Extra! Extra! Xandão, o novo casamento hétero do Jair, com todo o respeito!

Depois de ver o golpe subir no telhado, Jair manda um avião buscar um golpista de verdade para ajudá-lo a se manter ajoelhado, ao menos até o próximo piti

Por Estevan Mazzuia *

Quem diria?

Jair, o homem do Twitter e do zap-zap, apelou à boa e velha cartinha para colocar o rabo entre as pernas com elegância. Cidadão de pouquíssimas palavras, pediu ajuda ao homem das mesóclises e dos embustes bem-sucedidos.

E foi dessa forma que terminou o sonho golpista de Jair, ao menos por ora: Xandão, o novo malvado favorito da nação, foi de canalha a professor e jurista qualificado em questão de horas.

De quebra, Jair jogou água no chopp da trupe de abilolados que festejavam o que acreditavam ser um estado de sítio no país. Tudo por conta de mensagens fajutas que circularam pelas redes sociais numa velocidade que nem morte de parente alcançava no tempo do telefone fixo.

Em meio ao turbilhão de fanfarronices em torno da frustração dos cornominions, também ganhou destaque a confusão entre os caminhoneiros, que não acreditaram em áudio de Jair mandando acabar com o movimento que ele próprio havia estimulado. O comediante Marcelo Adnet entrou na brincadeira e, por muito pouco, não se viu um sem número de caminhoneiros dançando Macarena pelas rodovias de Pindorama.

Definitivamente, explicar o Brasil de 2021 será uma árdua e vergonhosa tarefa aos historiadores.

Jair colhe os frutos da rede de comunicação que o jogou na cadeira de presidente: em meio ao delírio coletivo daqueles que sustentam seu desgoverno, fica cada vez mais difícil discernir as verdades das mentiras.

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Também houve falha de comunicação entre a chamada “terceira via”, aquele grupo que se vê descontente com o fato de Jair não ter cumprido todas as promessas de campanha, como “metralhar a petralhada toda” e “esterilizar os moradores de favelas”. Não consigo pensar em outra promessa que Jair não tenha cumprido que possa ter descontentado tanto essa parcela de bolsonaristas de primeira hora.

Coordenada pelo MBL e pelo Vem Pra Rua, grupamentos de adolescentes que nasceram no tempo das vacas gordas e nunca leram nada sobre o Brasil dos anos 80 e 90, a manifestação tentou, a princípio, alavancar um nome da direita envergonhada, sob o slogan “Nem Lula, Nem Bolsonaro”. Ao sentir que a coisa iria flopar, mudou o foco para o impeachment de Jair, e conseguir arrebanhar o PCdoB e alguns incautos, mas já era tarde. Acabou sem Lula, sem Bolsonaro, e sem público, revelando o real tamanho dos movimentos e da tal “terceira via”, dos desertores bolsonaristas que se vendem como centro, por se envergonharem de se assumir o que de fato são.

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Essa bagunça fez com que eu recordasse o Velho Guerreiro Chacrinha, que já dizia: “Quem não se comunica, se trumbica”. E esse foi o mote que Ney Ayan usou para desenvolver o enredo do Império Serrano em 1987, “Com a boca no mundo, quem não se comunica, se trumbica”.

Tratando da comunicação no Brasil, desde a carta de Caminha, comunicando o “descobrimento” do país, até os satélites, passando pelos pombos-correios, cartas, telefone e imprensa, nas formas escrita, falada e televisada, a tradicional agremiação de Madureira conquistou o terceiro lugar no carnaval daquele ano.

O que o Ney Ayan não poderia imaginar era que, menos de uma década depois, o surgimento da internet revolucionaria as comunicações. Assim como ninguém poderia imaginar que, por meio de redes sociais virtuais, um político medíocre, com 30 anos de vida pública, pudesse eleger-se presidente da quinta maior nação do mundo, apresentando-se como “novidade”.

Mas não foi só. Expulso do exército após tentar explodir a cidade do Rio de Janeiro, aquele homem convenceu muita gente de que era um militar honrado. Pior: entre mamadeiras de pirocas e “kits gay”, garantiu que o Brasil vivia um governo comunista há muito tempo, liderado por Lula, Dilma e Temer. Dependendo da quantidade de ópio ingerida, dá para colocar FHC nesse balaio.

Essa poderosa ferramenta de comunicação rapidamente suplantou a credibilidade de veículos tradicionais da mídia, fenômeno que não ocorreu exclusivamente no Brasil, mas que, por aqui, um país que ainda sofre muito por anos e anos de descaso com a educação, parece muito longe do fim.

Jair sempre teve absoluta dificuldade para se comunicar. Durante sua campanha, fugiu de entrevistas e debates. As poucas perguntas que respondia recebiam respostas evasivas e desconexas. Eleito, só responde a perguntas previamente aprovadas por sua assessoria e, quando questionado sobre qualquer problema de sua gestão, encerra as entrevistas, não sem antes atacar seu interlocutor com ofensas pessoais e, invariavelmente, insinuações sobre a orientação sexual, se homem, ou aptidão profissional, se mulher.

Diante de seus seguidores, contudo, não se intimida. Sente-se seguro para falar as besteiras mais inimagináveis. Ao fundo, a mesma voz feminina sempre a lhe respaldar: “é verdade”. Jair é um encantador de multidões cada vez menores, mas ainda muito barulhentas. Mas aquela senhora do “é verdade” deve receber cachê.

No último dia 7, foi mais longe do que nunca em seu histrionismo. Ao que tudo indica, as instituições se coçaram e a discussão sobre a abertura do processo de impeachment saiu do andar das conjecturas e chamou o elevador. Se não foi a primeira vez que recuou, pode-se dizer que, desta vez, Jair o fez como nunca antes na história deste país. Mandou um avião buscar Michel Temer, que rapidamente afagou o aspirante a ditador e deu mais um golpe em nossa frágil democracia, ditando uma “declaração à nação” que jogou água na fervura.

Eu, particularmente, ainda não compreendi as razões republicanas que teriam estimulado Michel a garantir sobrevida a Jair. O fato é que este parece acreditar que fala apenas aos seus zumbis, durante suas tenebrosas “lives” semanais. Na primeira oportunidade fez questão de dizer que o documento não tinha nenhuma vírgula de sinceridade, sendo apenas um recuo estratégico. É possível. A ver, se as instituições brasileiras seguirão afrouxando seus limites, permitindo que Jair avance mais casas do que recua, ou se ele chegou no ponto do tabuleiro em que elas passarão a dar as cartas.

Todavia, a julgar pelas manifestações de muitos blogueiros, caminhoneiros e manifestantes que acreditaram na promessa de “nova independência” do falastão, as loas tecidas a Xandão podem ter custado a Jair mais um naco de seu terreno político.

Como disseram por aí, o bolsonarismo está ficando de saco cheio de Bolsonaro e, se ele não trabalhar muito bem o diálogo com essa turma, pode ter o destino previsto por Aluízio Machado e Beto Sem Braço no refrão do Império Serrano em 1987:

“Quem não se comunica, se trumbica, e como fica?

Fica na saudade, fica”

*Estevan Mazzuia, o Tuta do Uirapuru, é biólogo formado pela USP, bacharel em Direito, servidor público e compositor de sambas-enredo, um apaixonado pelo carnaval.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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