quarta-feira, 30 set 2020
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A incrível história dos patriotas que queriam um revólver e ficaram sem o arroz

Os grupos que encamparam a cruzada sebastianista por um novo Brasil íntegro e heroico, de cidadãos de bem extasiados com seu líder sábio, desde já têm um dilema: como garantir as armas e munições tão desejadas antes que cheguemos ao ponto de revirar o lixo procurando o almoço?

Um saco de cinco quilos de arroz chegou a 25 reais. Com isso, o homem que preside a associação dos supermercados aconselhou o brasileiro a comer macarrão. A insignificante garrafa de óleo de soja, antes coadjuvante nas prateleiras e gôndolas do varejo, agora ostenta o status de celebridade e é comercializada a oito reais.

A coisa anda tão estranha que em breve vai ter pasteleiro vendendo pastel ensopado.

Já o dólar, que até pouco tempo representava o passaporte para o consumo de gêneros importados, estourou em 5,61 reais nas últimas semanas. O povão piadista e incomplacente que xingou doze gerações de Dilma Rousseff quando a verdinha bateu 4,05 reais assiste passivamente à moeda brasileira derreter, enquanto caça os perigosos comunistas imaginários e clama por cloroquina contra o vírus chinês.

Não será necessário estender muito essa prosa, tampouco listar a sucessão de humilhações que nos são impostas diariamente, para retratar o cenário desolador e inimaginável em que o furdunço de Jair Bolsonaro (que alguns preferem chamar de governo) nos meteu.

O Brasil esfacelou-se.

Miséria, desemprego recorde, destruição generalizada da máquina pública, preços de gêneros básicos em disparada galopante, fome, desprestígio e isolamento em relação à comunidade internacional. Enfim, toda semana chegamos ao fundo do poço, para descobrir que lá sempre há um alçapão.

Como diz a poesia de Criolo, aqui o elevador só desce.

Fico imaginando o choramingo silencioso de um bolsonarista na intimidade da fronha úmida, deitado à noite. Essa gente rasa que sonhou em desfilar de Opala 83 com uma pistola na cinta, cheio de grana na carteira, mexendo com a mulherada na rua e indo à igreja de traje social no domingo para expiar os pecados, e que agora não consegue comprar uma lata de óleo pra fritar um bolinho de arroz.

Bolinho de arroz? Não, jamais! O arroz de Bolsonaro custa o mesmo que o presunto Parma da Era Lula.

O transe é tão impressionante que não se ouve um só pio. O país desmorona, a dignidade vai pelo ralo e a gritaria irascível vai calando.

Nem tanto, né?

Essa psicose deve ser uma coisa tão gostosa, tão orgasmática, que o sujeito abandona a carne e a cervejinha pra comer ovo cozido, vê o salário achatar, empobrece a passos largos, mas não cogita revoltar-se com o discurso encantador do desocupado pândego que está demolindo o Brasil.

Loucura? Falta de percepção? Sociopatia?

Pode até ser… Mas ainda penso que há muita gente envergonhada. É… Gente com vergonha. Não deve ser nada fácil assumir que foi completamente iludido por um energúmeno, um sujeito absolutamente ignorante e tosco, que com meia dúzia de abobrinhas conseguiu hipotecar até a sua alma, prometendo trazer de volta um país que nunca existiu.

Sim, não deve ser fácil ver a miséria avizinhar-se e saber que sua idolatria por um cara profundamente corrupto visava, no fundo, à honestidade e à fartura.

Os grupos que encamparam a cruzada sebastianista por um novo Brasil íntegro e heroico, de cidadãos de bem extasiados com seu líder sábio, desde já têm um dilema: como garantir as armas e munições tão desejadas antes que cheguemos ao ponto de revirar o lixo procurando o almoço?

Só posso desejar que sigam fortes e cobicosos nessa busca pelo paraíso armado ultraconservador, implacáveis com os comunistas que infestam seus inconscientes doentios.

Sobre a atual situação, creio que uma passagem de Cervantes, em Dom Quixote de La Mancha, sirva para acalmar os nervos e consolar a alma, afinal, “o sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados”.

Mitoooo!

Henrique Rodrigues
Henrique Rodrigues
Jornalista e professor de Literatura Brasileira.