Julinho Bittencourt

27 de novembro de 2019, 16h35

Álbum póstumo de Leonard Cohen traz fantoches nazistas, rouxinóis e canções de amor

“Thanks for the Dance” foi feito pelo filho do compositor, a partir de gravações deixadas pelo pai

Foto: Reprodução/Vídeo

O grande compositor e cantor canadense Leonard Cohen se foi, em 2016, 19 dias depois de lançar seu álbum de despedida, o comovente “You Want It Darker”. O que quase ninguém sabia, no entanto, é que não se tratava de seu último disco. Quase três anos depois, a partir de gravações feitas em seu estúdio caseiro e até mesmo durante uma entrevista coletiva, o filho do cantor, Adam Cohen, lança “Thanks for the Dance”.

Não se trata de um disco de sobras, e isto é a primeira coisa que Adam pretende deixar bem claro, antes mesmo que soem os alto-falantes. E, quando o álbum começa a tocar de fato, fica claro que não é mesmo.

O bom e velho Cohen está lá, na sua melhor forma, com canções lindas, poemas magníficos e, é claro, a sua inesquecível, sussurrada e trovejante voz de barítono.

O instrumental do álbum, um tanto mais econômico do que vários outros de sua discografia, conta com participações estelares. Além do próprio Adam, estão nele o produtor canadense Daniel Lanois, que fez vários discos com a banda irlandesa U2, Damien Rice, a cantora Leslie Feist, Richard Reed Parry (do Arcade Fire), o guitarrista flamenco Javier Mas, Bryce Dessner (do National), Beck e Patrick Watson.

Posto isto, a viagem pelas canções começa. Assim como toda a extensa obra de Cohen, são hinos aparentemente simples, com poucos acordes, em sua maioria em tons maiores, ocasionalmente compassos ternários, mas que, unidos pela sua mágica inconfundível, brotam feito obras-primas.

O tom, assim como em “You Want It Darker” é sombrio e tranquilo. Cohen, segundo depoimentos de amigos, sabia que estava a poucos dias do fim. A canção título “Thanks for the Dance” é um epitáfio fabuloso de um dos grandes poetas de seu tempo, que ia embora sereno, com o peito repleto de grandes memórias e amores:

Foi bom, foi rápido
Nós fomos os primeiros, fomos os últimos
Em linha com o
Templo do prazer
Mas o verde era tão verde
E o azul era tão azul
Eu era tão eu
E você era tão você
A crise foi leve
Como uma pena

“The Night of Santiago” é uma vigorosa e sensual canção com clima flamenco sobre as recordações sexuais de um homem de mais de 80 anos. Vale o destaque para a elegante participação do guitarrista espanhol Javier Mas.

No outro oposto, “Puppets” fala dos fantasmas em forma de marionetes do nazi-fascismo enfrentado por sua família e geração com os de hoje, ressuscitados pelo comando dos presidentes.

Marionete eu e marionete você
Marionete alemão, marionete judeu
Comando dos presidentes de marionetes
Tropas de marionetes para queimar a terra
Fogo de marionetes, chamas de marionetes
Alimente-se de todos os nomes de marionetes

Foto: Capa/Divulgação

Ao final, com a gravação retirada de uma récita durante coletiva para divulgar o álbum “You Want It Darker”, a Leonard Cohen nos presenteia com “Listen to the Hummingbird”: “Listen to the hummingbird/ Whose wings you cannot see/ Listen to the hummingbird/ Don’t listen to me” (“Escute o beija-flor/ Cujas asas você não consegue ver/ Escute o beija-flor/ Não me escute”). Os jornalistas aplaudiram e o autor disse: “Eu diria que o beija-flor merece os royalties por essa”.

Ao ser perguntado se aqueles versos estariam em seu novo álbum, respondeu: “Se Deus quiser”. Adam tratou a voz registrada naquela entrevista coletiva e musicou.

E assim se encerra, lindamente, o álbum e a carreira de Leonard Cohen.

 


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