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03 de fevereiro de 2020, 22h20

Avança universidade pública, por Nelson Pretto

“Ciência se faz sem preconceitos e com a coragem de tocar em temas absolutamente espinhosos para a sociedade. É para isso que existimos e somos pagos por todos os cidadãos", diz o professor em artigo

Foto: Divulgação/UFBA

Por Nelson Pretto*

O ano de 2019 foi marcado por virulentos e desqualificados  ataques ao sistema público de ensino superior brasileiro. Isso entre tantas outras atrocidades cometidas pelo governo federal contra a ética, a democracia, a ciência, a língua mater, os povos indígenas, só para citar algumas.

Universidades e Institutos Federais foram desacreditados, ameaçados de bloqueios e cortes, acusados sem provas em inúmeros episódios por um recalcado ministro, medíocre professor universitário e absolutamente despreparado para o cargo. Tudo prontamente rechaçado e respondido à altura por sociedades científicas, sindicatos, associações, reitores e muitos pesquisadores(as).

No entanto, creio ser necessário avançar mais, para além dos rebates realizados. Fomos apenas reativos e, de certa forma, caímos em armadilhas. Evidente que em um primeiro momento teríamos que reagir, mas isso não é suficiente. A sociedade precisa compreender o nosso papel, e a universidade é, por sua própria natureza, uma instituição que tem como uma das suas principais tarefas a de incomodar. Provocar o estabelecido, desconfiar de tudo e de todos os conceitos, discursos e visões de mundo. Por isso, muitos dos nossos artigos, meus e de muitos colegas, no Brasil e fora dele, tiveram como título: Universidade acomodada, morre!

Vejamos alguns poucos exemplos da nossa reação quase tímida.

Ao sermos acusados de pouco produtivos, saímos imediatamente em defesa da nossa produtividade, e assim mordemos a isca. Entramos no jogo do produtivismo como se a produção acadêmica e científica pudesse ser medida prioritariamente por métricas quantitativas. E passamos a dizer em alto e bom som: “somos a melhor do Norte e Nordeste”, “estamos em tal posição no ranking de publicações internacionais”, apresentamos números de avanços e descobertas na área da saúde ou de alguns números de patentes nas chamadas áreas duras (engenharias, computação, entre outras), e por aí fomos respondendo a cada acusação dentro da mesma lógica: a universidade tem que ser produtiva e o que importa são áreas que apresentem resultados imediatos.

Ledo engano. Essa ciência é aquela feita naquilo que Tomas Khun denomina de “período da normalidade”. Os conhecimentos são apenas incrementais, o novo surgirá mais adiante, quando então, segundo Khun, teremos a quebra de paradigmas. Mas isso só acontecerá se tivermos, durante a tal normalidade, a coragem de desafiar, de sermos disruptivos.

E aqui podemos trazer um outro exemplo, relativo ao episódio da irresponsável acusação do ministro da Educação acerca da existência de plantações de maconha nas universidades.

Nossa resposta inicial, capitaneada pela Andifes, foi interpelá-lo para que mostre que não plantamos maconha (não seria: para que aponte onde plantamos maconha). Correto, mas só parcialmente. Isso porque mais do que interpelar e investigar a existência da suposta plantação extensiva de maconha, precisamos defender que a universidade possa, sim, ter plantações para suas pesquisas sobre o uso medicinal da Cannabis. E, mais ainda, por que não adentrar também no importante debate em defesa da sua não criminalização, incluindo no debate o seu uso recreativo? Temos, entre tantas outras referências nesse campo de investigação, a equipe do professor Sidarta Ribeiro, no Instituto do Cérebro na UFRN.

Destaquei apenas dois exemplos de nossas reações aos ataques, mas um sem número de outros poderiam ser trazidos para o debate.

Ciência se faz sem preconceitos e com a coragem de tocar em temas absolutamente espinhosos para a sociedade. É para isso que existimos e somos pagos por todos os cidadãos. Portanto, defender a ciência é defender verbas, autonomia, inclusive para que temas difíceis para a sociedade possam ser tratados profundamente, enquanto pesquisa científica, formação de profissionais cidadãos e forte atuação na sociedade por meio da extensão universitária.

Essa é a universidade pública que defendemos e defenderemos em 2020, e para muito mais além.

*Nelson Pretto é professor titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, membro titular da Academia de Ciências da Bahia e doutor em Comunicação.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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