Espanha: Socialistas e Podemos falham ao tentar formar governo inédito de esquerdas

Primeiro-ministro em caráter provisório, Pedro Sánchez (PSOE), conseguiu a maioria de votos para seu partido nas eleições gerais de abril de 2019, demonstrando um perfil de esquerda moderado, que dialoga com temas polêmicos como a imigração

Com o fim do bipartidarismo entre o Partido Popular (PP) e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) que marcou três décadas de redemocratização na Espanha, desde a morte do ditador Franco (1979), as eleições no país ibérico ganharam novas características.

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Com profundos questionamentos sobre o distanciamento das estruturas políticas tradicionais, novos agrupamentos políticos surgiram com expressividade eleitoral. Como parte desse novo momento, o PSOE renovado do economista Pedro Sánchez resistiu ao “terremoto do multipartidarismo” e hoje busca formar um novo governo no país.

À esquerda do PSOE, o Podemos (fundado em 2014), como um fruto dos protestos que marcaram a crise econômica-financeira (2007-11) pode ser o parceiro que o PSOE necessita para dar início ao primeiro governo de esquerdas, inédito na história recente do país ibérico.

Com 5 eleições em uma década, os espanhóis têm encontrado dificuldades para manutenção de um governo que termine seu mandato, que vão da simples manutenção de maiorias parlamentares até casos de corrupção, como a queda do então primeiro-ministro conservador, Mariano Rajoy (2018).

Primeiro-ministro em caráter provisório, Pedro Sánchez (PSOE), conseguiu a maioria de votos para seu partido nas eleições gerais de abril de 2019, demonstrando um perfil de esquerda moderado, que dialoga com temas polêmicos como a imigração, o independentismo catalão, uma maior autonomia para comunidades, desenvolvimento econômico com valorização da classe trabalhadora, respeito ao meio ambiente e protagonismo feminino.

Tal postura, fez seu partido retomar a popularidade nos últimos três anos, até então em queda. Enquanto seu rival histórico, o PP, viu sua presença parlamentar ser reduzida quase pela metade na Câmara, o PSOE mostrou uma retomada surpreendente, reafirmada também nas últimas eleições para o parlamento europeu (maio 2019).

Entretanto, apesar de ter se consolidado como a primeira força nacional – com 123 deputados, 28,68% do total de cadeiras da câmara baixa do Parlamento, esse número é insuficiente para formar um governo só do partido. Neste sentido, a possibilidade mais provável de formação de um novo governo, seria com uma aliança inédita desde 1936 – quando eclodiu a Guerra Civil Espanhola, entre esquerdas, com o Podemos.

Essa perspectiva que aumentou bastante na última semana, depois que seu principal líder, o professor universitário e deputado Pablo Iglesias, abdicou de ter um posto no futuro governo, abrindo o caminho para outros membros de seu partido viabilizarem a união ainda não foi confirmada.

Apesar de uma relativa queda nos resultados eleitorais se compararmos a eleição de 2016 e 2019, o Podemos tornou-se decisivo para o futuro do país e demanda uma participação qualificada na futura gestão em termos de espaços e liberdade para realização de suas políticas.

Outra possibilidade, seria a abstenção dos partidos à direita. Entretanto, os tradicionais rivais dos socialistas, os populares (PP), o Cidadãos (C’s) e o partido de extrema-direita Vox votaram “não” bloqueando a formação de um governo das esquerdas.

Sánchez que precisa da aprovação no parlamento, perdeu na primeira votação, na terça-feira (23) e hoje (25), em sua segunda chance para conquistar seu mandato, e agora terá apenas 2 meses (contados a partir de 23/7) para tentar contornar a situação ou convocar novamente eleições. O número de votos necessário era equivalente a maioria simples (176/350).

Segundo lideranças socialistas, o Podemos possui posições profundamente divergentes em pontos cruciais, como na questão catalã. Por sua vez, o líder do Podemos argumenta que os socialistas só querem ceder posições “cosméticas”. Segundo fontes, ambos partidos divergiram também sobre quais e quantos ministérios entrariam na negociação.

Por fim, o impasse foi mantido, Rafael Simancas, porta-voz do PSOE, logo após a votação reclamou em coletiva de imprensa o bloqueio. Classificou como um “boicote à eleição de abril de 2019 e a formação de um novo governo” feito pelos grupos de direita que votaram “não”, assim como indepedentistas e Podemos que “se abstiveram”. O socialista também ressaltou após a votação que Podemos “nunca quis negociar de verdade”, “que nunca quiseram debater conteúdos, mas sim cargos”. Por sua vez, Ione Belarra, porta-voz de Podemos, retrucou e disse “que estão dispostos a construir um governo de coalizão progressista”. A jovem deputada de Podemos, acusou o líder socialista Pedro Sánchez e seu partido, de colocar obstáculos e desculpas para formação desta coalizão.

A dúvida que resta é se agora, depois dos embates dos últimos, se ainda existe uma possibilidade de acordo entre os dois partidos de esquerda.

 

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Vinicius Sartorato

Jornalista e sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha).