O prefeito que virou suco – Por Ademário Costa

A gestão municipal de Salvador e seu representante maior estão reduzidos a um simulacro de liderança política. A Prefeitura não pode ser tratada como mero aparelho reprodutor dos interesses individuais de ACM Neto

Por Ademário Costa *

Uma das principais características esperadas de quem ocupa a cadeira da Prefeitura de Salvador é a capacidade de exercer liderança política, ou seja, ser a principal referência da sua própria base, ao mesmo tempo que é responsável pela condução da administração da cidade. Neste sentido, o atual prefeito de Salvador, Bruno Reis (DEM-BA), já tem demonstrado muitas dificuldades para exercer os pré-requisitos da gestão pública.

Neste episódio, ainda em curso, do imbróglio causado pela adesão de seu padrinho político, ACM Neto (DEM-BA), ao bloco de centro direita, dirigido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em torno da eleição do deputado federal Arthur Lira (PP-AL) para a Presidência da Câmara Federal, essas dificuldades ficaram mais evidentes e as consequências já recaíram sobre a administração de Salvador.

É absolutamente constrangedor que, com menos de dois meses no cargo, o gestor tenha que demitir um membro da sua equipe do primeiro escalão sem sequer apresentar um motivo referente ao desempenho administrativo da pessoa ou até mesmo fazer uma combinação para um possível pedido particular de desligamento. O que se viu foi uma retaliação, sem pudor, para atender o desejo particular do seu mentor, o ex-prefeito ACM Neto, contra o partido do Republicanos, após a nomeação de João Roma para o Ministério da Cidadania. Fato este que representou, acima de tudo, a confirmação da aliança entre o presidente nacional do DEM e Bolsonaro.

A situação mostrou que ACM Neto age como se ainda estivesse na cadeira de gestor municipal. Sem ter a grandeza de tentar preservar seu pupilo, o ex-prefeito exerceu seu poder e expôs seu sucessor, deixando evidente a fragilidade da atual gestão, não só do ponto de vista da política, mas também da administração. Não deixando dúvida sobre quem de fato manda no Palácio Thomé de Souza.

Ao atual prefeito não restou outro figurino que não o de coadjuvante que ninguém se lembra. Em público, repetiu os argumentos de seu padrinho na querela contra Rodrigo Maia, sem fugir nem por um átimo do script. Nenhum raciocínio original, nem argumentos novos em que pudéssemos observar um articulador de substancial formulação ideológica. A cada pronunciamento, uma performance de um boneco de ventríloquo entra em cena, sem condições de emitir uma opinião própria, com um comando permanente de quem lhe coordena todos os movimentos. Um líder precisa ser capaz de apresentar suas próprias ideias para poder liderar!

No mesmo caminho, aqueles que deveriam ser seus liderados perfilam-se em torno da mesma pendenga. É o ex-prefeito que é exaltado como único líder. Deputados federais e estaduais, vereadores, secretários e até membros de segundo escalão da Prefeitura nem sequer citam o atual prefeito na hora de declarar fidelidade. E daí surge uma pergunta: Do lado de lá, o projeto político é exclusivamente personalista, que só concebe a ascensão de um líder?

Se a movimentação do DEM reduziu o Congresso Nacional a um puxadinho do governo Bolsonaro, seu presidente regrediu ao estilo do velho carlismo e, no mesmo movimento, a gestão municipal de Salvador e seu representante maior estão reduzidos a um simulacro de liderança política. A Prefeitura de Salvador não pode ser tratada como um mero aparelho reprodutor dos interesses individuais de ACM Neto, nem o atual prefeito pode se comportar como um despachante de tais necessidades. Neto afirmou, em sua despedida, que devolveu a dignidade ao cargo de prefeito de Salvador. Em sendo verdade, parece que também a levou consigo quando deixou o cargo.

*Ademário Costa é cientista social e presidente do PT/Salvador.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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