domingo, 20 set 2020
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Explosão no Líbano não deve levar a novo conflito, diz especialista em Oriente Médio

O professor do curso de Relações Internacionais da ESPM e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios do Oriente Médio, Gunther Rudzit, talvez tenha sido o primeiro especialista a afirmar que a explosão no Porto de Beirute, no Líbano, na última terça-feira (4) foi consequência de um ataque e não um acidente.

Em entrevista exclusiva à Fórum, nesta sexta-feira, Gunther explicou a razão de ter sido tão taxativo em sua afirmação. Além disso, o professor ajudou a desvendar várias questões da conturbada situação política na região.

Entre outras coisas, ele afirma não acreditar que a explosão venha a provocar um novo conflito entre Israel e o Líbano.

O professor Gunther Rudzit. Foto: Divulgação

Fórum – Assim que viu as imagens das explosões em Beirute, você afirmou que se tratava de um ataque e não de um acidente? Com base em que você chegou a essa conclusão?

Gunther Rudzit – Nós recebemos muito rapidamente no nosso grupo de WhattsApp as primeiras imagens. E a primeira coisa que eu vi é que aparecia o armazém, fogo, fumaça e algo que pareciam ser fogos de artifício. As primeiras informações é que explodiu um depósito de fogos de artifício. Quando eu vi as imagens da explosão eu disse: ‘fogo de artifício não faz isso em nenhum lugar do mundo’. Então eu olhei de novo e vi que era munição. Aí eu reparei que já havia uma fumaça antes da grande explosão. Eu pensei: ‘só pode ser, só pode ser o Hezbollah’. O governo israelense já vinha afirmando que não iria permitir o desenvolvimento de mísseis de precisão que o Hezbollah estaria fazendo no Líbano. E como Israel já vinha atacando os comboios iranianos na Síria, que iam em direção ao Líbano e ao Hezbollah, os pontos se ligaram. Então pra mim foi claro, principalmente aquelas imagens iniciais. Aquilo não eram fogos de artifício, até onde eu conheço de química, o Nitrato de Amônia explode de vez. Ele não fica fazendo aqueles fogos de artifício entre aspas.

Fórum – O especialista em Oriente Médio, Robert Baer, diz que analisou atentamente o vídeo da explosão e concorda com você. Ele diz que foram “munições” que causaram a explosão no porto da capital libanesa. Ele faz uma pergunta interessante que talvez você possa responder: “Se foram explosivos militares, para quem eles foram ou por que foram armazenados lá?”

Gunther Rudzit – Pois é, esse é um grande problema paro o governo libanês, porque o porto de Beirute está sob autoridade do governo libanês. E se não era um depósito do exército libanês, de quem era? Quem no Líbano tem esse tipo de depósito? O Hezbollah.

Fórum – O presidente do Líbano, Michel Aoun, foi mais cauteloso e afirmou em entrevista nesta sexta-feira que “não se pode excluir” que as explosões ocorridas em Beirute nesta semana possam ter sido causadas por ataque de “míssil ou bomba”.

Gunther Rudzit – O próprio equilíbrio político do Líbano é muito delicado. Já herdaram aquela estrutura de cargos políticos da França no processo de descolonização, presidente pra um lado, o Judiciário pra outro, presidente da Câmara pra outro, já tem esse problema. E ao longo do equilíbrio populacional, essa foi uma das principais razões pra guerra civil, porque os Xiitas se tornaram maioria. Então você tem ali o Hezbollah que mantém um Estado dentro do Estado libanês. O Hezbollah é um partido político, tem escolas, hospitais, banco. Antigamente tinha rádio, TV e devem continuar tendo rádio. O Hezbollah tem um braço armado mais forte do que o próprio Exército libanês. Então aconteceu a explosão. Se disserem: “olha, tinha ali um depósito de armas do Hezbollah que pegou fogo, e acabou ocorrendo essa explosão”, você vai jogar parte não Xiita da população contra o Hezbollah. E aí você pode empurrar o país pra uma guerra civil. E se disserem que foi um ataque de Israel, a população vai pedir vingança. E ele vai jogar o país em uma guerra contra Israel? Então ele tá numa sinuca de bico política, como se diz aqui no Brasil.

Fórum – É uma pergunta ingênua considerar a possibilidade de que Israel possa pedir uma investigação conjunta com o Líbano sobre o conteúdo do armazém, ou isso é fora de qualquer cabimento?

Gunther Rudzit – Eu acho muito difícil. Israel já ofereceu ajuda, já está tentando passar uma imagem de bonzinho, de que quer ajudar o inimigo. Pra mim isso soa mais falso ainda.

Fórum – O jornalista Richard Silverstein publicou uma reportagem na terça-feira (4) afirmando que Israel foi o responsável pela explosão. Ele diz que este seria mais um crime de guerra em que Israel seria investigado pela Corte Penal Internacional. O que você acha disso?

Gunther Rudzit – Israel teria os motivos e os meios. Todos viram o Benjamin Netanyahu, em 2018, na ONU mostrando os mapas dos armazéns com armas nucleares. Lógico, você não vai mostrar tudo o que sabe, isso faz parte do processo de inteligência e contrainteligência. Aquilo ali pra mim já foi um alerta. Outra coisa, é que todas as vezes em que Israel atingiu esses carregamentos, o Hezbollah ameaçou retaliar e houve comunicados do governo israelense: “nós não vamos aceitar isso”. Então a situação por lá está de tal jeito que tudo indica. Então quais são os meios pra Israel fazer isso? Um avião soltando bomba de precisão. A gente lembra que o F-35, aquele caça americano furtivo que não é reconhecido pelo radar, já chegou em Israel. Os radares libaneses podem não ter detectado. Pode ter sido também um míssil de cruzeiro. Israel tem esses armamentos. E pode ter sido sabotagem do Mossad. Quantos cientistas iranianos já foram assassinados e a gente nunca sabe quem matou? Agora, era pra explodir um depósito de armas ou fábrica de mísseis do Hezbollah e acabou pegando um armazém de Nitrato de Amônia. De alguma forma o fogo foi mais intenso e acabou chegando lá. E isso provavelmente não era esperado.

Fórum – Você acha que essa explosão da última terça-feira pode provocar um novo conflito na região?

Gunther Rudzit – Não, não. Eu não acho. Até porque se houver alguma retaliação do Hezbollah contra Israel agora, é assinar embaixo que eles estão envolvidos nisso. Ficaria muito explícito que eles estariam retaliando um novo ataque israelense e não do Hezbollah. O Líbano não quer que o Hezbollah arraste o país pra uma guerra, pois vai ser como 2006. O país sairia arrasado de novo, em uma situação muito pior do que antes. Muito provavelmente vai ficar essa versão oficial de que foi um acidente. Daqui a pouco, com a pandemia o episódio é esquecido e, se o governo sobreviver a isso, vai estar feliz da vida.

Julinho Bittencourt
Julinho Bittencourt
Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.