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06 de fevereiro de 2018, 09h36

Jorge Vercillo já parou para se ouvir antes de criticar “o nível baixíssimo dos hits atuais”?

Em desabafo no Facebook esculhambando os hits atuais, o cantor careceu de humildade e respeito com o povo e as suas manifestações

Em desabafo no Facebook esculhambando os hits atuais, o cantor careceu de humildade e respeito com o povo e as suas manifestações

Por Julinho Bittencourt

Jorge Vercillo publicou um desabafo em sua conta do Facebook onde, entre outras pérolas, diz que o povo é culpado em grande parte pelo nível baixíssimo dos hits atuais. Bem, antes de entrar na discussão propriamente dita, a primeira pergunta que vem é: será que ele já parou pra ouvir atentamente algum disco seu?

Mas, tudo bem. O esculhambo é livre. Ele tem lá o direito de falar o que quiser e de quem quiser. E nós também, portanto, vamos em frente.

Num rompante de infantilidade, Vercillo afirma: “Na verdade hoje muitas pessoas não estão dando a menor importância pra música, elas vão às festas pra beber e ou arrumar alguém pra ficar, namorar etc…. sinto que parte delas perdeu o ouvido harmônico musical e perdeu também o universo simbólico, a capacidade de interpretação de texto pra alcançar uma letra mais elaborada, ( mesmo que seja falando de sexo, tesão etc….. )”.

Não sei ele, mas eu e todas as pessoas que conheci na vida, sempre fomos em festas para nos relacionarmos com outros seres viventes, beber e até, quem sabe,  arrumar alguém pra namorar. Não sei vocês, mas eu nunca fui numa festa para ouvir Stravinsky.

Mas ele vai mais além: “Uma parte grande da população me parece que tem preguiça de pensar ou ouvir …. as pessoas tem dado ibope apenas pra músicas apelativas, cafonas, infantis e sem o mínimo de musicalidade”.

Nunca vivemos um período tão democrático no que tange a ouvir música. Não dependemos mais dos sucessos dos grandes selos. As plataformas por demanda, redes sociais e YouTube nos abrem um leque enorme de variedades e músicas distintas como nunca se viu. Coisas que vão desde as mais populares, como o funk das favelas e o hip hop, todas elas manifestações tão espontâneas, sinceras e necessárias quanto o blues de Chicago, o jazz de New Orleans, passando pelo próprio Vercillo indo até Bela Bartok, Miles Davis e Gilberto Mendes.

Não há limites. Sempre fomos das marchinhas mais cândidas às canções mais elaboradas. Somos capazes de múltiplos universos e construções e todas eles devem ser respeitados. O discurso simples e direto é próprio e digno de qualquer população de todas as partes, desde ao menos, de quando temos canções documentadas.

O encerramento do desabafo de Jorge Vercillo é de uma prepotência infinda: “Essas letras e melodias mais infantis do que o Clube da Xuxa rs…. são refelexo do nível da consciência coletiva do público, precisamos explicar mais alguma coisa ?”

O seu “nível de consciência” parece carecer um tanto de humildade e respeito. Respeito com as pessoas e suas manifestações, com o povo e o que ele tem para ensinar.

Num dos pouquíssimos acertos da revista Veja, o cantor, compositor e, ao que parece, crítico, ganhou um apelido certeiro: “Genérico do Djavan”. Mas isso é pouco. A sua música é chata, extremamente repetitiva, construída em cima de clichês e muito tediosa. E, o que é pior, vem revestida de “inteligente”, “elaborada”, “MPB de Qualidade”.

Com toda essa pompa, no entanto, não tem um décimo da luminosidade da música da Anitta, por exemplo.

Numa coisa ele tem razão. O povo, quase que invariavelmente, escolhe os seus destinos e o que deseja cantar e ouvir. E o seu esbravejo parece ter vindo de, felizmente, ele não ter sido um dos escolhidos.

 

 

 


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