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08 de agosto de 2019, 22h41

Macri: sem argumentos

Campanha suja de notícias falsas conta com contribuição do próprio presidente: sem resultados a mostrar, o mandatário da Argentina apela para o discurso de torcida e destaca que "nenhum argumento é necessário, nenhuma explicação é necessária"

Foto: Fotos Públicas/Raoni Madalena

Por Mariano Vázquez*, com tradução de Vinicius Sartorato**

No dia 11 de agosto serão realizadas eleições primárias na Argentina para eleger os candidatos das frentes partidárias que disputarão os postos de presidente e vice-presidente, 130 deputados federais e 24 senadores nacionais. Em várias províncias, as autoridades executivas e legislativas também estarão em disputa.

A campanha suja de notícias falsas promovida por governistas na mídia hegemônica e em redes sociais conta também com contribuição do próprio presidente, que juntou-se a partir de sua conta no Twitter. No domingo (4), uma semana após a Primária Aberta Simultânea e Obrigatória (PASO), de seu agrupamento, o Presidente Mauricio Macri publicou três tuítes com o objetivo de poluir o cenário eleitoral.

Em sua primeira mensagem na rede social do “passarinho”, Macri exclamou: “O QUE ELES TEM MAIS MEDO, É DE PESSOAS COMO VOCÊ DIZENDO QUE VOTARÃO POR MIM!”. Na segunda, ele disse sem rodeios: “Nenhum argumento é necessário, nenhuma explicação é necessária”. No terceiro tuite, ele implorou e reiterou: “Sua declaração é decisiva. Garanto que eles têm mais medo de pessoas como você dizendo que vão votar em mim”. E fechou com um convite: “Na quinta-feira, 8, às 19 horas em ponto, vamos todos juntos dizer na rede social quem você escolheu: Twitter, Facebook, Instagram, WhatsApp”.

Desse modo, Macri, em seu discurso agudo, reconhece que há um voto envergonhado; que quem não elege deve estar assustado; e que seu governo não pode mostrar uma única conquista de gestão, portanto, “nenhum argumento é necessário, nenhuma explicação é necessária” a respeito do porque você tem que escolher uma opção política.

O próprio presidente renuncia ao formato usual de uma campanha eleitoral: explicando suas idéias, informando sobre seus planos de governo, divulgando sua plataforma política. Abre mão de dizer aos cidadãos porque eles deveriam confiar seu voto. Fato incomum, fora do habitual.

Uma pista: Macri argumentou, depois de ser empossado presidente em 2015, que gostaria de ser “julgado se poderia ou não reduzir a pobreza”. Quase quatro anos depois, a pobreza subiu para 34,1% e afeta 13,8 milhões de pessoas. Difícil dar explicações sobre o fracasso de sua própria meta.

Outra famosa frase de Macri: “No meu próximo governo faremos o mesmo, mas mais rápido”. Como argumentaria, sinceramente, um empresário sobre o modelo de exclusão que vai se aprofundar?

É por isso que Macri não quer “explicar ou argumentar”. Por isso, apela para o voto de ódio. Para o medo. Para a raiva.

A “não proposta” é um salto no vazio. Não há uma utopia orientadora. Não há rede. As pesquisas geram alarme no bunker do fundamentalista Jaime Durán Barba (marqueteiro de Macri)? Se tomarmos uma média das múltiplas pesquisas, observamos que a chapa de Fernández-Cristina Kirchner (Frente de Todos – centro-esquerda kirchnerista) passa os 40%; Macri-Pichetto (Juntos pela Mudança – centro-direita) está em 34%; e Lavagna-Urtubey (Consenso Federal – centro-esquerda não-kirchnerista) com 9%.

Os estudiosos governistas acreditam que as prévias são um verdadeiro primeiro turno. Esse quadro levaria ao aprofundamento da votação, útil para 27 de outubro, combinando assim as terceiras opções. Das 10 chapas presidenciais que concorrerão em 11 de agosto, metade não alcançaria a cláusula mínima de 1,5% para competir. O medo: que essa polarização coloque Alberto Fernández (com a apoio de Cristina), que sonhava evitar um segundo turno, em torno de 45%. O governo aposta em um segundo turno, para assim reverter o resultado desfavorável com a soma dos votos das terceiras forças. É possível também.

Enquanto isso, o partido no poder decidiu que, a qualquer preço, manterá o poder, mesmo usando o próprio presidente como um troll (troglodita).

*Mariano Vásquez (@marianovazkez) é jornalista argentino residente em Buenos Aires. Documentarista, possui experiência em temas políticos internacionais e laborais, tendo trabalhado por muitos anos na TV boliviana e em vários meios argentinos.

**Vinicius Sartorato (@vinisartorato) é jornalista e sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha)


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