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12 de julho de 2018, 15h34

O fascismo dentro das quatro linhas: jogadores croatas comemoram com saudações nazistas

Texto publicado no esquerdaonline mostra a relação direta entre a Croácia e seus jogadores com as manifestações de extrema-direita

Foto: Reprodução/YouTube

Por Gabriel Santos, para o Lateral Esquerda 

Croácia e Inglaterra jogaram na quarta-feira (11), pelas semifinais da Copa do Mundo na Rússia. Antes mesmo da bola rolar, a equipe croata se envolveu em uma grande crise. O zagueiro Domagaj Vida, autor de gol na classificação contra a Rússia pelas quartas, postou um vídeo ao lado do observador técnico Ognjen Vukojevic. No vídeo ambos fazem uma saudação utilizada por milícias neofascistas na Ucrânia. O defensor falou “Glória para a Ucrânia”, enquanto o membro da comissão técnica completou, “esta vitória é para o Dínamo e para a Ucrânia”. Tanto Vukojevic, quanto Vida jogaram pelo Dínamo de Kiev, um dos principais times ucranianos.

O vídeo repercutiu de forma imediata na Rússia, onde os telejornais criticaram a atitude do defensor. A Comissão Disciplinar da Fifa multou em 12 mil euros o zagueiro croata. Vale apontar que a FIFA não atuou no caso por ser uma declaração fascista, mas sim, pelo fato da FIFA proibir qualquer manifestação de caráter político.

A Federação Croata de Futebol (HNS) demitiu o observador técnico e emitiu uma nota pedindo desculpas pelo vídeo, porém, afirmando que não havia interesses políticos por trás do mesmo.

A crise entre Rússia e Ucrânia e a comemoração croata

Rússia e Ucrânia têm divergências históricas, porém, desde 2014 a relação entre os dois países, que fizeram parte até 1991 da União Soviética, é uma relação em clima de guerra. No ano de 2014, o então presidente ucraniano Victor Yanukovich se recusa a assinar um tratado de aproximação com a União Europeia, e se aproxima política, econômica e militarmente da Rússia. Diversos protestos contrários a esta decisão aconteceram no país.  Estes protestos, conhecidos como Euromaidan, foram liderados por organizações de direita e de extrema-direita, que reproduziam atitudes nazifascistas. Durante os protestos era possível ver diversas bandeiras com a cruz de ferro (um tradicional símbolo nazista), assim como outros emblemas mais tradicionais do nazismo ucraniano. Ativistas de esquerda, LGBT´s, membros do Partido Comunista, foram espancados durante os protestos que acabou se alastrando e se tornando um conflito armado.

As manifestações acabaram com o presidente Yanukovich deposto, um novo governo com uma coalizão entre as forças de oposição, onde se assinou o tratado com a União Europeia e foram feitas diversas leis criminalizando a língua russa, os partidos de esquerda e o passado soviético do país. A reação da Rússia e de Putin foi anexar a península da Crimeia (fato que gerou a expulsão do país do G8), um território cedido à Ucrânia em 1954, e que era de imensa maioria de forças e militantes pró-Rússia.

Com as medidas do novo governo começaram a surgir no leste do país manifestações pró-Rússia, que terminaram por criar Repúblicas autônomas. A situação se agravou para uma guerra civil, onde milícias de extrema-direita enfrentam os separatistas, com o saldo de mais de 10 mil mortos.

A comemoração do jogador croata, portanto, fazia analogia a este fato. Foi uma provocação aos russos e uma exaltação das milícias fascistas que estão no poder na Ucrânia.

Infelizmente, esta não é a única polêmica envolvendo a seleção croata e uma atitude nazista.

O histórico de relações entre os jogadores croatas e o nazismo

Em outro vídeo publicado anteriormente pelo defensor Dejan Lovren, vários jogadores da equipe cantavam a música “Bojna Cavoglave”, uma canção nacionalista e xenófoba, que faz apologia à ajuda da Croácia aos nazifascistas na Segunda Guerra. A música é da banda “Thompson”, que tem diversas letras entoadas nos estádios croatas durantes os jogos da seleção.

Durante a Segunda Guerra, quando as tropas de Hitler atacaram a Iugoslávia em abril de 1941, as forças armadas alemãs (Wehrmacht) tiveram apoio de grupos iugoslavos. O Partido Ustasha, de extrema-direita, nacionalista e fascista, apoiou com suas milícias o avanço das tropas nazistas, pois queriam a independência da Croácia frente à Iugoslávia. Quatro dias depois do início dos ataques, Hitler declarou que havia sido criado o Estado Independente da Croácia. As tropas nazistas eram recebidas com festa na capital Zagreb.

A católica Croácia conseguia realizar o sonho de se separar da ortodoxa Sérvia. Durante os quatros anos como um Estado independente (1941-1945), com um governo fascista e com grande base religiosa, buscou fazer uma purificação racial e executou, com sua milícia, mais de 750 mil pessoas, entre sérvios, judeus, ciganos e antifascistas.

As músicas da banda “Thompson” cantadas a plenos pulmões pelos jogadores croatas falam sobre o genocídio dos servos, e exaltam os anos sombrios do antigo Estado croata. Não é possível que os jogadores da seleção não conheçam a origem destas músicas e das saudações que cantam e fazem.

Em 2013, o então capitão da seleção Simunic, após a partida que classificou a seleção para a Copa do Mundo do Brasil, cantou junto com torcedores diversos cânticos nazistas e de exaltação a Ustasha, além de fazer saudações fascistas e em homenagem a Hitler. Simunic, que é considerado um ídolo em seu país, recebeu uma sanção de 10 jogos, ficando proibido de jogar a Copa de 2014.

O fascismo entre os jogadores da seleção não é algo que é repudiado pela mídia, governo ou por entidades. No país, com um governo conservador, o passado nazifascista é visto como parte da formação do atual Estado Croata, não existindo um sentimento público de repulsa.

Desde a guerra pela independência do país (1991-1995), um crescente nacionalismo e aceitação de ideias de extrema-direita podem ser vistos. Ano passado o governo croata retirou estátuas do líder comunista iugoslavo Tito de diversas cidades, mudando nomes de ruas e praças que o homenageavam. O governo permitiu também que os veteranos da unidade paramilitar, HOS, que combateu na guerra de independência, colocassem, em homenagem aos soldados mortos, uma placa com um lema fascista a algumas centenas de metros de um antigo campo de concentração, onde foram assassinados sérvios e judeus na Segunda Guerra.

A frase em questão, “Za dom spremni” (assuntos para a Pátria), era a saudação oficial das tropas de Ustasha e do antigo Estado croata pró-fascista na Segunda Guerra. É importante colocar que as tropas da unidade HOS utilizam a frase fascista em seus símbolos. Desde que se separou da Iugoslávia em 1991, foram destruídos cerca de 3.000 monumentos que homenageavam os movimentos anti-fascistas.

Nessa semifinal entre Croácia e Inglaterra, nem tudo estava perdido. Jogadores da seleção inglesa, como Lingard e Dele Ali, comemoram seus gols com a coreografia do clipe “This is America”, música que denuncia o racismo e a violência policial nos Estados Unidos.

A conivência da federação croata com o fascismo de seus atletas merece ser repudiado. Isso só mostra que, em tempos de crescente xenofobia, ideias nacionalistas e de extrema-direita, é mais do que preciso e importante discutirmos o passado, para melhor combater essas ideias no presente.


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