O que o brasileiro pensa?
28 de maio de 2020, 11h11

O Brasil tosco e perigoso de Bolsonaro no qual teremos de viver

Ocorre algo que se assemelha muito a um sincretismo de SS com Talibã. Não há qualquer exagero na comparação. O que há é um verniz relativista típico do nosso tempo, em que coisas e eventos vão se instalando de forma sorrateira e aparentemente inofensiva

Foto: (Mosaico) Reprodução YouTube / Divulgação Agência Brasil - EBC

Por Henrique Rodrigues*

Se alguém está achando que vai escapar dos efeitos dessa insanidade que estamos vivendo, é melhor já ir mudando de ideia. O bolsonarismo trará, para muito além do que já trouxe, um cotidiano difícil e desafiador para todos os brasileiros, em alguma medida.

Se até o Witzel, ex-oficial dos Fuzileiros Navais, ex-juiz federal e governador, que dizia ser muito doido, o William Bonner, que confessa não estar mais dormindo bem à noite, e o Sérgio Moro, a eminência parda da República de Curitiba, estão na roça, imagine você com esse pedigree de marmiteiro-pão-com-ovo.

Não é possível entrar num pesadelo assim, onde o autoritarismo se instalou por vias psiquiátricas e o absurdo tornou-se parte da normalidade, e achar que nada mudará. Povos e países que experimentaram governos fundamentalistas e de viés violento carregam cicatrizes profundas até hoje.

Imagine um sujeito que ficou em coma nos últimos cinco anos e que, agora, ao recobrar a consciência, é informado sobre a situação política do Brasil:

“Senhor, o presidente da República é aquele militar xarope e repugnante que era deputado do baixo clero, que tinha uma foto do Médici no gabinete e um cartaz dizendo ‘quem procura osso é cachorro’, referindo-se aos desaparecidos da Ditadura. Ele e os três filhos, uns molecões de quase quarenta anos, que só tiram foto com armas de guerra, mantêm um governo paralelo, tipo um déjà-vu de Muamar Kadafi, e são guiados ideologicamente por aquele tiozinho astrólogo que só fala de cu e que dava dicas de horóscopo na Rede Manchete nos anos 80… A PF, agora, é toda chefiada por amigos pessoais deles e anda intimidando até governadores de Estado, como aqueles jagunços de filmes sobre o sertão.”

“É… Veja só… O Congresso ainda funciona, pelo menos formalmente, mas está entupido de homens e mulheres que, quando não são policiais fardados, são pastores evangélicos. São apoiadores incondicionais do presidente. Eles mantêm um terço da população do país numa espécie de transe, com umas roupas verdes e amarelas, gritando várias coisas sem nexo, ora religiosas, ora sobre tortura, exigindo o extermínio de todo mundo. Eles acham que o Doria, o multimilionário engomadinho da tevê, é comunista. Hoje ele é governador de São Paulo e o mundo está parado há mais de dois meses por causa de uma pandemia mortal, mas o Brasil nega a existência dela.”

“Pra terminar, senhor, o Ministério dele é composto por um banqueiro do Pinochet na Economia, um cara que forjava plano de manejo para desmatar no Meio Ambiente, um sujeito que escreve ‘imprecionante’, confunde ‘Kafka’ com ‘kafta’ e troca ‘assecla’ por ‘acepipe’ na Educação, um diplomata que diz que o aquecimento global é uma trama marxista chinesa, e que a maior ameaça do mundo atual é o comunismo, no Itamaraty, um astronauta que vendia travesseiros na Ciência e Tecnologia, uma pastora que conversou com Jesus Cristo numa goiabeira nos Direitos Humanos e mais uns 20 generais. Parece que um ex-galã adolescente de meia-idade da Malhação vai ser o novo secretário de Cultura. Ah, já ia esquecendo… Eles romperam com a ONU, com a OMS, com os BRICS, com o Mercosul, com a UNASUL, com o Vaticano, com os árabes, chineses… Na verdade romperam com todo mundo, menos com os Estados Unidos e com Israel.”

Essa narrativa grotesca, digna de um roteiro de Luis Buñuel, é só a face ridícula e cômica de um governo surreal que se instalou no Brasil e que não encontra paralelo em lugar algum do planeta, em nenhum momento da História.

Fora do picadeiro bizarro, o aparelhamento do Estado já resulta nas investidas de uma polícia política recém-inaugurada, nas atitudes constrangedoras e bajuladoras de um procurador-geral da República que é um brinquedo nas mãos de Bolsonaro e na absoluta impunidade conferida aos filhos do presidente, que fazem absolutamente tudo que lhes dá na telha, sem medo da repercussão ou de alguma possível punição.

Milícias dos mais diferentes matizes (digitais, paramilitares, de agentes de segurança do Estado e fanáticos religiosos) ameaçam a todos. Ontem mesmo, após uma ação da Polícia Federal determinada por um ministro do STF, os investigados voltaram a ameaçar publicamente os juízes do Supremo, sem qualquer pudor. Não, não é reclamar. É ameaçar.

Ocorre algo que se assemelha muito a um sincretismo de SS com Talibã. Não há qualquer exagero na comparação. O que há é um verniz relativista típico do nosso tempo, em que coisas e eventos vão se instalando de forma sorrateira e aparentemente inofensiva.

É isso que cria uma atmosfera que naturaliza todos os absurdos (25 mil mortos, por exemplo) e que dá um caráter de pusilanimidade às pessoas em geral.

Quando a coisa firmar e estiver totalmente naturalizada, com militares, pastores caricatos, gente perturbada da cabeça, psicopatas, assassinos, milicianos e bestas-feras incontroláveis ocupando todos os espaços dos poderes da República, não vai adiantar muito olhar para trás e perguntar onde erramos.

Aí, será tarde demais. Já que ninguém vai fazer nada, é bom se acostumar com o destino que teremos logo ali à frente.

*Henrique Rodrigues é jornalista e professor de Literatura Brasileira.


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