Fórum Educação
23 de Maio de 2020, 10h39

BBB do Planalto tem cenas de perversão, ultraliberalismo e autoritarismo, por Ronaldo Pagotto

O bolsonarismo ali presente era um retrato do que é nas ruas

Reunião Ministerial do dia 22 de abril (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Por Ronaldo Pagotto

1. Sim, parecia a mistura do vídeo dos trapalhões com cenas do “A Queda”, com temperos de perversão, teorias conspiratórias, vitimismo do mais chulo e muita fala desconexa. Abundância de cenas para responsabilização. O Brasil pôde ver um pouco do que é essa trupe neofascista sem filtro ou controle. E o que viu são imagens dantescas, terríveis.

2. O ministro Braga Netto e o governo em si seguem com as apresentações de programas e projetos absolutamente incompreensíveis, sem foco, em um apanhado de enunciados e temas.

3. Todas as falas foram pra agradar Bolsonaro. Quando muito a divergência era entre os integrantes.

4. A reunião parece que foi gravada para publicar em razão dos discursos, embora o palavreado tenha sido mais forte. Não acho que seja isso. A reunião é entre pessoas que não confiam umas nas outras. Dito abertamente sobre conspirações “palacianas” pelo Weintraub e o tom do presidente era de estar entre adversários. Em alguns trechos parece falar no cercadinho.

5. Isso é o Bolsonaro: não confia em ninguém, só tem essa relação com a família. Não suporta gente com algum destaque: todo mundo em volta dele, ele manda em tudo, desautoriza a todos e cobra abertamente a fidelidade.

6. A reunião era para a Casa Civil apresentar um plano para o pós pandemia. A maluquice está ai. À época, 22 de abril, tínhamos 10% das mortes que temos um mês depois. O pico estava longe de chegar, a cloroquina não apareceu na reunião, nem os problemas imediatos ou algo sobre o maior problema do Brasil.

7. O ministro da Saúde recém empossado não deu um pio. São cenas que permitiriam crime de responsabilidade por omissão.

8. O bolsonarismo ali presente era um retrato do que é nas ruas. Teoria da conspiração, são os maiores vitimistas que temos, abortismo, satanismo e anti-comunismo como muletas para quem não tinha o que falar e usou as velhas cartilhas. Como apontei aqui.

9. A postura do Paulo Guedes é digna de observação especial. Descontrolado, usa de expedientes estranhos do tipo “sobre isso já li 8 livros”, uau. Ou quando vai falar do Banco do Brasil é para propor privatização e na mesma hora o presidente diz “pra 2023”. Por certo, sabe que o Brasil não apoia isso. Cenas deploráveis pedindo informações sobre quanto vamos vender o pais: minério, petróleo, estatais. É uma farra do privatismo. Sem falar no tratamento com as micro e pequenas empresas, que merece uma boa avaliação. O resumo é: vamos apoiar as grandes, as pequenas nos darão prejuízo. O neoliberal trata a economia nacional como um caixa que ele administra.

10. O ministro Salles é aquele que fez campanha mostrando o símbolo do MST e indicando que a solução era a bala e armar o latifúndio. É da velha cepa da classe dominante anti-povo. O privatismo dele é coerente: o neoliberalismo no mundo dependeu mais do autoritarismo e da ditadura do que da capacidade de convencimento. Só foi aplicado nesses casos. Não é despropositado que o rapazote queira aproveitar a confusão “com a Covid” para passar medidas impopulares e pelo que podemos depreender dos termos dele mesmo: indecorosas, ilegais e contrárias ao Meio Ambiente. Ele deveria ser extirpado por representar o anti-ministério do meio ambiente. Contradição em si, afrontar. Por interesse.

11. O rapaz da Caixa é outro inconsequente. Trata o auxílio emergencial como um feito de uma empresinha que ele administra. Patrimonialista, “meus funcionários”, visitei 15 agências, mas o brilho foi ao tratar do grupo Band: informou que pediram dinheiro, prestou contas de que havia respondido e demonstrado a fidelidade ao chefe e a arrogância do playboy ainda permitiu falar mal do isolamento “frescura do home office”.

12. Sobre a repercussão do vídeo para o bolsonarismo. O vídeo estava em debate já desde a saída do Moro. O Gabinete do Ódio tinha o material na íntegra também e preparou um arsenal de conteúdos, trechos, memes, cards, linha de argumentação, pontos para destacar. E, tão logo o vídeo foi publicado, esse arsenal foi despejado nas redes para disputar a opinião, a narrativa e a política. E jogaram e seguem jogando duro: inundando as redes de pequenos vídeos, materiais de propaganda política. É o velho dito: do limão uma limonada. Aproveitam tudo para disputar.

13. Sobre o impacto para os setores democráticos, há grande controversa sobre o vídeo. Em parte pela expectativa criada com o “divulga-não divulga” das duas semanas anteriores. Com o possível impacto de ter acesso a uma reunião interna de 2 horas. Não foi um vídeo com a bala de prata, mas não é uma reunião pública ou fala no cercadinho. Muita coisa ali permite processos, abastece campanhas e lutas. Não é cai ou não cai e o material é bom.

14. Um dos destaques é para o que ele aponta como inimigos do governo ou a arte de fazer inimigos. Indica a disputa com o parlamento, ataca o STF, governadores e prefeitos. Curiosamente ataca quem estava sob pressão da Covid-19 nos seus Estados e propunha medidas que não seguiam as prioridades do governo (cloroquina e abertura economica). O grau de rivalidade é para o estudo de psicólogos. Ele parece enlouquecido com as medidas sanitárias de São Paulo e Rio de Janeiro, dois estados que estão com um quadro especial da crise. A crítica a Manaus, que a época estava usando refrigeradores para preservar corpos, cenas de sepultamentos em massa e relados do colapso do sistema.

15. O mais importante da reunião é que desnudou o presidente e sua trupe de fieis não pautaram a Covid19. Nada. O pós foi o tema do projeto dos slides do Braga Netto. Não teve questão sanitária, mas os temas de sempre apareceram: armamentismo, privatismo (anti-nacional!), declaração de guerra contra regulação, prefeitos, governadores, a imprensa, STF e ao parlamento, vitimismo sem vergonha, pitadas de temas desconexos, muita puxação de saco e demonstração de fidelidade canina. Baixo nível político, intelectual, ético e pequenos crimes em apenas 2 horas de demonstração.


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