Só desejamos o que nos falta? – Por Flavio Lobo

A fissura pelo que falta só é vivida por seres desejantes. A fruição contínua também, e só a confundimos com cessação do desejo se reduzimos essa palavra vital à insatisfação, ao inacessível, antimatéria que deixa de existir em contato com materialização satisfatória

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Escrito en DEBATES el

Por Flavio Lobo *

Lendo um autor que admiro, eis que novamente me deparo com essa ideia: "só se deseja o que não se tem, o que está ausente, o que falta". Dito e repetido como inquestionável obviedade, faz tempo que isso não me convence (na verdade, não me lembro de ter realmente me convencido em algum momento).

Desejo é palavra poderosa. Norteia, em boa medida, a nossa compreensão de nós mesmos e de nosso engajamento à vida. Deixá-la rendida a uma acepção que exclui potências desejantes e desejáveis tem repercussão limitadora em toda a rede de sentidos do pensamento.

Atentemos para o clichê psicofilosófico: “só desejo o que não tenho”. Ele descreve boa parte das nossas experiências de desejo, ok, é verdade. Mas dá para resumir o desejo a essa lógica do querer na ausência e insatisfação? Esse esquema fenomenológico contém todos os estados desejantes que podemos reconhecer em nós mesmos e nos outros?

Diversas tradições e correntes de pensamento mergulham fundo na conceituação e descrição do funcionamento do desejo. Para testar a ideia de que eu, você e qualquer outra pessoa só desejamos o que nos falta, vou tomar a palavra pelo seu sentido corrente, simples, mais amplamente entendido.

Quando faço um longo passeio contemplativo, por exemplo, o que se processa em mim é bem descrito como uma série de rápidos quereres do tipo “desejo olhar aquilo ali adiante”, “desejo ver a próxima paisagem, ouvir o próximo som, sentir o próximo aroma numa próxima brisa...”, esgotados sequencialmente em breves satisfações correspondentes? Pelo menos em parte dos “estados de passeio contemplativo” não haveria, na verdade, um fluxo contínuo de desejo e satisfação? A compreensão estroboscópica – do desejo que acende e da satisfação que apaga num piscar sucessivo – não seria uma artificialidade do pensamento que pretende explicar o processo subjetivo sem contemplá-lo em suas variedades, transições e temporalidades?

Não nego que a dinâmica tic-tac “um desejo, uma satisfação; outro desejo, outra satisfação” também esteja frequentemente presente em passeios contemplativos. Só não a reconheço como síntese suficiente da experiência, que também inclui “satisfatória duração desejante”, que pode se prolongar no tempo, configurando distinto estado de desejo.

Muitas outras atividades podem prover o mesmo tipo de exemplo: leitura, interação prazerosa com amigos, atividades físicas, produção e fruição de arte, dança, encontro amoroso... É possível reconhecer fluência contínua de desejo e satisfação (em vez do tic-tac) nessas durações prazerosas e manter a definição de desejo como algo necessariamente dirigido ao ausente, mas isso requer negação da existência de intenso estado desejante nesses fluxos. Ao que eu respondo: sério? Ou, como diria um famoso youtuber, “meteu essa?!”.

Não reconhecer nessas experiências a clara sustentação de constante força motriz desejante, além de incompreensão do fenômeno, implica uma compreensão de nós mesmos como seres incapazes de plena presença – ou que só podem alcançá-la por meio de uma assepsia antidesejo. Restaria, assim, escolher entre ansiedade e desengajamento.

Vimos exemplos de atividades. Nenhuma, entretanto, é necessária. Isso se evidencia quando alguém experimenta radiante felicidade independentemente do que está fazendo. Prazer de existir enquanto se faz qualquer coisa ou nada. Haveria aí cessação de desejo? Pela definição clichê padrão, esse estado, que pode ser descrito como júbilo da não falta (que não se confunde com saciedade empapuçada), seria antítese do desejo. Só que não. O arco tenso, vibrante, está lá, a prescindir de um alvo – ou sendo em si o próprio alvo.

Esses, todos, são momentos ou períodos de serena intensidade, fruição do que não falta, do que se tem, do que já é e se prolonga sendo, do que se apresenta quando as polaridades "eu e mundo", "desejo e satisfação" se superam num mesmo fluxo ou quietude. Fusão que, em alta voltagem, se chama êxtase.

Pensemos agora na escala maior de uma vida. Como funciona uma pessoa feliz com o que é e faz?  Ela está em busca do que falta? Sim, também. Mas não é o que a diferencia como pessoa humana e imperfeitamente feliz. O que a distingue dos fundamentalmente infelizes é que ela, em grande medida, deseja e frui o que é, tem e faz. E isso, se não entendermos todo desejo como fissura, não a torna menos desejante.

A fissura pelo que falta só é vivida por seres desejantes. A fruição contínua também, e só a confundimos com cessação do desejo se reduzimos essa palavra vital à insatisfação, ao inacessível, antimatéria que deixa de existir em contato com materialização satisfatória. Definir assim o desejo é uma má escolha semântico-existencial para pessoas, culturas e sociedades.

Reduzir a dimensão do desejo é desentender a natureza e os meios de Eros em seu sentido maior, de pertencimento e engajamento criador com a vida.

Superemos a ideia do desejo sempre dependente da insatisfação, juntamente com as doutrinas de cessação do desejo como único meio de curar o sofrimento da falta e do medo. O enlace de Eros e Psique tem poder de perdurar aqui e agora. Alegria de viver é estado desejante que não se norteia pela falta.

*Flavio Lobo é jornalista, militante da causa da realização dos direitos humanos, especialmente da pacificação da chamada “guerra às drogas”.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.