Battisti: “represento um acidente sem precedentes no sistema penitenciário italiano”

Cesare Battisti escreveu uma nova carta aos brasileiros nesta sexta-feira

O escritor e ativista italiano Cesare Battisti enviou uma nova carta aos brasileiros nesta sexta-feira (17) relatando os abusos que tem sofrendo dentro do sistema penitenciário italiano, onde cumpre pena. Extraditado do Brasil no final de 2018, o italiano revelou que não pode nem mesmo se comunicar com o filho por video-chamada.

“O massacre midiático orquestrado pelo Estado sobre o “caso Cesare Battisti” permitiu que uma violação dramática dos direitos humanos ocorresse com impunidade no seio de uma democracia européia”, diz em trecho da carta

Leia a carta na íntegra:

Queridos amigos e companheiros,

Quinze meses se passaram desde o meu seqüestro em Santa Cruz e a subsequente deportação forçada para Roma. Desde então, estou em um regime de isolamento normalmente reservado por um período máximo de quinze dias, a prisioneiros submetidos a um procedimento punitivo. Obviamente não é esse o meu caso, na verdade represento um acidente sem precedentes no sistema penitenciário italiano.

Até agora, eu tenho vivido passivamente (tinha outra opção?) e sofro com o abuso de poder pelos seguintes motivos: eu não tinha informações sobre meus direitos previstos pela Ordem Penitenciária; os meses que passei escrevendo meu último romance me ajudaram a suportar o claustro ao qual sou forçado ilegalmente. Hoje essas duas condições deixaram de existir. A redação do livro, escrita com meios improvisados, está terminada. Um ano de isolamento foi longo o suficiente para me revelar os abusos orquestrados pelo ministério, com o objetivo óbvio de me fazer “apodrecer na prisão”, como prometeu publicamente faz um tempo um ministro de Estado.

O nível máximo foi atingido há dois meses, quando me vi recusado o direito sacrossanto da videochamada com meu filho de seis anos que mora no Brasil. Uma rejeição ministerial decidida às custas das próprias leis italianas, bem como da Convenção da ONU sobre os direitos da criança e das disposições européias sobre o assunto.

O massacre midiatico orquestrado pelo Estado sobre o “caso Cesare Battisti” permitiu que uma violação dramática dos direitos humanos ocorresse com impunidade no seio de uma democracia européia. Isso só foi possível porque, tendo o favor de alguns meios de comunicação, as autoridades responsáveis pelos abusos acreditavam estar a salvo de qualquer escândalo público.

Eu sei que existem aqui e em outros lugares homens e mulheres que nunca aceitaram as informações maliciosas transmitidas sobre o suposto “monstro-mito” Cesare Battisti. É a essas pessoas que apelo, para que suas vozes sejam ouvidas contra a brutalidade e a injustiça. Com o objetivo de alertar o Estado para que as leis nacionais sejam respeitadas. Sem exceções e para toda a população detida.

Sei que será uma batalha difícil, mas é importante agir, romper o muro do silêncio. Caso contrário, aqueles partidários do Estado de emergência terão o aval para realizar seus planos obscuros, sobre a minha pele e provavelmente, sobre a de milhares de outros presos.

O isolamento me obriga a fazer valer apenas minhas razões. Os argumentos que posso fornecer àqueles que experimentam a sociedade e não sofrem com ela são objetivos:

  1. 1. Sou forçado a um isolamento abusivo, sem nunca entrar em contato com outros prisioneiros.
  2. 2. Submetido a uma espécie de regime permanente de punição, sem motivo declarado, violando leis e regras estabelecidas, só me é concedida uma hora de banho de sol, sempre e somente na hora do almoço, ou seja, a escolha de um exclui o outro.
  3. 3. Me foram negadas as ferramentas necessárias para realizar corretamente meu trabalho como escritor, como autoriza a lei garantinda a todos, inclusive para aqueles que pertencem a alta cupula de vigilância.
  4. 4. Estou preso no circuito AS2 (para terroristas), quando é evidente que não há perigo de fato que justifique tal medida (há motivos para se perguntar quantos outros estão na mesma situação). Os quarenta anos de refúgio político vividos em absoluta transparência, sempre monitorados, não revelariam o meu real perfil de risco?
  5. 5. Me mantém em uma ilha, longe de todos os afetos e possibilidades de inserção, em uma prisão que goza de uma reputação de rigor excessivo. Isso com o objetivo de debilitar as resistências físicas e psicológicas e reduzir o contato com o exterior, dadas as dificuldades em me alcançar.
  6. 6. No auge da covardia, sou impedido de manter um vínculo paterno com um garoto de seis anos de idade.

Primo Levi disse que um homem é reduzido a besta para fazer o torturador (atormentador) sentirse  menos culpado.

Aqui, queridos amigos e companheiros, a situação que passei em silêncio durante esses quinze meses em Oristano. Digo em silêncio, porque o “monstro” criado para o uso e consumo de frustrações públicas (com todo respeito pelas vítimas), também é proibido de reclamar seus direitos, sob pena de acordar de novo o linchamento publico. Mesmo quando as injustiças em questão prejudicam o respeito pelas famílias e pela sociedade.

Agradeço a todos mais uma vez pela solidariedade. Um abraço

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