Fórumcast, o podcast da Fórum
07 de junho de 2018, 16h57

O Nordeste como alternativa nacional

O professor Roberto Dutra faz a resenha do livro “O Nordeste em Transformação”, organizado por Carlos Sávio Teixeira e Jessé Souza

Foto: Reprodução/Facebook

Por Roberto Dutra*

O livro “O Nordeste em Transformação” (Rio de Janeiro, editora bicicleta, 2018), organizado por Carlos Sávio Teixeira e Jessé Souza, reúne análises sobre diferentes aspectos da vida social no Nordeste brasileiro contemporâneo, dialogando, de modo ininterrupto, com a ideia de combinar o soerguimento do Nordeste com um projeto nacional de desenvolvimento, gestada nos governos de Juscelino Kubistchek e João Goulart, sob orientação de Celso Furtado, e depois esquecida. É um livro de excelente análise sociológica, e com uma orientação programática que o torna ainda mais instigante e valioso.

O diagnóstico central do Nordeste como realização agravada do grande problema nacional da desigualdade ganha sofisticada versão sociológica nos diferentes estudos de caso sobre temas como economia e microcrédito, programas de transferência de renda, criminalidade e exclusão política. A vida social nordestina é analisada sem nenhum tipo de essencialismo regionalista. Seus grandes dilemas são os dilemas nacionais agravados pela combinação de desigualdade social com regional. Com isso, a identidade fixada desde o Estado Novo de um Nordeste peculiar em relação ao Brasil e homogêneo internamente é abandonada. O Nordeste mesmo, como conceito sociológico, não existe no livro. O que existe é o processo de criação e transformação política desta identidade como parte do processo mais amplo de construção e reconstrução da identidade nacional. O Nordeste não é uma categoria explicativa de nada. Precisa ser, ela sim, explicada e desnaturalizada.

O livro dá um passeio além e não pode ser visto apenas como análise sociológica. Possui um conteúdo político. Mostra não apenas como os problemas nordestinos são problemas nacionais. Faz o mesmo em relação a soluções alternativas. Não se trata apenas de ver o Nordeste como alternativa de ampliação do mercado de consumo, mas também de reorganização da economia, da educação (vide o desempenho do Ceará), enfim, como fonte interna de alternativas estruturais e institucionais em diferentes esferas da vida social. Não fica preso à leitura de Gilberto Freyre feita por Jessé Souza, na qual o Nordeste é o berço do Brasil escravocrata que vai se modernizar com desigualdade, transformando-se em uma sociedade nacional que naturaliza a subcidadania em massa e persiste incapaz de superá-la com grandes projetos políticos de transformações estruturais.

De fato, o Nordeste de Casa-Grande e Senzala é quase todo parte do problema, embora o elemento da “plasticidade” mereça tratamento conceitual e político muito melhor do que vem recebendo por ativistas colonizados pelo “puritanismo racial” de origem norte-americana, que nega a possibilidade de uma construção sociocultural própria destas relações e categorias entre nós. Não é a “plasticidade” do mulato, traduzida em “jeitinho”, “cordialidade”, que o livro traz como alternativa nordestina. A “sentimentalização das trocas desiguais” não tem potencial transformador.

A alternativa está na própria inexistência desta identidade nordestina coesa, produzida pela escravidão e atualizada como herança sociocultural, o que muitas vezes é negligenciado por narrativas estruturalistas como de Jessé Souza. O Nordeste em transformação é tanto mais real quanto mais nos damos conta de que o Nordeste criado pela escravidão, cuja herança Joaquin Nabuco queria combater em todas as suas ramificações, nunca foi o único. No semiárido, por exemplo, em áreas com poucas conexões com a economia das capitais litorâneas como o complexo têxtil de Toritana em Pernambuco, a herança sociocultural predominante não foi a da escravidão. Como diz Roberto Mangabeira Unger no prefácio do livro, “ali, onde jamais se arraigou a escravatura, sobreviveram elementos de uma sociedade rude e forte de iguais. Qualquer homem relutava em subordinar-se a outro. As mulheres encarnavam com fervor o espírito de resistência. É como se o Brasil carregasse dentro de si uma contraimagem do regime social que veio a prevalecer na maior parte do pais” (p. 11).

Certamente não é a única contraimagem que o Brasil carrega dentro de si. Por maior que tenha sido a herança da escravidão, ela não foi um sistema total, capaz de impedir alternativas. Na ciência política, os estudos eleitorais e sobre participação já demonstram não haver nada de peculiar e próprio do Nordeste. A existência de forte associativismo político no mesmo semiárido que escapou da escravidão só reforça a necessidade de abandonar “regionalismos” e “nacionalismos” na análise da realidade: padrões de desigualdade são diversos, e embora haja a hegemonia de um padrão em um determinado território, o olhar atento do analista deve admitir a existência de variações estruturais em todos os países e em todas as regiões. Neste caso, não se trata de qualquer variação. Mas de uma contraimagem, uma espécie de “equivalente funcional”, encontrada no semiárido, do associativismo igualitário que Tocqueville observou e descreveu nas colónias inglesas da América do Norte.

Vida social nordestina

Na esfera acadêmica, o mérito do livro é analisar a vida social nordestina superando estes limites do “estruturalismo sociológico”, que tende a adotar o pressuposto de uma estrutura social caracterizadora do seu objeto de observação, e tratar o que desvia empiricamente como residual. Mas não é apenas este o mérito do livro. Ele também apresenta uma perspectiva programática, consequentemente vinculada ao diagnóstico do Nordeste como variedade estrutural. Explorando, por exemplo, os significados do associativismo de “rudes e iguais” para transformações na economia, na política e no direito, a orientação programática que emerge é inspirada naquilo que Carlos Sávio Teixeira chamou de “construtivismo institucional”: as esferas sociais comportam diferentes alternativas de organização, e o entendimento do que existe deve abarcar as “possibilidades objetivas”, como diria o grande sociólogo Alberto Guerrero Ramos.

O associativismo cotidiano do sertanejo (uma realidade empírica, e diferente da construção política do mito “bandeirante”), voltado para resolver problemas comuns e práticos, foi, por exemplo, desprezado em seu potencial como suporte para o desenvolvimento regional e nacional. Mas assim como poderia ter sido aproveitado, sua herança, como outras ignoradas por nossas elites políticas, econômicas e culturais, ainda está disponível como “matéria prima sociocultural” para inovar na economia – em matéria de escala, tecnologia, crédito etc. –, na educação e na implementação de políticas públicas transformadoras que requerem a “coprodução”, o engajamento de seu público. Este é apenas um exemplo. Outros poderiam ser lembrados e mereciam contribuições no livro, como as experiências bem-sucedidas nas áreas da educação e da saúde que o Ceará acumula. Isto reforçaria o tema do federalismo, tão importante para a estratégia de articular desenvolvimento regional com nacional.

Apesar desta pequena lacuna sobre políticas públicas regionais locais, o livro é um convite em alto nível para pensar a relação entre o conhecimento do real e o conhecimento do possível. Ainda que a ciência social não possa e não deva recomendar o que fazer, ela pode ajudar muito nesta tarefa quando contribui para observar as “possibilidades objetivas”, sustentadas no caráter aberto e contingente da vida social. Isto só é possível quando superamos os exageros de abordagens estruturalistas que acabam dificultando a observação da vida social em toda sua complexidade e variação estrutural. O livro “O Nordeste em Transformação” é uma importante contribuição neste sentido.

*Roberto Dutra é professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Foi diretor do IPEA


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum