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03 de maio de 2019, 06h00

Querida Beth, sua partida foi quase tão linda quanto sua vida

Demorei um tanto pra escrever só pra poder contar como foi tudo direitinho. Na hora final, a sua gente apareceu sim. Vieram todos agradecer a sua obra, tudo que você sempre quis e fez muito bem. Todos juntos, como você sempre quis e fez nessa sua vida impregnada de coletivo

Foto: Divulgação

Querida Beth, demorei um tanto pra escrever só pra poder contar como aconteceu tudo, direitinho. Antes de mais nada, é bom dizer que, apesar do roubo de espaço da tentativa malograda de golpe na nossa vizinha Venezuela – que você festejaria com certeza – a sua partida estava na capa de todos os jornais do país. Escolheram fotos lindas e todos, quase sem exceção, te chamavam, com justiça e um certo reducionismo, de ‘madrinha do samba’.

O velório aconteceu na sede do seu querido Botafogo e todo mundo apareceu por lá. O Zeca Pagodinho disse pra quem quisesse ouvir que ele só era o Zeca Pagodinho que o Brasil ama graças a você. Não bastasse isso, o ex-presidente Lula mandou uma coroa de flores com uma fita onde estava escrito: “O samba perde sua madrinha, o Brasil uma filha guerreira e eu uma grande amiga. Gratidão pra sempre. Lula”.

Mas olha, Beth, o bom mesmo é que o pessoal acabou se despedindo de você do mesmo jeito de sempre, ou seja, com uma baita e emocionada cantoria. Todos ali, sabiam, a cada um daqueles versos, o tanto que você, muito além da grande cantora que sempre foi, teve de importância na promoção da nossa música, sobretudo o samba.

Lembro bem, lá pelo final da década de 70, do Nélson Cavaquinho contando pra gente em uma entrevista de rádio que era graças a você que ele tinha uma carreira, um reconhecimento como cantor. Ouvi o mesmo do Cartola e de vários outros.

Hoje mesmo, revendo a sua vida e trajetória, vi o vídeo do lançamento do Clube do Samba. Cercada de gente como o João Nogueira, Clementina de Jesus, Clara Nunes, Nélson Sargento e tantos outros, você espinafrava a disco music, que ameaçava o samba em vendagem. Tinha gente que falava até em extinção. Imagina que ameaça besta se a gente for pensar. Olha só o tanto de gente que, de lá pra cá, você nos trouxe e que fez, ao longo de todos esses anos, rever e reviver o nosso ritmo maior em várias e tão variadas vertentes.

Só aqui, do lado de casa, em São Vicente, você lançou os irmãos Sombra e Sombrinha, que fizeram tantas coisas maravilhosas. Só de lambuja lembro a sua linda gravação de “Além da Razão”, que os dois compuseram com o Luiz Carlos da Vila, outro craque que chegou pelas suas mãos. Quanta beleza, quanta novidade, juventude e tradição misturadas em tão poucos minutos de música.

Essa turma se encontrava toda ali, no Cacique de Ramos, uma mina de ouro que você descobriu e mostrou pra todo mundo e que nos trouxe tanta gente, mas tanta gente que não dá nem pra contar. Só de saída, além do Zeca, veio de lá o Almir Guineto, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Bira Presidente e muitos mais. Foi graças aquele seu lindo álbum “Pé no Chão”, que conta com a participação do grupo que tudo começou.

Lembrei tanto também do dia em que você apareceu em Brasília para nos trazer o seu “Beth Carvalho Canta O Samba Da Bahia Ao Vivo”. A despeito da grande afinidade que você tinha com o governo naquela época, foi inesquecível ver você botar pra sambar aquele monte de gente engravatada com a sua música.

No final das contas, acabei o dia ouvindo você e Mercedes Sosa cantando a versão da canção “Solo le pido a Diós”, do argentino León Gieco. Uma breve ironia pairou no ar ao rever o verso:

“Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queria”

Poucos artistas chegaram ao fim da jornada tendo imprimido tanto significado à própria existência. Nada depois de você será o mesmo por aqui.

Na hora final, Beth, a sua gente apareceu sim. Vieram todos agradecer a sua obra, tudo que você sempre quis e fez muito bem. Todos juntos, como – repito pra sempre lembrar a canção – você sempre quis e fez nessa sua vida impregnada de coletivo.

E, mesmo indo embora agora, não se preocupe. O seu sorriso continua aqui em volta, enchendo o mundo de alegria e esperança em cada uma das coisas que você inventou e descobriu.

 


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