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09 de julho de 2019, 16h03

Artigo: Sobre golpes, angústias e o dia que Lula foi ministro

"Lula, por mais incrível que pareça, passava tranquilidade. Firmeza e tranquilidade. Mesmo de longe, mesmo do alto, de onde eu observava, a sensação já era essa"

Por Éden Valadares*

Sempre ouvi histórias sobre o clima no Palácio do Planalto naquele março de 1964. O Presidente João Goulart, que se encontrava no Rio Grande do Sul, pedira a Waldir Pires e Darcy Ribeiro para permanecerem na sede do governo para tentar garantir o respeito à Constituição e ao seu legítimo mandato. Em vão.

Mas o caso é que cresci ouvindo, até mesmo do próprio Waldir, versões um tanto melancólicas, por vezes nostálgicas, daquelas horas que precederam a consumação do Golpe Militar. Não sei se o tempo é responsável por romantizar as histórias. Mas é fato que elas assim são contadas.

Vivi período semelhante. Estava a serviço do Governo Dilma Rousseff entre outubro de 2015 e setembro de 2016, inicialmente no Palácio do Planalto (Casa Civil), depois no Alvorada (Gabinete Pessoal da Presidência). Minhas lembranças não são doces, adianto logo. Longe disso. Elas secam minha boca, travam minha garganta, pesam sobre o peito. Os sentimentos se misturam, se multiplicam e quase sempre tomam forma de lágrimas. Injustiça, perplexidade, indignação, impotência, revolta, assombro, repulsa… Foram – e ainda são – bem doloridas essas memórias

A certeza de que estávamos do lado certo da História nos dava força, é verdade. Mas o turbilhão de notícias, boicotes, conluios e traições, nos surpreendia. A defesa da Constituição, da legitimidade das urnas e do nosso projeto de país – independente, soberano, democrático, popular e mais justo – nos animava e enchia de esperança. O desprezo pelo Estado Democrático de Direito, o cinismo e a desfaçatez dos golpistas nos enojavam e, por vezes, abatia.

Não farei, ao menos não aqui e agora, balanço do Governo Dilma. Vão cobrar autocrítica na próxima esquina, faz o favor!

Quero apenas contar um pedacinho daquele período, do ponto de vista de alguém que foi testemunha e personagem daqueles eventos absurdos. E como para todo e qualquer absurdo a Bahia tem precedente, quis a História que os baianos Waldir Pires e Jaques Wagner se encontrassem no mesmo Palácio, sob circunstâncias muito parecidas, sofrendo ataques semelhantes: o Golpe de 1964 e o Golpe de 2016.

Parêntese: é importante que nós, defensores da Democracia, não vacilemos jamais e nunca aceitemos qualquer revisionismo histórico. Golpe a gente chama sempre pelo nome. Golpe. Sem tergiversar ou dourar a pílula. Fecha parêntese.

Aliás, foi neste dia, 17 de março de 2016, que ouvi pela primeira vez a Presidenta Dilma chamar pelo nome. Ao comentar os sucessivos abusos de Moro, do MPF, da Lava Jato, disse ela: “Os golpes começam assim”. Já havia começado há tempos…

Mas retornemos ao dia 17/03. Era uma quinta-feira diferente de qualquer outra que já havia vivido. Saí cedo e apressado do apartamento em que morávamos na Asa Norte, eu e Amanda (grávida do nosso primeiro filho, Bento), pois aquele dia era mais do que importante. Era histórico. O ex-presidente Lula havia concordado em assumir a chefia da Casa Civil do Governo!

Cheguei por volta das 08h ao quarto andar do Planalto e fui checar com os sub-chefes da Casa Civil como estavam os preparativos. Tudo ok. Com líderes do Congresso, peguei a percepção sobre o clima e as expectativas. Positivas. Tentei falar com o ministro Wagner pelo celular, deu caixa. JW estava na Bahia, tinha ido jantar com Dona Fátima, filhos e netos por conta do seu aniversário de 65 anos. Mandei uma mensagem com esse breve relatório, acertei com o Cerimonial as providências para trazê-lo do aeroporto o mais rápido possível e fui falar com Gilberto Carvalho.

A ideia de ter Lula tão próximo, tão perto, nos enchia de esperança quanto aos caminhos e desempenho do governo, mas também trazia enorme responsabilidade. O que ele quer da equipe? É para apresentar balanço? Um relatório das atividades? Ele quer nossa análise futura? O que produzimos sobre freios e principais potenciais da administração? O que Lula quer? Como atender o Lula, gente?!

Gilberto me tranquilizou.

⁃    Meu companheiro, fica calmo e esquece planilha. Reúna sua equipe, chame o Jaques, o Lula vai orientar vocês. Tá bem?

A cerimônia de posse deve ter começado perto das 11h. Não fui para o Salão. Desci para o terceiro andar e fiquei na parte superior da rampa, olhando de cima a cena, tentando guardar cada segundo na memória. De lá vi e ouvi o bestial Major Olímpio. Logo logo silenciado. De lá vi e reconheci rostos amigos, marcados pelo tempo e pela luta, de gente dos movimentos agrários, urbanos, dos direitos humanos, estudantes, mulheres, negros, indígenas, trabalhadores. Vi uma expressão simbólica do povo brasileiro. Daqueles por quem lutávamos. Dos sem vez, sem voz, sem direito a nada, sem ter nada direito.

E lá estava o Lula. Ícone dessa gente. Da nossa gente.

Lula, por mais incrível que pareça, passava tranquilidade. Firmeza e tranquilidade. Mesmo de longe, mesmo do alto, de onde eu observava, a sensação já era essa. Como ele conseguia, não me pergunte. As manchetes de todos os jornais, os canais de televisão, a internet, as redes sociais, tudo só falava do criminoso vazamento da conversa dele com a Presidenta. Um alvoroço. Uma tentativa, por parte do juiz Sérgio Moro, de provocar convulsão social. Um crime. Não foi abuso, desleixo, não cabem escusas. Foi cometido um crime – e quem bem sabe é Moro, pois havia despachado suspensão do grampo às 11h32min, o telefonema foi capturado às 13h32min e vazado às 18h38min. Um ato ilegal, parcial e com fins políticos – aliás, como todo o processo da Lava Jato contra Lula. Desde o início – e nós sempre denunciamos e isso sempre estará na História – a ação de Moro foi uma sentença em busca de um crime. Lula já era culpado antes mesmo do julgamento. E seria condenado com ou sem provas, com ou sem convicções.

Mas, voltando ao dia, terminada a cerimônia, Lula subiu para o Gabinete e fez sua primeira, e única, reunião de equipe da Casa Civil. Tenho uma boa foto, tirada pelo colega Eduardo Aiache. Nela estão Jaques Wagner e Lula, e nessa ordem: Jean Uema, Esther Dweck, Luís Padilha, Jorge Messias, Eva Chiavon, Gabriel Aidar e eu, Éden Valadares.

O Presidente Lula já conhecia a equipe, ou quase todos. Pulou o que Wagner chamou de “rococó” (as cortesias diplomáticas de apresentação) e falou do que planejava ser o seu papel. Não queria organizar fluxos internos do governo, organizar a cooperação entre ministérios, cuidar da administração. Para esse papel, disse ele, tem muita gente boa para fazer. Ele queria rodar o Brasil. Dialogar com governadores e prefeitos; reunir com os setores produtivos e representações do empresariado nacional; mediar agendas com as centrais sindicais e os movimentos sociais; ir “para a rua, para o barro” e conversar com as pessoas. Lula queria reorganizar a agenda do país em torno de uma mínima estabilidade institucional, reaglutinar as forças produtivas para a retomada do crescimento econômico e apostar nas políticas sociais como fomentadoras do nosso desenvolvimento.

Quando perguntei se o capital financeiro especulativo seguiria apostando na instabilidade e se “daria alguma trégua” ao governo, o então ministro respondeu:

⁃  Eu conheço os bancos, meu filho. Aliás, eles me conhecem. E sabem que no meu projeto de inclusão dos mais pobres, de fortes investimentos públicos, de botar a roda da economia para girar desde lá de baixo, eles ganham igual ou até mais.

Lula parecia acreditar que ainda era possível construir pactos no Brasil. Queria emprestar sua credibilidade junto ao povo brasileiro para reconstituir a aprovação do governo a patamares razoáveis; junto aos empresários e bancos para recuperar o crédito e a capacidade investimento; junto ao Congresso Nacional para desarmar as pautas-bombas e adotar uma agenda reformista; e junto aos atores internacionais para resgatar os laços de cooperação e a imagem do Brasil no mundo. Ele acreditava muito nisso. Nós, mais ainda.

Minha avó, sertaneja baiana, me diz sempre que “se não foi, era para não ser”. Não tenho a fé de Dona Tida na Providência Divina. Gosto de especular. Gosto de imaginar o “se”. Gosto de fantasiar como seria se tivessem mais respeito à Democracia, se nossas instituições fossem mais sólidas, se o apreço das elites pelo poder não desbancasse sempre em atalhos autoritários. Gosto de delirar se nossas cortes não estivessem acovardadas, se os gabinetes não cooperassem em conluios permanentes, se nossa imprensa não fosse seletiva. Gosto de imaginar uma América Latina independente, autodeterminada, sem navegar ao sabor dos ventos do Norte. Gosto, ou melhor, prefiro divagar sobre esses sonhos do que rememorar as lembranças. Os sonhos são tolos? Sim. Mas podem machucar menos que as recordações.

Talvez por isso as histórias sobre aquela noite de março de 1964 sejam repletas de romantismos. Talvez as minhas, as nossas, sobre o março de 2016 um dia também se transformem.

Foi golpe. Foi muito golpe.

*Éden Valadares, 37, é chefe-de-gabinete do Senador Jaques Wagner (PT-BA), com quem trabalhou nos ministérios da Defesa, Casa Civil e Gabinete Pessoal da Presidenta Dilma Rousseff.

 


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