Após humilhação a entregadores em shopping, Paulo Galo atesta: “Capitalismo é bom em fazer a gente se sentir em cima da merda”

Um vídeo que viralizou mostra trabalhadores de aplicativo sendo proibidos de sentarem enquanto aguardavam para retirar pedidos em um shopping de Aracaju; "Não é um fato isolado", diz o entregador antifascista

Vem viralizando, nas redes sociais, um vídeo que mostra entregadores de aplicativos sendo proibidos por seguranças do Shopping Jardins, em Aracaju (SE), de sentarem nas mesas da praça de alimentação enquanto aguardavam para retirar pedidos que seriam entregues aos clientes.

“Os entregadores obrigados a ficarem em pé porque não podem sentar nas cadeiras pra aguardar o pedido. Nós não podemos nem sentar para aguardar pedido. E aí? Isso, diz que foi a superintendência do shopping, que disse que não pode deixar os entregadores sentados. Um monte de cadeira aí e não pode sentar”, diz a pessoa que gravou o vídeo, no último final de semana.

Assista.

 
 
 
 
 
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Uma publicação compartilhada por Entregadores Antifascistas (@entregadoresantifascitas)

As imagens foram divulgadas pela página Entregadores Antifascistas. Paulo Lima Galo, um dos fundadores do grupo, que protagonizou atos históricos em 2020 em prol de mais direitos para os trabalhadores de aplicativos, falou à Fórum sobre esse tipo de situação vivida pelos entregadores e, segundo ele, trata-se de algo recorrente.

“O que aconteceu no shopping em Aracaju não é um fato isolado, acontece todos os dias em vários lugares. Shopping é sempre uma humilhação diferente, em muitos não podemos entrar com a bag, que fica na rua e pode ser roubada. Não podemos utilizar certos elevadores, sentar para esperar pedidos que muitas vezes demoram de 1 a 2 horas para serem liberados. E o segurança do shopping que está sempre nos seguindo”, relatou.

Segundo Galo, ele já foi até mesmo impedido de usar o banheiro de um shopping e de entrar em uma loja para perguntar o preço de um produto. Isso sem falar nas abordagens truculentas da polícia e seguranças não o deixando sequer parar a moto perto dos restaurantes que demoram para liberar os pedidos.

“O entregador não foi convidado a estar ali ele está ali por uma necessidade de consumo. Mudamos a paisagem das grandes cidades e fica óbvio o momento de decadência do trabalho que o Brasil enfrenta”, analisou ainda o entregador antifascista.

“Você paga 7 reais em uma entrega que o entregador percorreu 12 km na chuva ficou 1 hora esperando o pedido sem sentar, usar o banheiro e com segurança hostil, trânsito hostil, cidade hostil. Até que ele chega com o seu pedido em sua porta. Se todo cliente parar pra pensar no que um entregador tem que enfrentar para que seu lanche chegue na sua casa, seria uma tortura psicológica, assim como você ter que matar o animal que vai comer. O capitalismo é bom em fazer a gente se sentir bem em cima da merda”, atestou.

Em nota, a administração do Shopping Jardins informou que “lamenta” o ocorrido com os entregadores e que “houve um erro operacional”.

Confira, abaixo, a íntegra da nota.

Para conciliar uma convivência entre os públicos importantes – tanto consumidores do local quanto profissionais que atuam com transporte de alimentos – o empreendimento instituiu algumas normas visando, sobretudo, otimizar a retirada de pedidos, manter organização logística e evitar aglomerações. Queremos e vamos melhorar nossa operação nesse sentido e, por isso, estamos finalizando a implementação de espaços destinados especificamente aos profissionais que atuam no segmento a fim de recebê-los da melhor forma possível. Pedimos desculpas, lamentamos o ocorrido no último final de semana, quando houve um erro operacional, e estamos analisando internamente as adaptações necessárias“.

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Ivan Longo

Jornalista e repórter especial da Revista Fórum.