Nelson Sargento e Dominguinhos do Estácio: o Brasil agoniza, mas, como vocês e o samba, jamais morrerá!

Na coluna de hoje, Tuta do Uirapuru lamenta a passagem de dois baluartes, um vitimado deles vitimado pela Covid-19, e relembra o desfile da Inocentes de Belford Roxo em 2015

Por Estevan Mazzuia *

Eu poderia usar a coluna desta semana para falar dos devaneios de Mayra Pinheiro, a Capitã Cloroquina, e suas fálicas obsessões.

Poderia falar de JB, que foi ao interior do Amazonas inaugurar uma pinguela reformada, de 18 metros, sobre um igarapé, em meio a uma estrada de terra intransitável, desafiada por uns 30 veículos. Por mês. Os gastos com a comitiva superaram os gastos com a obra.

Mas os delírios dessa gente têm nos contaminado por demais. Não podemos deixar que eles nos enlouqueçam, pois esse sempre foi seu objetivo.

Mais interessante seria dissertar sobre o alento que foram as manifestações de sábado, que mostraram a JB que o povo brasileiro não se resume àquelas centenas de abilolados que empunham bandeiras de Israel e EUA se dizendo nacionalistas, e pedem intervenção militar em nome da democracia.

Houve aglomerações, é verdade. Mas a espera de um ano por medidas governamentais de combate à pandemia parece ter deixado evidente que vale o risco de ir às ruas, sob pena de que, em breve, nem mesmo em nossas casas possamos estar em segurança. Com um processo de vacinação lentíssimo e descentralizado, o Brasil tornou-se, além de pária internacional, um laboratório a céu aberto para o desenvolvimento de cepas novas e mais fortes, colocando em risco a população de outros países, que mantêm a pandemia sob controle há algum tempo.

Mas hoje decidi celebrar a vida de dois dos maiores sambistas já produzidos por este país, que nos deixaram na última semana. Uma dessas vidas foi mais uma vítima da pandemia que segue sendo negligenciada pelo desgoverno federal. Partiram, mas viverão para sempre entre nós, por meio de seu indelével legado artístico e cultural.

Domingos da Costa Ferreira, mais conhecido como Dominguinhos do Estácio, foi um compositor e puxador de samba nascido no Rio de Janeiro, em 4 de agosto de 1941.

Ao contrário do que muitos acreditam, o “sobrenome” artístico não se deve à escola de samba Estácio de Sá, defendida por Dominguinhos por 17 anos (incluindo o único título da escola, em 1992), distribuídos em quatro passagens, mas ao bairro do Estácio. Até porque, em sua primeira passagem, a escola ainda se chamava Unidos de São Carlos, em razão do morro onde reside a base da comunidade da agremiação, no bairro do Estácio. Agremiação fundada em 1955, mas que herdou as raízes da Deixa Falar, passando a ser reconhecida pelo IPHAN como a escola de samba mais antiga do Brasil.

Dominguinhos passou, ainda, pela Acadêmicos de Santa Cruz, Imperatriz Leopoldinense (onde foi campeão em 1980, 1981 e 1989), Acadêmicos do Grande-Rio, Inocentes de Belford Roxo e Unidos do Viradouro (campeão em 1997), além de Cova da Onça, de Uruguaiana/RS, e Rancho Não Posso me Amorfiná, de Belém/PA (onde foi campeão em 1982, 1984/85 e 2014). Mas sua trajetória no samba iniciou-se no tradicional bloco Bafo da Onça, onde foi ritmista.

Apesar de carioca, Dominguinhos nutria fortes laços com Belém do Pará, sendo torcedor do Paysandu e devoto de Nossa Senhora de Nazaré.

Em 2017, foi homenageado pela Unidos do Viradouro, não como enredo da escola, mas ao desfilar sobre seu símbolo, a coroa. Dominguinhos nos deixou no último domingo, vítima de hemorragia cerebral. Em havendo algo após a morte, seu tradicional grito de guerra, exaltando a comunidade da agremiação que defendia (Estácio, Caxias, Niterói, etc), certamente será “alô, paraíso”. Valeu Dominguinhos!

Nelson Mattos, o Nelson Sargento, partiu no último dia 27, aos 96 anos de idade. Lutava contra um câncer e, mesmo vacinado, sucumbiu ao Sars-Cov-2, fato que, equivocada e irresponsavelmente, foi utilizado por ignorantes inveterados para reforçar sua luta contra o único tratamento cientificamente comprovado contra a peste, ainda que não seja 100% eficaz.

Carioca, nascido em 25 de julho de 1924, Nelson foi cantor, compositor, pesquisador, artista plástico, ator e escritor e, desde 2013, era presidente de honra da Estação Primeira de Mangueira, que frequentava desde muito jovem, tendo se mudado para o Morro de Mangueira aos 12 anos de idade.

O “sobrenome” artístico foi ganho nos anos 40, aludindo à patente alçada durante os serviços prestados ao Exército Brasileiro.

Cantou no Bar Zicartola e no grupo A Voz do Morro, e compôs mais de 400 canções, mas somente aos 55 anos gravou seu primeiro disco.

Assinou três sambas-enredo da Mangueira, em 1949, 1950 e 1955. Os dois primeiros embalaram campeonatos, mas foi o último, em parceria com seu padrasto Alfredo Português, que se eternizou:

“Oh! primavera adorada / Inspiradora de amores

Oh! primavera idolatrada / Sublime estação das flores”

Em 1978 Beth Carvalho lançou “Agoniza Mas Não Morre”, um dos maiores sucessos de Nelson, ao lado de “Falso Moralista”, “Falso Amor Sincero”, “Minha Vez de Sorrir” e “Cântico à Natureza”, o histórico samba-enredo da Mangueira de 1955.

Gravou outros quatro álbuns, atuou em filmes como “O Primeiro Dia”, de Walter Salles e Daniela Thomas, e “Orfeu” de Cacá Diegues, e teve alguns de seus quadros expostos como parte da programação do Rock in Rio 2019.

Com sua esposa Evonete criou nove filhos, sendo três adotivos. Além da família, da Mangueira e das artes, amava o Vasco da Gama.

Em 2015, Nelson foi homenageado pela Inocentes de Belford Roxo. Terceira escola a desfilar, na segunda noite dos desfiles da Série A, a “segunda divisão” das escolas de samba, a agremiação da Baixada levou 2.500 componentes para a Sapucaí, divididos em 18 alas e quatro carros alegóricos.

O enredo “Nelson Sargento – Samba Inocente, Pé no Chão”, desenvolvido por Márcio Puluker e Walter Guilherme, iniciava-se em um botequim, o cenário da inspiração, cantado em “De Boteco em Boteco”, e representado pelos bailarinos da comissão de frente.

Seguia-se o primeiro setor, com os elementos da natureza cantados no aclamado samba de 1955: o encontro entre primavera e verão, representados pelo primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, as baianas aludindo à primavera, e outras alas simbolizando o verão, o outono e o inverno.

No carro abre-alas, uma escultura do sambista carregava um surdo verde-e-rosa, símbolo da Mangueira, que se abria revelando a pomba sobre dois corações, símbolo da Inocentes.

A bateria, comandada por Washington Paz, emulava o “surdo um” de Mangueira em alguns momentos. Mestre Marcão, então no Salgueiro, marcou presença entre os diretores.

A segunda alegoria homenageava a ancestralidade africana, a negritude de Nelson e trazia Carlinhos do Salgueiro, um dos maiores passistas da atualidade, como destaque.

Algumas canções, como “Encanto da Paisagem”, e o Bar Zicartorla, foram lembrados pelas alas que antecederam o terceiro carro, intitulado “A Voz do Morro”, em referência ao grupo e à musicalidade das favelas.

O clube Vasco da Gama e a arte “naif” das telas de Nelson foram lembrados antes da última alegoria, que trazia, à frente, elementos em azul, vermelho e branco, cores da escola; atrás, o verde-e-rosa mangueirense, e a cruz-de-malta vascaína, em dois semi-destaques. Na parte inferior, à frente da alegoria, Nelson vinha fardado, ao lado da esposa, e ladeado por integrantes da Velha-Guarda da Mangueira.

Nino do Milênio, então ainda apenas um jovem talento, hoje consagrado, puxou o samba de André Malheiros, Tico do Gato, Vinicius Ferreira, Juruna Zona Sul, Abilio Mestre-Sala, Chiquinho do Bar, Altamiro e Sidnei Pinto:

“As flores em vida amores em versos

Lastro da inspiração / A primavera refloresce / No coração”

Com 298 pontos, a escola de Belford Roxo terminou em 8º lugar, bem no meio da tábua de classificação das 15 escolas, ficando muito longe de retornar ao grupo especial, onde esteve em 2013. Mas deixou registrada a justa e merecida homenagem ao poeta.

Tal como o samba, cantado por ele, o Brasil hoje agoniza.

Esperamos que alguém também nos socorra, antes do suspiro derradeiro, já dado por mais de 460 mil brasileiros e brasileiras.

Que Nelson olhe por nós, que lutamos contra o falso amor de JB pelo Brasil.

E que nossa felicidade seja, enfim, verdadeiramente sincera.

A ti, Sargento, eu bato continência.

Obrigado.

*Estevan Mazzuia, o Tuta do Uirapuru, é biólogo formado pela USP, bacharel em Direito, servidor público e compositor de sambas-enredo, um apaixonado pelo carnaval.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.