Generais genocidas e a impunidade – Por Normando Rodrigues

O que o sérvio Ratko Mladić, recondenado em 8 de junho pelo Tribunal de Guerra da ONU para a Bósnia, e nosso intendente Eduardo Pazuello têm em comum?

Por Normando Rodrigues *

Genocida condenado

Ainda não foi a vez do Mito, mas sim a de Ratko Mladić, antigo comandante bósnio-sérvio responsável pelo extermínio de cerca de oito mil muçulmanos no massacre de Srebrenica, em 1995.

O general recorria da pena de prisão perpétua aplicada em 2017 pelo Tribunal de Guerra da ONU para a Bósnia, mesma corte que ontem (8) confirmou a sentença.

Oficial de carreira com 31 anos de serviços à antiga Iugoslávia, e depois à Sérvia, Mladić foi levado ao genocídio pelo preconceito e pelo ódio, o que demanda uma reflexão sobre o ensino militar, em geral, e a doutrinação ideológica, em particular.

Reacionários e conservadores

A parte reacionária dos nossos soldados concebe o mundo extracaserna como um caos decadente e cheio de inimigos. O Brasil ideal é o de um passado não vivido, do qual “ouviram falar”, sem críticas ou análises.

Já os conservadores acreditam que a abissal desigualdade social brasileira deva ser mantida a qualquer preço. É o sistema de valores do “manda quem pode”, e do “sabe com quem está falando?”

Uns e outros se irmanam com o fascismo no ódio à esquerda e a quem mais ousar desafiar nossa escravagista hierarquia de classes. E são “adestrados” neste ódio.

Juramento

Ao contrário desses credos, nossa Constituição é o programa ideológico de um estado democrático…

“… destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos.”

Mas isso pouco importa, porque em lugar de jurar “apoiar e defender a Constituição”, como fazem seus equivalentes dos EUA, nossos milicos juram “morrer pela pátria e viver sem razão”, do mesmo modo que há meio século Geraldo Vandré cantou.

Hitler

O juramento profissional descompromissado da constituição é só um pequeno traço de um mundo próprio, que oferta à História uma série de atos muito mais graves.

Corrupção, remuneração acima do teto constitucional, torturas e assassinatos, são os grandes feitos dos militares brasileiros, que agora acrescentaram à lista o genocídio.

Genocídio pelo qual os camuflados não querem que Pazuello seja responsabilizado. E, impune pelo mais, impune pelo menos, seria de todo contraditório que punissem o general por subir no palanque de nosso Hitler. 

Até porque o Exército já embarcou nesse “carro de som” há muito tempo!

*Jorge Normando Rodrigues é assessor jurídico do Sindipetro-NF e da FUP.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.