Igor Fuser

27 de agosto de 2017, 12h01

Apesar de Trump, a Venezuela dificilmente será um novo Iraque

O presidente Donald Trump disse estar disposto a uma intervenção militar na Venezuela. É viável?

O presidente Donald Trump disse estar disposto a uma intervenção militar na Venezuela. É viável?

Por Igor Fuser*

Em nenhum momento da História das relações dos Estados Unidos com a América do Sul, um presidente estadunidense proferiu uma ameaça tão agressiva quanto a que Donald Trump fez à Venezuela.

Trump colocou na mesa a possibilidade de uma ação militar para depor o presidente Nicolás Maduro poucos dias depois que o governo venezuelano alcançou uma vitória política importante. Ele realizou, com relativo sucesso, a polêmica eleição de uma Assembleia Constituinte contestada pela oposição direitista. “Temos muitas opções para a Venezuela, incluindo, possivelmente, uma opção militar se isso for necessário”, disse Trump.

Essa ameaça provocou reações previsíveis: manifestações de rua e exercícios militares defensivos na Venezuela; críticas aos EUA até mesmo por parte de governantes latino-americanos alinhados com sua campanha para desestabilizar o governo chavista; a tomada de posição da Rússia contra o intervencionismo estadunidense, discretamente compartilhada pela China.

Para além disso, três perguntas ficam no ar. Trump está mesmo disposto a cumprir essa ameaça? Em caso positivo, de que forma ocorreria essa intervenção na Venezuela? E quais seriam as suas consequências?

Um olhar para a História pode ajudar na busca de respostas. A América Latina, ao longo do século 20, foi a única região do mundo onde a hegemonia estadunidense se exerceu de forma incontestável. Isto é, sem enfrentar um sério desafio de alguma outra potência ou de aspirações nacionalistas locais. A incorporação de Cuba à esfera de influência soviética, durante a Guerra Fria, é claramente uma exceção.

Para eliminar governos latino-americanos contrários os seus interesses, os EUA têm utilizado diversos instrumentos de poder: articulação de golpes de Estado, pressões econômicas, forças de combate ao estilo dos “contras” nicaraguenses, financiamento de atores políticos em outros países e, quando nenhum desses recursos funciona, a intervenção militar direta. Muitas vezes, a simples possibilidade de uma ação militar já se mostrou suficiente para alterar o rumo dos acontecimentos em favor das preferências de Washington.

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Ainda assim, a hipótese de uma ação militar na Venezuela contém um ingrediente inédito. Em suas relações com a América Latina, os EUA sempre estabeleceram uma clara diferença entre os métodos que utilizam na América Central e no Caribe e a sua conduta perante os demais países. A maioria das nações centro-americanas já foi invadida pelo Tio Sam, algumas delas várias vezes.

A ocupação militar pelos EUA também faz parte da História de Cuba, República Dominicana e Haiti. O episódio mais recente foi a invasão do Panamá em 1990, numa operação militar desfechada pelo presidente George Bush pai. Seu intuito era depor e levar preso o governante panamenho Manuel Noriega, um ex-colaborador da CIA que caiu em desgraça e passou a ser acusado de narcotráfico.

Porém, na América do Sul, as tropas estadunidenses sempre agiram por meio das Forças Armadas e da burguesia local, sem recorrer ao desembarque dos marines.

É improvável que, mesmo em um cenário de conflito intenso na Venezuela, os EUA cheguem a despachar tropas para ocupar diretamente aquele país e tomar de assalto os seus centros de poder, como ocorreu nas invasões do Afeganistão (2001) e do Iraque (2003). O cenário mais factível é que os EUA recorram ao lançamento de mísseis para debilitar as capacidades militares venezuelanas e destruir sua infraestrutura.

Nesse caso, a ofensiva poderia ser precedida pela declaração de uma “zona de exclusão aérea”, a exemplo do expediente usado na Líbia como porta de entrada para o envolvimento da força aérea de países da Otan no apoio aos rebeldes líbios em luta contra o regime de Kadafi. Assim como na Líbia, a defesa dos “direitos humanos” serviria de pretexto para o uso da força militar.

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Em uma operação desse tipo, o papel decisivo seria atribuído a Forças Armadas de países aliados dos EUA: em primeiro lugar a Colômbia, governada por políticos particularmente submissos ao País. Para que isso aconteça, contudo, são necessárias certas condições prévias.

A crise política e econômica na Venezuela deve atingir um ponto de ingovernabilidade, o que permitiria a atores externos declararem uma situação de guerra civil ou de crise humanitária. E devem existir contingentes expressivos de venezuelanos engajados na luta armada contra o governo.

Até o momento, as autoridades venezuelanas têm conseguido manter sob controle o problema candente do abastecimento. A escassez é real, assim como a inflação galopante e o descontrole cambial, mas as necessidades básicas dos venezuelanos continuam a ser atendidas.

No plano político, a instalação da Constituinte alcançou um sucesso inicial ao reverter a dinâmica de confronto violento impulsionada pela oposição.

O novo Iraque?

Nada disso afasta definitivamente o risco de a Venezuela se tornar “o novo Iraque”, conforme alertou o jornalista Julian Assange. Os EUA e a oligarquia venezuelana não estão dispostos a aceitar a consolidação de um governo nitidamente de esquerda, anti-imperialista, comprometido com a redistribuição da riqueza e apoiado pela mobilização popular.

Por isso, recorrem a todos os meios políticos e econômicos, até o limite, para derrotar o chavismo, seja pela via eleitoral, seja por um golpe de Estado. Na medida em que esses meios se mostram inviáveis, cresce o risco da intervenção militar externa.

É difícil imaginar maior tragédia, não só para o povo venezuelano, mas para toda a América Latina. Mergulharemos, nesse caso, num abismo de devastação material, social e simbólica comparável ao cenário apocalíptico existente em boa parte do Oriente Médio.

Estariam os formuladores de política externa de Washington dispostos a cometer esse crime? Certamente que sim, conforme o próprio Trump deixou claro em sua ameaça. Nenhuma consideração ética irá deter “o país mais perigoso do mundo”, na definição precisa de Noam Chomsky.

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Na luta desesperada para se manter como potência hegemônica, o império estadunidense prefere a destruição dos Estados insubmissos a conviver com o exercício da soberania de forma contrária aos seus interesses. É o que temos assistido na Síria, na Líbia, na antiga Iugoslávia.

Não é esse, porém, o rumo mais provável na Venezuela. Ainda que uma ampla parcela da sua população se mostre insatisfeita com as autoridades, nota-se também um forte anseio pela paz e pela estabilidade. Os grupos de choque fascistóides que protagonizaram ações violentas nos últimos quatro meses terminaram isolados até mesmo entre os opositores. A Venezuela não está à beira de uma guerra civil, apesar do ambiente político de intensa polarização, com escassas margens para uma solução negociada.

Para situar mais uma vez a conjuntura desse país numa perspectiva ampla, vale notar que as guerras civis do pós-Guerra Fria apresentam uma diferença marcante em relação aos conflitos do período anterior. Em diversas partes do mundo, sociedades se dilaceram a partir do choque entre identidades religiosas, como no Iraque e na Síria, ou da afirmação de valores nacionalistas, como ocorre com os russos do leste da Ucrânia.

Hoje, já não se veem mais guerras civis movidas pela luta de classes – a essência do conflito político venezuelano. Na Colômbia, os acordos de paz estão colocando um ponto final na última insurgência de inspiração comunista no continente. É difícil que, nesse quadro, a Venezuela se torne um Iraque sul-americano, pela simples falta de gente disposta a morrer.

* Professor de Relações Internacionais da UFABC

Foto: Foto: Governo da Venezuela


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