Pediatra bolsonarista usa redes sociais para receitar ivermectina contra a Covid-19

Mauricio Lahan compartilhou imagem que dizia ser uma campanha nacional, o "Dia de Tomar Ivermectina". O post dá inclusive orientações de dosagens

O médico pediatra Mauricio Lahan, de 72 anos, de Santos, no litoral de São Paulo, usou as redes sociais para receitar o medicamento ivermectina como forma de prevenir o contágio pela Covid-19.

Apesar da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o fabricante do vermífugo já terem alertado que ele não é eficaz contra a Covid, Lahan compartilhou uma imagem que dizia ser uma campanha nacional, o “Dia de Tomar Ivermectina”.

O post do médico dá orientações de dosagens para quem quiser tomar o antiparasitário. Nos comentários. Seguidores fazem perguntas nos comentários sobre como tomar o remédio. Para o Conselho Regional de Medicina, a divulgação e prescrição de medicamentos, por meio de canais públicos, pode configurar infração ao Código de Ética Médica.

O médico afirmou em entrevista ao G1 que começou a receitar este e outros medicamentos, como a hidroxicloroquina e azitromicina, para conhecidos, após se curar da doença com o uso dos remédios.

“Eu sou de uma linhagem que aprendeu, há 45 anos, que não existia uma medicação específica para vírus”, explica. De acordo com o profissional, no período em que contraiu a Covid-19, ele se automedicou com o uso de hidroxicloroquina e azitromicina, e percebeu que o tratamento havia funcionado.

O médico afirma que muitas pessoas já foram curadas porque ele passou o tratamento. “Sarei muita gente, curei muita gente baseado em experiência pessoal”. Ele diz ainda que não cobrou por consultas. “Vieram me procurar, foi senso médico humanitário, eu só trato criança, sou pediatra. Isso é um senso médico que a gente se baseia”.

Ele diz estar ciente de que os órgãos oficiais pensam diferente dele, no entanto, o profissional defende as drogas.

“Eu tenho absoluta certeza de que os órgãos oficiais pensam diferente de mim, a Sociedade Brasileira de Infectologia, a Associação Médica Brasileira, a Organização Mundial da Saúde. A gente usa a medicação off label, fora da bula, por experiência pessoal, baseado no Protocolo de Helsinque, que diz que o médico pode receitar o que ele acha necessário, desde que ele se responsabilize pelo o que ele receitou”, finaliza.

AMB condena uso dos medicamentos

A Associação Médica Brasileira (AMB) mudou de posicionamento na última terça-feira (23) e passou a recomendar que os remédios do chamado “kit Covid”, que incluem medicamentos como a hidroxicloroquina e a ivermectina, sejam “banidos” do tratamento da Covid-19.

O médico César Eduardo Fernandes novo presidente da associação, disse, em entrevista ao G1, que a autonomia do médico não lhe dá o direito de prescrever remédios ineficazes.

“Eu acho que o princípio do trabalho do médico – que eu acho válido, merece todo o nosso respeito – é dar autonomia de decisão ao médico. Mas essa autonomia não lhe dá, a meu juízo, o direito de fazer uso de medicações que não tenham eficácia”, afirmou Fernandes.

Charlatanismo

O médico infectologista Marcos Caseiro definiu o caso de Lahan como charlatanismo.

“Todos os trabalhos são unânimes em mostrar que essas drogas não funcionam, existem mais de 36 publicações sérias mostrando que isso não funciona. Eu também gostaria de prescrever medicamentos, esse é o desejo de todo mundo, agora, prescrever algo que não funciona é charlatanismo”.

Segundo Caseiro, o fato de algo ter “funcionado” com uma pessoa não significa que vai surtir o mesmo efeito em outras. “Se você não tem conhecimento do método científico, é intuitivo dizer que tomou algum remédio e se curou, isso é um clássico da medicina”, explica.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.

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