larissa entrava em um carro de aplicativo quando viu os GCMs chegando devagar, por trás do jovem, e surpreendendo-o com a arma apontada. Segundo seu relato, a diretora da escola estava presente e sorria no momento da abordagem.

“Entrando no carro, eu vi a viatura da GCM se aproximando bem lentamente e o agente já saindo com a arma apontada”, relatou a professora ao portal Alma Preta. Ela garante que além da diretora e de si própria, outros alunos também testemunharam a abordagem.

Os guardas teriam realizado a abordagem ao notarem “volumes” nos bolsos do adolescente. Após jogá-lo contra a parede e com a arma apontada à cabeça, ficou constatado que o “volume” era um telefone celular. De acordo com a professora Larissa, o aluno estava dentro da escola durante toda a manhã, assistindo aulas, e não haveria motivo algum para que fosse suspeito de algo.

Após o episódio Larissa questionou os colegas e a diretoria, em grupo de WhatsApp dos docentes, a respeito da naturalização do episódio. Segundo seu relato, ninguém se chocou no momento ou pensou em ajudar o estudante. “Mandei um monte de mensagens no grupo. Perguntei até quando iríamos naturalizar um aluno sair da escola e ter uma arma apontada contra si. Ninguém respondeu”, afirmou.

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Sem resposta, a professora então teria prestado apoio pedagógico ao aluno e conversado com sua família. Na sua opinião, a motivação da abordagem seria por conta do racismo e ela então começou a tratar sobre o tema de forma mais ampla, e o fato em particular, em sala de aula. O adolescente, por sua vez, escreveu uma crônica sobre o episódio que, com seu aval, foi parte das conversas sobre racismo e violência policial que a professora promoveu.

Mas a diretora não gostou nem um pouco da forma como Larissa se posicionou. Após a denúncia, ela teria exibido à comunidade escolar um vídeo da abordagem, onde negou os abusos apontados, inclusive o caráter racial da abordagem. Na sua opinião, o aluno não seria negro. No fim de semana seguinte, a professora estava demitida.

Para piorar, Eduardo Cabral, o advogado de Larissa, contou à imprensa que a diretoria informou o endereço errado para a obtenção de um documento que a possibilitaria pedir a reintegração à escola. O documento só foi obtido após o prazo de 3 dias úteis para a apresentação do pedido.

A Secretaria Estadual de Educação afirmou que a demissão se deveu a professora haver supostamente exposto imagens dos alunos em seu texto de denúncia e “incitar o protesto” entre os adolescentes.

Também afirmou, em nota, que a GCM pode abordar qualquer cidadão quando suspeitar que haja posse de armas, entorpecentes ou outros itens relacionados à prática de crimes. No entanto, em decisão de 2022 do Superior Tribunal de Justiça de São Paulo, ficou estabelecido que as GCMs não têm poder de polícia e só poderiam fazer abordagens e revistas em casos “absolutamente excepcionais”.