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22 de janeiro de 2020, 15h53

Festa de princesa promovida pela Damares é uma expressão do preconceito cultural e ignorância na luta antirracista

Ora, Damares, como combater o racismo utilizando as mesmas figuras que espalharam o preconceito pelo mundo? - Por Ale Santos

Reprodução

Por Ale Santos*

Roberto Alvim deu amostra clara de um pensamento vigente no governo Bolsonaro, a higienização cultural. Há quem diga que o ex-secretário de cultura caiu, apenas, por deixar totalmente explícita a frase de Joseph Goebbels, porém aquelas idéias de “alta cultura” que foram criadas por ideologias que serviam ao plano de colonização européia ainda estão implícitas em outros setores bolsonaristas. 

Em comunicado oficial o  Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, liderado pela Damares, promoveu uma festa de princesa para a menina Ana Luísa Cardoso Silva, “com o objetivo de combater o racismo.”

A Ministra tem uma fixação problemática com a questão sexual de crianças e utiliza a simbologia da princesa como um antídoto ao que acredita ser doutrinação ideológica. No início do seu trabalho chegou afirmar que “menina será princesa e menino, príncipe”, a questão é que toda sua referência de monarquia está inundada do mesmo imaginário branco europeu que fundamentou o racismo no mundo. Ora, Damares, como combater o racismo utilizando as mesmas figuras que espalharam o preconceito pelo mundo? 

Não vou nem entrar no fato de um Ministério acreditar que um fenômeno tão complexo e enraizado na nossa sociedade, possa desaparecer com festas infantis. Como ressaltou a Deputada Andréia de Jesus em seu Twitter “Enquanto o combate ao racismo for pensado no campo do individual e não como POLÍTICA PÚBLICA, continuaremos a viver neste país que adoece, encarcera e mata negras e negros aos milhares.” Mesmo que fosse uma celebração com toda qualidade da cultura negra brasileira, o problema do racismo não está na vítima, mas na psique social. 

Para além da questão de individualizar a dinâmica racial que permeia a maior parte das estruturas sociais brasileiras, reside esse pensamento de superioridade cultural. Seja na ingenuidade ou no desconhecimento e ignorância total, a foto da Damares com as “princesas” para combater o racismo, representa essa visão tradicional de superioridade dos povos europeus sobre os negros. Como se a solução para acabar com o racismo fosse a assimilação da cultura opressora. Por vezes esse pensamento é carregado através do mito da modernidade.  Segundo um dos maiores historiadores africanos no mundo, Joseph Ki-Zerbo, “Os intelectuais europeus convenceram-se de que os objetivos, os conhecimentos, o poder e a riqueza de sua sociedade eram tão preponderantes que a civilização europeia deveria prevalecer sobre todas as demais.”

De certo, a visão de Igualdade da Damares é assimilacionista, uma dinâmica onde as expressões de culturas periféricas são assimiladas pelas culturas dominantes até se diluir. Se é assim que Damares Alves pensa em políticas para o povo Negro no Brasil, mesmo não chocando a opinião pública, como o vídeo de Alvim, o resultado é parecido: determinar o novo padrão de cultura para o povo, silenciando as tradições indesejadas. 

 

*Ale Santos é escritor, autor de Rastros de Resistência 

Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Fórum

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