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22 de outubro de 2019, 23h21

As motivações, o atual cenário e os possíveis desdobramentos da convulsão social no Chile

Em entrevista ao programa Fórum 21, jornalistas chilenos apontaram a necessidade de uma Assembleia Constituinte para modificar o Chile que ainda carrega heranças de Pinochet e derrubar o modelo neoliberal

Protestos nas ruas do Chile - Foto: Nicolás Romero Moreno

O caos social instalado no Chile com fortes manifestações e uma dura resposta repressiva do governo foi tema do programa Fórum 21 desta terça-feira (22), que contou com a participação de Victor Farinelli, jornalista brasileiro que trabalha no Chile desde 2006, da diretora de redação do site chileno El Desconcierto, Francisca Quiroga, e de Pedro Santander, professor da Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso. A íntegra do programa pode ser assistida ao final desta matéria.

Na conversa, eles trataram sobre o retrospecto do país, a falta de liderança nos protestos, o papel que cumpre Michelle Bachelet, as respostas de Piñera, os próximos passos e a repercussão internacional. Para eles é essencial que a esquerda se mobilize em favor de uma Assembleia Constituinte para garantir mudanças efetivas no país. A atual Constituição foi formulada durante a ditadura de Augusto Pinochet.

“Modelo chileno”

“Muitos nos perguntamos por que isso não aconteceu antes. A injustiça social no Chile é gigante. Temos um modelo que nós sabemos que não pode ser um modelo para ninguém. Chile é o país onde nasceu o neoliberalismo, foi onde se experimentou pela primeira vez o neoliberalismo ortodoxamente puro”, declarou Santander. “Espero que seja também o país que dê um golpe profundo nele”, completou.

Quiroga, que tem acompanhado os protestos de perto como diretora de redação do El Desconcierto, afirma que não há movimentos dirigindo os protestos. “Não há ninguém conduzindo as ruas. É uma revolta popular que toma as ruas e que a própria esquerda tenta se organizar. São corpos mobilizados que enfrentam os tanques. Temos que ver o que vai acontecer com esse movimento”, avaliou. “Piñera faz ele crescer cada vez mais. Quanto mais ele fala, mais as pessoas querem ir às ruas”, disse ainda.

Nesse sentido, ela avalia que o governo Piñera agudiza conflitos que já estavam presentes há muito tempo. “Comunicacionalmente, o governo Piñera agudiza os conflitos. Os ministros são todos de classe alta, desconectados da realidade”, pontuou.

Junho de 2013?

Para a jornalista, o que está por trás das mobilizações é a mercantilização das vidas dos chilenos e crê que é difícil que os protestos caminhem para uma mesma direção de Junho de 2013 no Brasil e acabe fortalecendo a direita. No entanto, cobra que a esquerda se mobilize para isso.

“Diferente do Brasil, no Chile houve uma grande conscientização sobre a ditadura militar e a violação de direitos humanos. O grupo pinochetista é muito pequeno. Mas para evitar um triunfo da extrema-direita é preciso muito trabalho, não vai ser do nada. A esquerda tem que se mobilizar para pedir a construção de uma Assembleia Constituinte”, avaliou Quiroga.

Santander acredita que os próximos dois dias serão bastante significativos para saber o que virá pela frente. “Esse é um momento muito complexo, sem condução política, com uma quebra na representação, a ausência de grupos representativos fortes, como os sindicatos, com a ausência de lideranças como Hugo Chávez, no Caracazo, ou Néstor Kirchner, na Argentina em 2001. Eu penso que o êxito vai depender da mobilização dessa greve geral”, declarou.

Michelle Bachelet

Tanto a jornalista quanto Santander avaliam que os governos de Michelle Bachelet e Ricardo Lagos ajudaram na normalização do neoliberalismo no Chile e, por isso, a ex-presidenta não é capaz de dar respostas à sociedade em revolta. “Uma coisa difícil de explicar para quem é de fora do Chile é que Bachelet, Ricardo Lagos não foram presidentes progressistas, sempre foram aliados com os Estados Unidos e o FMI. Eles permitiram a normalização do neoliberalismo na sociedade. Ninguém hoje espera soluções deles”, destacou o professor da PUC Valparaíso. Já para Quiroga, Bachelet “fala como funcionária da ONU” e nem tenta apresentar saídas para o caos instalado no país.

Repercussão internacional

O jornalista Victor Farinelli destacou a importância da repercussão internacional para definir os rumos do país. “É interessante ver a reação internacional do que vai acontecer no Chile. Por muito menos do que o Piñera fez, atacam a Venezuela. A gente não vê manifestação do Grupo de Lima, a gente não vê manifestação da OEA, que está mais preocupada em falar de fraude na Bolívia. É importante ver o que os países vão falar”, disse.

O jornalista também avalia que as medidas anunciadas na noite desta terça-feira por Piñera não vão parar as mobilizações. “Acho que essas mudanças não são profundas o suficiente para parar as mobilizações. É um reformismo”, declarou Farinelli

Os meios de comunicação

Santander ainda comentou sobre o rechaço da população aos meios de comunicação tradicionais, que têm sido criticados por tentar criminalizar os protestos. “Há uma forma de comunicar que se esgotou junto do modelo neoliberal. Se esgotou uma forma de fazer informação televisiva, que será muito discutido daqui pra frente. A televisão vai à rua com a mesma lógica do governo, que é a criminalização dos protestos. Não vão às ruas para entender os protestos, mas para procurar violência”, considerou.

Confira, abaixo, a íntegra do programa.


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