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15 de fevereiro de 2019, 08h33

Artistas sobre ‘revisão’ da Petrobras Cultural: “é o que se pode esperar deste governo”

Fazedores de cultura entrevistados pela Fórum revelam as consequências devastadoras das propostas de Bolsonaro para o setor

Foto: Julinho Bittencourt

Fazedores de cultura de vários setores entrevistados pela Fórum, uns mais e outros menos, reagiram em coro contra a “revisão” das verbas da Petrobras Cultural anunciada nesta quarta-feira (13) pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, através de sua conta no Twitter. Com raras exceções, o clima geral foi de desolação, mas não de surpresa. Era mesmo, de acordo com a opinião predominante, o que se poderia esperar deste governo.

O tuite de Bolsonaro, apesar de curto, carrega várias provocações. Duas delas receberam atenção especial: o fato dele ressaltar a necessidade de uma “maior transparência” e também a “melhor empregabilidade do dinheiro público”.

Veja a frase completa: “Para maior transparência e melhor empregabilidade do dinheiro público, informamos que todos os patrocínios da Petrobras estão sob revisão, objetivando enfoque principal dos recursos para a educação infantil e manutenção do empregado à Orquestra Petrobras”.

Ainda mais transparência, presidente?

A Barca. Foto: Divulgação

Com relação à transparência, o pianista, compositor e integrante do grupo A Barca, Lincoln Antônio, que refez entre 2004 e 2005 a viagem de Mário de Andrade pelo Brasil, que culminou com o lançamento da obra “O Turista Aprendiz”, recorda que poucos editais são tão abertos, com regras tão claras quanto os da estatal. “Quando eu participei com a Barca, eu lembro muito bem do nível altíssimo dos jurados e o rigor com tudo. Essa é a maneira mais transparente de usar recurso público para a cultura. É a maneira como a Petrobras sempre fez”, disse.

O grupo Barbatuques. Foto: Facebook

O musico André Venegas, do grupo Barbatuques, segue na mesma direção. Além de ressaltar a importância do papel da Petrobras no fomento à cultura ele lembra que a estatal “não deveria ficar refém de governo algum. A transparência é sim muito importante, mas não deve ser usada como desculpa para a coação ou censura”, adverte.

Foto: Divulgação

Outro que fez críticas à alusão de Bolsonaro à transparência foi o ator e ex-presidente da Funarte, Sérgio Mamberti. “Acho um equívoco que, sob pretexto de haver transparência e melhor utilização dos recursos públicos, se tomem medidas tão draconianas e tão injustas, inviabilizando projetos de grande importância e de transparência absoluta em relação ao bom uso do dinheiro público e de benefício comprovado, disse.

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Mamberti lembra ainda o governo age “sem consultar e discutir com a sociedade decisões de tão grande impacto. Uma tragédia anunciada, aliás, de um governo que se instalou sem apresentar um projeto democrático e consensuado para dirigir nosso país.

Cultura, uma necessidade humana

O ex-ministro da Cultura e atual presidente da Fundação Municipal de Cultura de BH, Juca Ferreira. Foto: Jeanine Moraes

Já com relação ao segundo item, a propalada por Bolsonaro “melhor empregabilidade do dinheiro público”, a saraivada de críticas veio de todas as direções. Um dos mais virulentos foi o ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, que atuou nos governos Lula e Dilma exatamente na direção contrária à de Bolsonaro. Na sua gestão, o orçamento e o fomento ao setor só fez crescer.

Para ele, “a cultura é uma necessidade humana como é alimentação, moradia, saúde e educação. Eles demonstram uma dificuldade enorme para entender isso. Quem perde é o país”, disse. Juca ainda adverte para outro fato ainda mais grave. O ex-ministro afirma que “o argumento de que está retirando recursos das artes e da cultura para aplicá-lo em algo mais importante é falacioso. Acabo de ler nos jornais de hoje que o governo está retirando 600 bilhões da previdência para cobrir ‘encargos financeiros’. Está reduzindo os recursos para educação, para a saúde”, ressalta e conclui que se trata de “um governo que representa os interesses do capital financeiro e das grandes empresas”, lamenta.

Sobre isso, Lincoln recorda que o edital da Petrobras Cultural, que já tem mais de 15 anos, “teve um impacto enorme na cultura brasileira, porque além da própria realização dos projetos, esse modelo de fomento influenciou várias outras empresas a fazerem a mesma coisa. A Votorantim, Natura entre outras começaram a usar seus recursos para patrocinar cultura, o que era uma coisa nova”, recorda.

O músico chama a atenção para o fato de que isso deveria ser objeto de estudo. “Alguém deveria medir o que foi realizado nesses anos”. Ao final, Lincoln afirma que não consegue sequer ficar indignado, “pois é só o que se pode esperar do Bolsonaro. A cultura é um assunto que não existe para essas pessoas”, encerra.

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Um passo rumo à infelicidade

O violeiro Paulo Freire. Foto: Julinho Bittencourt

O violeiro, compositor e escritor Paulo Freire também concorda com isso. “Esta medida não me surpreende. Todas as ações estão com este viés. Parece que havia uma coisa meio subterrânea que está aflorando agora”, alerta. Freire afirma que há uma certa desconfiança moralista de algumas pessoas com a cultura por conta das bandeiras levantadas, como as lutas LGBT’s, as cotas raciais, a aceitação das diferenças. Para ele, “são coisas que vão contribuir muito para a infelicidade do ser-humano. Isso vai nos conduzir a um lugar ruim”.

O violeiro adverte que as consequências disso, antes mesmo de qualquer política entrar em vigor já são visíveis: “em vários segmentos da cultura, não só na Petrobras, a gente percebe que está todo mundo com o pé atrás em apoiar a cultura. Há um certo receio por parte deles de ir contra isso que está vindo. A gente, em pleno 2019, anda precisando justificar a importância da cultura”, conta.

A final da conversa, Freire lembra uma história que ilustra o que significa o fomento à cultura: “eu estou lançando o livro ‘CHÃO – uma aventura violeira’, no mês que vem, inspirado no Turista Aprendiz, do Mário de Andrade. No diário dele, tem um momento em que ele diz: ‘preciso voltar pra São Paulo e arrumar um dinheiro pra lançar o Macunaíma’. Pois é, até o Mário de Andrade teve que se virar, de alguma maneira”.

Incentivos são do povo e não do artista

A cantora Katya Teixeira. Foto: Facebook

A cantora e compositora Katya Teixeira adverte para uma questão chave de toda essa história, que parece um tanto óbvio, mas é completamente ignorada. “O dinheiro investido através da Petrobrás é público e o retorno através dos incentivos artístico, culturais e educacionais também devem ser revertidos ao povo em geral” afirma.

Para ela, e preciso lembrar que “o subsídio nesse caso não é para o artista propriamente dito, mas sim para que as pessoas tenham acesso a conteúdos de qualidade artística e cultural, de registro e manutenção da memória do povo brasileiro. O governo tem de ser o facilitador e não o censor”, diz para, ao final, vaticinar:

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“Ao meu ver parece mesmo que a ideia é não dar acesso ao povo, mas sim formar uma massa de analfabetos funcionais, que atenda aos interesses da máquina, que não pense, não sinta… sem censo crítico, com medo e que não ouse sonhar.”

O crítico de cinema Marcelo Lyra, em artigo exclusivo para a Fórum, afirmou: “o anúncio de que a Petrobras irá rever os contratos de patrocínios destinados a cinema e teatro é mais um duro golpe na já combalida estrutura de produção cultural”. Para o jornalista, trata-se de “mais uma etapa do processo de desmanche que inclui a nomeação de Pedro Henrique Peixoto para Secretaria do Audiovisual, órgão que administra as principais ações de fomento do cinema brasileiro. Para se ter uma ideia, o principal feito cultural de Peixoto foi escrever a biografia do ator pornô e deputado bolsonarista Alexandre Frota”, ironiza.

Marcelo Lyra. Foto: Facebook

Ao final, Marcelo é mais um a demonstrar pessimismo e falta de surpresa: “a saída da Petrobras é só o começo. Num governo onde ministros parecem se orgulhar da própria ignorância, filmes e peças de teatro são vistos como desnecessários. Os vídeos e notícias que circulam pelo WhatsApp parecem mais que suficientes para satisfazer os anseios culturais dos eleitores bolsonaristas”, lamenta.

Sem compromisso com as pessoas

O Grupo Galpão. Foto: Facebook

Enquanto isso, há quem aguarde com as barbas de molho. Um dos mais importantes e premiados grupos de teatro do Brasil, o Galpão, de Minas Gerais, que tem como patrocinador master a Petrobras, afirma que ainda não foram notificados “pela empresa sobre qualquer mudança no contrato vigente. Seguimos com a programação planejada para o ano de 2019”.

As medidas de Bolsonaro, se forem mesmo implementadas, devem começar a surtir efeito a partir do próximo ano. Mas, ao que tudo indica, ninguém no setor espera nada muito diferente.

Como disse o ex-ministro Juca Ferreira, “o neoliberalismo não entende a complexidade da sociedade e as necessidades e demandas da sociedade. Reduz tudo ao fato econômico. E esse governo não mostra muito compromisso com as pessoas”, encerra.

 


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