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17 de setembro de 2019, 17h32

“Bacurau”, porque esta nossa vida só não basta

“Bacurau” é uma obra-prima que persiste, que nos acompanha por onde formos. Da porta do cinema para fora seguimos de braços dados com os personagens para todo o sempre

Foto: Divulgação

“Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles acaba de receber um de seus maiores elogios. A crítica do destro raivoso Demétrio Magnoli esculhambando o filme. Para a tempestade ser perfeita, falta agora o presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) promover alguma retaliação ao filme, como fez com “Marighela”, de Wagner Moura entre outros.

Psicanalistas e congêneres dizem que, na maior parte do tempo, assistimos histórias e estórias como alento à alma, pois a vida é muito mais dura e implacável. No escurinho do cinema vemos emocionados heróis a fazer por nós o que não podemos ou conseguimos.

Parafraseando o poeta maranhense Ferreira Gullar, “Bacurau” é necessário porque a vida só não basta. E talvez seja por isso que o filme, acertadamente, incomoda tanto aos canalhas. A partir de uma história simples e a narrativa nem tanto, o filme nos mostra um mundo de mocinhos e bandidos, assim como nos velhos faroestes.

A influência do Cinema Novo, violência no melhor estilo Tarantino e tantas outras citações servem apenas de alegoria para um pano de fundo muito mais sólido. Personagens inesquecíveis desfilam pela tela de Mendonça e Dornelles, a começar pela Doutora Domingas, interpretada por uma imprescindível Sônia Braga, que em duas ou três cenas carimba mais um passaporte para a história do nosso cinema e sobretudo o cearense Silvero Pereira.

Foto: Divulgação

O seu cangaceiro trans, Lunga, é o signo de reação e poder mais significativo das nossas telas desde talvez o Antônio das Mortes, matador de cangaceiros, anti-herói interpretado por Maurício do Valle, que surge em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de 1964, e retorna Em “Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade”, de 1969.

As citações a Glauber e ao Cinema Novo são muito mais homenagens propriamente ditas do que influências na linguagem e andamento do filme. A trilha sonora, por exemplo, é explícita em nos conduzir aos filmes do período. A canção “Réquiem para Matraga”, feita especialmente por Geraldo Vandré para o filme “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de 1965, reaparece em “Bacurau”. A canção, uma ode à resistência armada, foi também curiosamente usada na novela da Globo “Velho Chico”.

Em contrapartida, o filme abre com a canção pop de Caetano Veloso, “Não Identificado”, interpretada por Gal Costa. Dois mundos que não se comunicavam nos anos de chumbo, o engajado de Vandré e cia. e o desbunde tropicalista de Caetano e Gil, são enfiados no mesmo balaio por Mendonça e Dornelles. E finalmente se tocam.

Foto: Divulgação

As citações e referências de “Bacurau” são intermináveis. Vale um jogo de buscas e adivinhações. O filme, com as suas traquitanas eletrônicas, religiosidades múltiplas, personagens profusos, ações e reações inesperadas, nos atinge em cheio. Ambientado em um futuro que em tudo se parece com o presente, parece fazer troça do labirinto sem fim em que nos metemos, nós brasileiros.

Ao fim e ao cabo, a partir de uma situação aparentemente sem saída, a narrativa nos coloca quase como protagonistas a sair do estado de letargia e comandar o próprio destino.

“Bacurau” é uma obra-prima que persiste, que nos acompanha por onde formos. Da porta do cinema para fora seguimos de braços dados com os personagens para todo o sempre.

É um filme guerrilheiro, que serve, sobretudo, para cumprir a resposta de Joaquim Pedro de Andrade ao ser perguntado sobre porque faz cinema: “Para chatear os imbecis”.


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