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14 de março de 2018, 16h02

Canções que conversam: Chico Buarque, a mulher que espalha e o Pai-João

Com três sambas notáveis de tempos distintos, Chico exalta a dança irresistível da fêmea sobre o macho acuado

Chico Buarque e Diogo Nogueira. Foto: Divulgação/Guto Costa

O cantor e compositor Chico Buarque cismou – e com razão – desde sempre com a canção “Sem Compromisso”, de Geraldo Pereira e Nélson Trigueiro, sucesso de 1954. O antigo samba resmunga da parceira que só dança com outro, a ponto de enfurecer o então compositor, que fica num canto, rejeitado, se sentindo um “Pai-João”:

Você só dança com ele

E diz que é sem compromisso

É bom acabar com isso

Não sou nenhum pai-joão

Chico entrou na brincadeira, a ponto de respondê-la, em “Deixe a Menina”, do seu álbum “Vida”, de 1980. Desta vez o interlocutor sugere ao chato pra deixar a “menina sambar em paz”. O personagem feminino na canção de Chico, pra variar, cresce e vira a heroína dos salões que, com a sua incandescência ilumina tudo e faz o mundo girar à sua volta.

Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz

E atrás dessa mulher mil homens, sempre tão gentis

Por isso para o seu bem

Ou tire ela da cabeça ou mereça a moça que você tem

Os dois sambas juntos num pout-pourri fizeram parte do show e disco de Chico “Carioca ao Vivo”:

 

Chico, no entanto, não descansou da ideia. Talvez por considerar absolutamente arrasadora a sua própria resposta ao samba de Geraldo, resolveu, de certa forma, ressuscitar o compositor e emprestar-lhe o samba – com a devida parceria de Ivan Lins – “Sou Eu”, como sinal de afeto e dignidade.

Para não haver dúvidas da saída honrosa do personagem masculino, Chico e Ivan entregaram o samba inédito para o bonitão das paradas Diogo Nogueira, que Chico conhece desde guri correndo atrás do pai João Nogueira no campo do Polytheama.

O resultado é, mais uma vez, genial e sugere que, daqui a alguns anos ou meses, torçamos todos, venha mais uma tréplica à pendenga:

 

Porém depois

Que essa mulher espalha

Seu fogo de palha

No salão

Pra quem que ela arrasta a asa

Quem vai lhe apagar a brasa

Quem é que carrega a moça

Pra casa

Sou eu

Só quem sabe dela sou eu

Quem dá o baralho sou eu

Quem dança com ela sou eu

Quem leva este samba sou eu

Posto isto, sambas pra lá e pra cá, é sempre bom reparar que desta vez Chico apazigua as coisas. Continua com a mesma mulher fogosa, iluminada e desejada por todos, surgida desta vez de um tempo onde elas se tornaram, final e definitivamente, ingovernáveis. E, para não haver dúvidas, volta ao baile com um parceiro resignado, que se contenta em avisar ao mundo que, ao menos, quem leva ela pra casa “Sou eu”.

Ou seja, ele.

 


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